King Kong (1933)

10/01/2006 | Categoria: Críticas

Produção pioneira em Hollywood dá show de efeitos especiais, mas tem ritmo irregular

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

A produção original de “King Kong” (EUA, 1933) pode ser considerada, sob diversos aspectos, legendária. O filme da dupla Merian Cooper e Ernest Schoedsack marcou tão profundamente o imaginário coletivo do espectador norte-americano de cinema que tornou-se pioneiro e marco fundamental do tipo de filmes que Hollywood se especializou em produzir, a partir de então: a megaprodução, ou blockbuster, cujo maior atrativo está no realismo dos efeitos especiais e na capacidade de conceber e produzir histórias maiores do que a vida.

A produção de “King Kong”, na verdade, reflete alguns aspectos interessantes sobre o pioneirismo da indústria do cinema nos EUA. Os diretores, por exemplo, eram dois amadores. O coronel Merian Cooper era um militar graduado que estava se especializando em filmar documentários em lugares selvagens. Além disso, era também amigo do produtor David O. Selznick, chefe dos estúdios RKO. Foi Cooper que, num ato de egocentrismo incontrolável, convenceu Selznick a dar sinal verde para um filme baseado nele mesmo. Para co-dirigi-lo, contratou o jornalista Ernest Schoedsack, outro amigo. Junto ao escritor Edgar Wallace, eles reelaboraram a história, utilizando-a como moldura para uma atualização do mito da Bela e da Fera (citado inúmeras vezes no longa). Para isso, criaram um gorila descomunal que se apaixona por uma mulher. Não sabiam, mas estavam materializando uma das criaturas mais lendárias do cinema.

De qualquer forma, os aventureiros da RKO não iriam a lugar nenhum sem a verdadeira estrela por trás do longa-metragem: Willie O’Brien, criador de maquetes e técnico de animação que havia trabalhado no célebre “O Mundo Perdido” (1925), primeira aparição dos dinossauros nas telas dos cinemas. Quando foi sondado para a produção de “King Kong”, O’Brien estava trabalhando em outro projeto sobre dinossauros. A pedido dos chefões dos estúdios RKO, ele preparou uma seqüência em que mostrava o gorila gigante brigando com um T-Rex. O material deixou os executivos boquiabertos.

O sinal verde desencadeou o início da produção, comercialmente colossal. O filme faturou US$ 90 milhões, tornando-se a melhor estréia da época e salvando a RKO de uma falência quase certa. O estúdio, dessa maneira, dava partida a um dos projetos mais míticos da história de Hollywood. Foi a partir deste filme que os estúdios norte-americanos se convenceram de que, com dinheiro e criatividade, eram capazes de produzir qualquer efeito necessário para erguer um longa-metragem. A partir dali, Hollywood e os efeitos especiais andariam de mãos dadas, em um casamento duradouro.

Visto no século XXI, é óbvio que o realismo de “King Kong” não se sustenta da mesma maneira, mas ainda impressiona. A interação entre atores, cenários (reais e maquetes extremamente elaboradas) e as criaturas funciona com muita competência no aspecto técnico. O gorila e os animais pré-históricos, construídos com massa de modelar, alumínio e pele de animais, são bem feitos e movimentados com habilidade, através da técnica do stop motion (resumidamente, cada fotograma é uma fotografia com pequena alteração em relação ao anterior, o que causa o efeito de movimento quando projetados em película). Do ponto de vista da construção da narrativa, o filme não chega a ser perfeito, mas isso pouco importa.

Talvez por ter sido dirigido por dois amadores, “King Kong” tem um ritmo irregular. Eis a trama: o cineasta Carl Denham (Robert Armstrong) contrata uma atriz desempregada, Ann Darrow (Fay Wray), para fazer uma viagem misteriosa de navio, com destino incerto. Denham só revela o enredo do filme à garota e aos tripulantes do navio quando a trupe está em alto mar. Eles vão a uma ilha deserta na Indonésia, onde reza a lenda que existem monstros. Durante a viagem, Ann se apaixona pelo imediato Jack Dricoll (Bruce Cabot) e é correspondida. Este primeiro ato é bastante longo, com mais de 30 minutos, e as cenas de sucedem de forma meio abrupta.

Após os primeiros 30 minutos de filme, “King Kong” entra em ritmo de corrida de automóveis, e ganha um segundo de correria desenfreada. Há longas seqüências sem diálogos, em que o gorila gigante rapta Ann e luta com diversas criaturas pré-históricas, antes de ser capturado, enquanto parte dos homens se embrenha na perseguição pela selva. Embora a maior parte dessas cenas seja de fato impressionantemente bem realizada, para os padrões da época, o filme acaba por tornar-se meio enfadonho, precipitando-se rumo a um final de tom bem distinto, quase que inteiramente emocional.

De qualquer forma, impressiona o alto teor de sexo e violência, extremamente ousados para a época, que emana das imagens. A seqüência em que Kong arranca as roupas de Ann, deixando-a praticamente pelada, permanece como uma das mais eróticas do cinema em todos os tempos, causou alvoroço no público da época. Além da seqüência, a violência de Kong, que pisoteia um homem e desmembra com os dentes alguns outros, também marcou época. Todas essas cenas, que foram gradativamente cortadas do filme original e somente reincorporadas a ele na década de 1970, garantem lugar de honra a “King Kong” na galeria dos projetos mais míticos que Hollywood já produziu.

Além disso, há a trilha sonora histórica de Max Steiner. Influenciado pelos compositores neo-românticos europeus do final do século XIX, o maestro fez o que era normal na época (usar os arranjos musicais para enfatizar o tom emocional de cada cena), mas agregou um novo elemento: a música substituía os efeitos sonoros, pontuando detalhadamente os movimentos dos personagens. Numa das cenas, em que o chefe da tribo que adora Kong desce as escadas solenemente, a orquestra acompanha cada passo dele com toques de tuba que dão à seqüência uma tensão inigualável. Esse tipo de descrição sonora se tornaria regra em Hollywood, sendo utilizado até hoje em praticamente todos os filmes.

O filme está disponível no Brasil em três diferentes edições. Duas delas (a da Continental e outra vendida em bancas) têm cópia irregular, com imagens arranhadas e trilha de áudio em inglês (Dolby Digital 2.0). A edição especial da Warner, no entanto, é um show. Além de imagens restauradas e áudio perfeito, há no disco 1 comentário em áudio com os experts Ray Harryhausen e Ken Ralston, com trechos de Merian Cooper e Fay Wray comentando o filme. No disco 2, são dois documentários com quase quatro horas, um deles (57 minutos) biografando Cooper e outro (154 minutos) enfocando os bastidores do filme.

Esse último, produzido pelo diretor Peter Jackson (que assinou a refilmagem e é um dos fãs mais radicais do filme no planeta), é um dos melhores documentários sobre longas-metragens já produzidos. Há grande quantidade de material raro (inclusive uma dramatização de 10 minutos, usando fotos e cenas inacabadas, do projeto de Willis O’Brien que gerou os monstros do longa-metragem), dezenas de entrevistas com técnicos de efeitos especiais e grandes diretores (John Landis, Frank Darabond e o próprio Jackson), além de detalhes deliciosos. Material de colecionador.

– King Kong (EUA, 1933)
Direção: Merian Cooper e Ernest Schoedsack
Elenco: Fay Wray, Bruce Cabot, Robert Armstrong, Frank Reicher
Duração: 100 minutos

| Mais


Deixar comentário