Kinsey – Vamos Falar de Sexo

14/08/2005 | Categoria: Críticas

Bill Condon conta vida de polêmico biólogo com bom-humor e narrativa sem gorduras

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A safra de 2004 foi particularmente generosa no número de cinebiografias produzidas em Hollywood. Os grandes estúdios parecem ter descoberto que uma fórmula infalível para conquistar indicações ao Oscar é produzir filmes que resumem a vida de pessoas famosas. Três dessas produções estavam na lista de candidatos a melhor filme do ano. Como de praxe, porém, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood escorregou ao deixar de fora da lista a melhor cinebiografia de 2004: “Kinsey – Vamos Falar de Sexo” (EUA, 2004), produção dinâmica, inteligente e divertida do subestimado diretor Bill Condon.

Condon é um cineasta sensível e, ao mesmo tempo, um militante da causa gay. Seu ótimo filme de 1998, “Deuses e Monstros”, tocou no assunto com sensibilidade, ao enfocar a vida do talentoso cineasta James Whale (“A Noiva de Frankenstein”), relegado ao limbo de Hollywood por causa de sua opção sexual. Os filmes de Bill Condon são provocantes alfinetadas na hipocrisia moral típica dos norte-americanos médios. O diretor, contudo, não faz panfletarismo, mas dramas inteligentes com refinado senso de humor. “Kinsey” consegue a proeza de ser ainda melhor do que “Deuses e Monstros”.

Dessa vez, Condon escolheu uma figura polêmica para biografar. O biólogo Alfred Kinsey foi responsável pela maior revolução sexual do século XX, ao realizar um abrangente estudo sobre os hábitos sexuais nos EUA. Ele publicou o livro “Comportamento Sexual do Macho”, em 1948, e dedicou volume semelhante às mulheres, no ano seguinte, provocando um tremendo escândalo e abalando profundamente o conservadorismo ianque.

O estudo de Kinsey, que entrevistou meticulosamente 20 mil pessoas sobre os hábitos sexuais, derrubou muitos mitos que mascaravam a vida na alcova. Kinsey provou, por exemplo, que a masturbação na adolescência não faz nascer cabelo na mão e nem diminui o desejo sexual do homem que chega à idade adulta. O filme, de quase duas horas, concentra-se na fase da pesquisa revolucionária, mostrando como as descobertas do biólogo influenciaram no casamento dele e na vida pessoal dos assistentes que participavam do estudo. Além disso, aborda também como o preconceito social dificultou o financiamento da pesquisa.

Logo de saída, Bill Condon tomou uma decisão que se mostra acertada: enfocar o filme apenas na vida de Alfred Kinsey (Liam Neeson). Pessoas importantes na trajetória do biólogo, como a esposa Clara McMillan (Laura Linney) e o principal assistente, Clyde Martin (Peter Sarsgaard), são personagens verdadeiramente secundários. O filme não investiga as vidas pessoais dos dois, e de mais ninguém; não se chama “Kinsey” por acaso. Clara e Clyde aparecem muito na tela, mas a platéia jamais fica sabendo nada sobre os dois que não seja importante, ou não tenha tido algum reflexo, para Al Kinsey, ou ProK, como era conhecido pelos amigos e pela família.

Essa decisão permitiu ao diretor fazer um longa-metragem dinâmico, sem gorduras (aqueles momentos de interrupção na ação dramática principal que acabam fazendo alguns filmes parecerem lentos). “Kinsey” abre correndo como uma bala, em uma criativa montagem paralela que mostra o personagem principal servindo como cobaia para treinar os seus entrevistadores. Ao simular uma entrevista consigo mesmo, ele relembra os fatos mais importantes da infância e da juventude, quase sempre envolvendo o pai repressor (John Lithgow). Esses momentos são exibidos em flashbacks rápidos. Quando os créditos terminam, em pouco mais de cinco minutos, já encontramos Al Kinsey dando aulas de Biologia e preparando terreno para a incrível jornada de descoberta sexual em que vai se lançar.

Quem espera um filme pesado, por causa da temática, vai se surpreender com o roteiro leve e sagaz, escrito pelo próprio Bill Condon. Um senso de humor mordaz sem ser escrachado dá o ar da graça, principalmente na primeira metade do longa-metragem, e é responsável por seqüências hilariantes. Uma delas – uma entrevista para o estudo, conduzida por um dos ajudantes do biólogo – é um dos melhores momentos cômicos de 2004, e trata do tema-tabu “sexo com animais” de maneira espirituosa e sem um pingo de preconceito.

Da mesma forma, Bill Condon evita sabiamente uma insistência exagerada nas questões da agenda GSL, o que poderia afastar parte do público e, pior ainda, deixar o filme excessivamente didático e, portanto, mais chato. O diretor trata do tema “homossexualidade” com naturalidade, mostrando como a natureza meticulosa e disciplinada do biólogo influenciou na vida sexual – Kinsey teve relações homossexuais para examinar seus próprios desejos, embora fosse apaixonado pela esposa – e também na vida conjugal.

Apesar da direção segura e do texto correto, “Kinsey” não seria tão bom sem a condução exemplar do elenco. O irlandês Liam Neeson compõe o personagem com energia e segurança, Laura Linney exibe o charme habitual e Peter Sarsgaard comprova, mais uma vez, que é um dos atores mais talentosos na nova geração. Todo o resto do elenco, que inclui John Lithgow, Oliver Platt, Timothy Hutton e Chris O’Donnell, interpreta no mesmo compasso do trio principal. As atuações são uniformemente excelentes.

Outro destaque é a ótima trilha sonora de Carter Burwell, colaborador habitual dos irmãos Coen, que aproveita o catálogo incomparável de pérolas do cancioneiro popular norte-americano (a canção de Cole Porter que cita o estudo feito por Kinsey, ouvida em uma cena perto do final, é a cereja no bolo) para ajudar a dar credibilidade à correta, embora não brilhante, reconstituição de época. Se há um pequeno defeito em “Kinsey”, ele está em algumas cenas excessivamente melodramáticas que aparecem no terço final da projeção. Mas isso não tira o brilho de uma das mais espertas cinebiografias dos últimos tempos.

O DVD nacional, da Fox, traz uma galeria de cenas excluídas (24 minutos), um segmento com erros de gravação (3 minutos) e comentário em áudio com Bill Condon. O filme comparece no corte original (widescreen) e com trilha de áudio Dolby Digital 5.1.

– Kinsey – Vamos Falar de Sexo (EUA/Alemanha, 2004)
Direção: Bill Condon
Elenco: Liam Neeson, Laura Linney, Chris O’Donnell, Peter Sarsgaard
Duração: 118 minutos

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