Kill Bill: Volume 2

26/04/2005 | Categoria: Críticas

Tarantino faz reviravolta na trama e entrega filme menos alucinado e mais, pasme!, romântico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O primeiro volume de “Kill Bill” termina com uma surpresa eletrizante. Depois de quase duas horas de ação frenética, incluindo uma longa luta de artes marciais de uma mulher contra 88 homens, Quentin Tarantino oferece mais uma demonstração do extraordinário poder que a palavra possui, em seus filmes, e faz determinado personagem pronunciar uma frase – uma única frase! – que faz o espectador quase pular da cadeira e amaldiçoar o estúdio Miramax por ter dividido o épico original em duas obras distintas.

Esse é um dos poucos momentos em que a qualidade mais apreciada do cineasta norte-americano – os diálogos mordazes – aparece, na primeira parte da aventura. Pois bem: “Kill Bill: Volume 2” (EUA, 2004) resgata essa faceta tagarela de Tarantino. Ao mesmo tempo, diminui sensivelmente a carga de seqüências de ação, retomando o ritmo natural dos filmes do cineasta. O trabalho tem apenas uma seqüência que envolve artes marciais e termina sem pancadaria, em um tom suave, agridoce, quase como um suspiro melancólico. Lembra o pouco apreciado mas muito talentoso “Jackie Brown”. E é ótimo.

Tarantino não perde tempo para fazer o espectador entrar na trama. A película abre exatamente da mesma maneira que a primeira parte, com um rápido flashback que mostra Bill (David Carradine) acertando um tiro na cabeça da Noiva (Uma Thurman). “Você pode pensar que estou sendo sádico, baby. Mas não. Esse é o meu momento mais masoquista”, murmura o assassino, antes de disparar o tiro responsável por deixar a garota em coma por quatro anos. Essa frase é crucial para o desenvolvimento do enredo “Kill Bill: Volume 2”. Mais detalhes nos próximos parágrafos.

Tarantino relembra os acontecimentos do primeiro filme com uma de suas brincadeiras favoritas: uma referência visual aos clássicos melodramas da Hollywood dos anos 1930 e 1940, a exemplo de “Casablanca”. Numa seqüência rápida e mostrada em preto-e-branco, A Noiva dirige um carro esporte e explica ao espectador, olhando para a câmera e falando diretamente com ele, o que ocorreu em “Volume 1”. Ângulo de câmera, enquadramento, cor e até cenários homenageiam as seqüências irreais dos melodramas antigos, quando os motoristas nem olhavam para a estrada quando dirigiam seus carros esportivos pelas estradas dos Estados Unidos.

Aí o filme começa de verdade. Tarantino deixa de lado a quantidade fenomenal de referências a peças da cultura pop (elas existem, mas em quantidade muito menor do que em “Volume 1”) para se concentrar em mostrar que, no cinema, nem sempre as coisas são como parecem. Trata-se, na verdade, de revisitar, com tintas mais fortes, um terreno já conhecido pelo cineasta – e aqui a conexão com “Jackie Brown” é evidente: pegar um vilão escroque e transformá-lo em um sujeito humano e sensível. Pelo menos tanto quanto é possível para alguém capaz de atirar na cabeça de uma mulher grávida a sangue frio.

A primeira cena de verdade de “Kill Bill: Volume 2” mostra, pela primeira vez, como aconteceu exatamente o massacre dentro da capela no Texas. No primeiro filme, só havíamos visto fragmentos. Acredite: as coisas não são exatamente como o espectador foi levado a acreditar, pelos acontecimentos vistos em “Volume 1”. A surpresa é grande e modifica inteiramente a percepção da platéia sobre o primeiro filme. Aquela frase de Bill antes de balear a Noiva, por exemplo, ganha significado completamente diferente. E o filme também. Não demora muito para o espectador perceber que não está mais assistindo a uma aventura de artes maciais, mas a uma das histórias de amor mais originais dos últimos tempos.

Tarantino exibe a sutileza e a segurança dos grandes cineastas; jamais contradiz o que havia dito, mas mostra como um mesmo acontecimento, visto de dois ângulos, pode ter significados distintos. A primeira aparição de Bill, cujo rosto a platéia vê pela primeira vez em “Kill Bill: Volume 2”, ainda remete ao inesquecível personagem Harmonica, que Charles Bronson eternizou em “Era uma Vez no Oeste”, de Sergio Leone, diretor favorito de Tarantino.

O longo flashback da capela faz o filme engrenar em direção inesperada, mas depois a trama retoma o curso anterior. A Noiva vai atrás de vingança, procurando os assassinos que a deixaram em coma: Budd (Michael Madsen), Ellie Driver (Daryl Hannah) e o próprio Bill. No filme anterior, ela já havia tirado a vida de Vernita Green (Vivica Fox) e O-Ren Ishii (Lucy Liu). Dessa vez, porém, a Noiva – cujo nome verdadeiro a platéia finalmente fica sabendo, e é outra pequena homenagem a “Casablanca” – não usa apenas sua magnífica espada Hatori Hanzo, mas pega em armas mais pesadas.

No curso da ação, Tarantino faz uso de todo o arsenal de truques que possui na manga. Há belas canções desconhecidas de 30 anos atrás, com pérolas da soul music (Issac Hayes, Quincy Jones), música mexicana (Elpídio Ramirez) e italiana (Luis Bacalov, Ennio Morricone). Característica tradicional do diretor, os longos flashbacks são usados para contextualizar melhor a relação entre Bill e a Noiva, e ainda para explicar ações que estão por vir. O complicado vai-e-vem na cronologia, recurso que Tarantino também usou com eficiência nos trabalhos anteriores, encaixa mais naturalmente neste filme do que em “Volume 1”.

“Kill Bill: Volume 2” merece a assinatura do seu criador. É uma bela homenagem aos gêneros que Tarantino admira (faroestes italianos, aventuras asiáticas) e vai muito, muito além disso. Hollywood adora utilizar a expressão “entretenimento com cérebro”, mas poucas vezes essa expressão consegue ser tão apropriada para descrever filmes como o é para as obras de Tarantino. A lamentar, apenas a decisão estúpida da Miramax de dividir um filme maravilhoso como “Kill Bill” em duas partes. Nada que o DVD não resolva, certo?

Falando nele, o DVD de “Kill Bill: Volume 2”, lançado pela Imagem Filmes, segue a mesma linha do primeiro filme. É um disco simples, com o corte original do filme (o formato widescreen, com barras negras em cima e embaixo da imagem, é importante, porque preserva a imagem correta que Tarantino queria) e opção de som em DTS. Em português, o áudio está no formato Dolby Digital 2.0, com apenas dois canais.

Como extras, destaca-se um documentário de bastidores (26 minutos de entrevistas com atores, diretor e produtor) e um segmento musical (11 minutos) exibido na MTV. Uma cena cortada (3 minutos) completa o disco.

– Kill Bill: Volume 2 (EUA, 2004)
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Uma Thurman, David Carradine, Michael Madsen, Daryl Hannah
Duração: 136 minutos

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