Klute – O Passado Condena

28/02/2007 | Categoria: Críticas

Mescla de thriller e romance inusitado, filme de Alan J. Pakula revela aspecto pouco conhecido do submundo da noite

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Filme que traz o carimbo “feito nos anos 1970” em cada polegada de celulóide, “Klute – O Passado Condena” (EUA, 1971) é um romance inusitado, entre duas pessoas de culturas completamente distintas, disfarçado de thriller de suspense. Mais do que estabelecer o nome do cineasta Alan J. Pakula como um dos mais promissores do período, o longa-metragem firmou o nome de Jane Fonda como uma das mais talentosas e sensuais atrizes daquela década. De fato, o filme deveria se chamar “Bree”, porque este é o nome da personagem de Fonda, cuja interpretação eletrizante e cheia de confiança de uma prostituta de luxo joga luz sobre um pouco conhecido aspecto do submundo da noite nas grandes metrópoles.

Talvez “Klute” não tenha se transformado em um dos grandes filmes dos anos 1970 devido a um erro de estratégia da Warner. Na época, o marketing elaborado pelo estúdio vendeu “Klute” como um thriller do tipo “descubra quem é o assassino”. Em uma olhada superficial isso até faz sentido, pois a história relata os esforços do detetive particular John Klute (Donald Sutherland) para localizar um executivo do meio-oeste, desaparecido um ano antes. A única pista de Klute é um par de cartas ameaçadoras, escritas pela vítima de sumiço para uma garota de programa de Nova York, pouco antes do desaparecimento. Pelo jeito, ele poderia ter se tornado um serial killer.

Quando Bree (Fonda) é finalmente localizada, Klute não esconde a atração que sente por ela, e o filme muda bruscamente de rumo, passando a enfocar mais fascinante jogo de sedução que se estabelece entre os dois, e menos a trama policial. Inteligentemente, Pakula joga com o choque de culturas para criar ao mesmo tempo empatia e tensão sexual entre o casal. Ele é um homem tímido e pacato, de poucas palavras, e vem do meio-oeste, região mais conservadora dos EUA. Ela, por sua vez, personifica a típica garota da cidade grande: na aparência é bonita, ousada, inteligente e ciente do poder da própria beleza, mas no íntimo é insegura, do tipo de dorme segurando um urso de pelúcia. A paixão verdadeira que ela pressente no detetive a deixa desconcertada, e também profundamente atraída. O romance é inevitável.

Pakula injeta suspense no encontro entre esses dois personagens, ambos interessantes e bem desenvolvidos, através dos ângulos bizarros capturados pela câmera do grande Gordon Willis. Primeiro profissional a filmar rostos em contraluz e conhecido no meio pela apelido de “Príncipe das Trevas” (confira os dois primeiros “O Poderoso Chefão” para entender o porquê), Willis freqüentemente utiliza o ponto de vista de uma terceira pessoa, que a platéia logo percebe estar seguindo Bree. A conclusão lógica é que estamos diante do criminoso responsável pelo sumiço do executivo – ou, talvez, o próprio seja o assassino. Muitas vezes, a câmera fica distante da ação, e nas cenas noturnas Willis capricha nas sombras, mergulhando toda a ação na penumbra. Muito bom.

Infelizmente, “Klute” tem dois defeitos graves. O primeiro é o excesso de psicologia para “explicar” o caráter auto-destrutivo de Bree. O roteiro de Andy e Dave Lewis usa um recurso barato para isto: faz com que a prostituta freqüente uma psicóloga e exiba, nas sessões, uma incrível capacidade de auto-análise, sem que isto signifique que ela altere seu comportamento irascível. O outro problema é que a parte thriller da narrativa perde força rapidamente, permitindo que a platéia identifique, mais ou menos na metade da projeção, a identidade do criminoso. Mesmo com os problemas, a excelente ambientação e o brilhante retrato do submundo da prostituição de luxo garantem diversão de alto nível ao espectador.

O DVD da Warner é bastante decente. O filme aparece com boa qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0). Como extra não-legendado, há um pequeno documentário (11 minutos) feito na época das filmagens.

– Klute – O Passado Condena (EUA, 1971)
Direção: Alan J. Pakula
Elenco: Jane Fonda, Donald Sutherland, Roy Scheider, Charles Cioffi
Duração: 114 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »