King of Kong, The

08/06/2008 | Categoria: Críticas

Seth Gordon usa técnicas do melodrama para documentar luta de dois marmanjos pelo recorde mundial de um videogame

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Desde a grande ascensão do cinema independente nos Estados Unidos (meados da década de 1990), a ficção produzida em Hollywood tem absorvido muitas técnicas documentais. Esta afirmação pode ser comprovada, por exemplo, observando-se o avanço da estética naturalista dentro da produção dos grandes estúdios, como se pode ver na série “Bourne” e no trabalho inovador do cineasta Paul Greengrass. O contrário, porém, também tem acontecido. Cada vez mais, os documentários deixam de lado a estrutura narrativa didática e jornalística, adotada com freqüência desde os anos 1960, para beber na fonte do melodrama. O divertido “The King of Kong” (EUA, 2007) é um dos melhores exemplos disto.

O filme documenta a disputa de dois marmanjos pelo recorde mundial do game Donkey Kong, eleito o terceiro mais popular jogo eletrônico de todos os tempos. Aliás, “documenta” não parece ser o verbo mais adequado para descrever o trabalho do diretor Seth Gordon. Através de uma edição inteligente mas não muito sutil, o cineasta sublinha certas características dos dois concorrentes, elimina outras, e constrói uma variação documental de “Rocky – O Lutador”, um dos longas que mais obtiveram uma resposta emocional da população norte-americana na década de 1970. O filme mostra uma luta de Davi contra Golias. Um pobre-coitado brigando sozinho, com o apoio exclusivo da família, para derrotar um oponente rico, poderoso e mal-intencionado.

E não é que funciona? Mais do que flagrar uma batalha de egos inflados por uma causa inútil (este aspecto também existe, e diz muito a respeito da obsessão autenticamente norte-americana pelo conceito de “ser o melhor do mundo” em alguma coisa, nem que seja em atirar bolinhas de gude vermelhas pela janela do quarto andar da casa da vizinha), “The King of Kong” entretém e diverte com qualidade. Tem uma narrativa emocionalmente envolvente, ágil e bem-humorada. Conta com edição simples e eficiente, e divisão clara em três atos, contando com um clímax de alta voltagem dramática. Além de tudo isso, possui ainda uma trilha sonora perfeita, que contribui para desenvolver a narrativa através do uso bem bolado de trechos de canções pop da virada 1970/80 (a época remete à fase mais popular do jogo eletrônico em questão), cujas letras comentam sarcasticamente aspectos da história.

O protagonista é um ex-empregado da Boeing que se tornou professor ginasial de Ciências. Sonhador e determinado, Steve Wiebe sempre cultivou o sonho de se tornar, oficialmente, o melhor do mundo em alguma coisa – qualquer coisa. Ele leu na Internet sobre o recorde mundial de Donkey Kong, detido por Billy Mitchell, dândi almofadinha da Flórida, dono de um restaurante e microempresário de sucesso. Wiebe, então, instalou uma máquina de Donkey Kong na garagem de casa e usou sua habilidade em Matemática para desenvolver um padrão capaz de lhe permitir bater o incrível recorde de Mitchell, obtido em 1982. Mal sabia ele que superar o recorde do concorrente seria a parte mais fácil de um verdadeiro drama shakespeareano, cheio de intrigas, traições e reviravoltas.

A narrativa concebida por Seth Gordon é eletrizante, e revela aspectos curiosos do chamado “sonho americano”, como a já citada obsessão coletiva das pessoas por se tornar alguém importante, e também a influência fundamental da cultura pop no imaginário e no cotidiano do país. Os senões ao filme vêm justamente do aspecto ético da narrativa. Basta um pouco de pesquisa usando o Google para que o espectador descubra muitos fatos, relacionados aos dois personagens principais, que a estrutura narrativa opta por deixar de lado. Fica evidente que Gordon não mediu esforços para construir, usando apenas os detalhes do caso que interessavam, dois personagens mais ou menos ficcionais, a partir de pessoas de carne e osso.

A estratégia funciona mais ou menos como a atitude de montar uma peça de ficção a partir de pedaços da realidade – o resultado final pode ser excitante e envolvente, mas seria também ético e honesto? Estas duas características sempre foram objeto de muito debate no terreno documental, porque é muito difícil, para qualquer diretor, abordar um tema com objetividade total. Além do mais, em tempos de Michael Moore, a manipulação de dados reais na fase da montagem de documentários não tem sido exatamente uma novidade. Assim, se por um lado “The King of Kong” deixa pontos de interrogação a respeito da validade ética enquanto documentário, por outro lado possui um sabor de novidade como poucos longas-metragens têm sido capazes de trazer nos últimos tempos.

Se nos Estados Unidos o documentário só passou em 39 salas de cinema, calcule no Brasil. Por aqui, não conseguiu espaço nem mesmo em mostras ou festivais. Também não foi lançado em nenhum formato, ou exibido na TV. Nos EUA, o DVD simples tem o filme, com imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) bons. Dois comentários em áudio (diretor e produtores), um pequeno documentário animado contando a história do jogo e um trailer compõem o pacote.

– The King of Kong (EUA, 2007)
Direção: Seth Gordon
Documentário
Duração: 78 minutos

| Mais


Deixar comentário