Kung Fu Panda

19/11/2008 | Categoria: Críticas

Qualidade de animação caprichada, humor infanto-juvenil e montagem eficiente compensam recauchutagem de idéias batidas no roteiro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A Dreamworks é a segunda firma mais eficiente do mundo no campo da animação computadorizada. Em termos criativos, porém, a distância entre o vice e o campeão da categoria – a Pixar, empresa responsável por “Toy Story” (1995) e “Procurando Nemo” (2003) – tem aumentado a cada filme. Enquanto a empresa líder no setor aposta em idéias arrojadas e muita criatividade, a Dreamworks se limita a repetir a mesma estrutura narrativa, obra após obra. Basicamente, “Kung Fu Panda” (EUA, 2008) funciona como uma variação da franquia de maior sucesso do estúdio (a série “Shrek”), só que ambientada na China. O único elemento novo trazido pela animação está na paródia inteligente aos filmes chineses de artes marciais, que os diretores novatos Mark Osborne e John Stevenson inseriram no enredo pouco original.

A semente original do filme remonta ao ano de 2004, quando uma pequena produção oriental envenenou a receita criada por Jackie Chan e agregou fartas doses de comédia pastelão às longas e frenéticas seqüências de artes marciais. “Kung-Fusão”, de Stephen Chow, fez sucesso no mundo todo. De imediato, a Dreamworks começou a trabalhar na história de um urso panda gordo e desajeitado que deseja se tornar um guerreiro. Quatro anos depois, “Kung Fu Panda” estreou sob elogios da crítica e fez US$ 60 milhões no primeiro final de semana, nos Estados Unidos, levando o estúdio a eleger o urso oriental como o sucessor do outro personagem gordo, desastrado e nojentinho que virou astro do estúdio, o ogro Shrek.

As semelhanças entre “Kung Fu Panda” e a franquia de maior sucesso do estúdio não são pequenas. Além do perfil físico e comportamental dos dois personagens principais ser bem parecido (o ogro é um misantropo, mas também levava uma vida bem ordinária antes de virar herói a contragosto, como ocorreu com o urso), o enredo trilha o mesmo rumo, tendo como subtexto o batidíssimo tema da importância da persistência para que as pessoas consigam realizar seus sonhos, e enfatizando o caráter “diferente” do protagonista, que não se encaixa nos padrões convencionais. Sob esse aspecto, “Kung Fu Panda” acaba se revelando uma versão atualizada de “Karatê Kid” (1984), a velha aventura de artes marciais que embalou a adolescência de uma geração inteira, com repetecos quase mensais em tardes chuvosas dos anos 1980.

O roteiro abre bastante espaço para o humor meio chulo, pastelão e meio grosseiro, fazendo as inevitáveis gracinhas nojentas (no caso, tirando sarro da maneira atabalhoada como o panda come e anda). O texto peca pela falta de criatividade, limitando-se a recauchutar piadas e gagas antigas, como as tentativas desastradas (roubadas dos antigos desenhos animados de Chuck Jones) que o animal faz para conseguir entrar na reunião que apontará o herói do povoado, responsável por defendê-lo contra o ataque iminente de um vilão perigosíssimo, espécie de Darth Vader das selvas. O fabuloso elenco de vozes na versão original, que conta com Dustin Hoffman, Angelina Jolie, Jackie Chan, Seth Rogen e Jack Black (como o panda, claro), ameniza um pouco a falta de inspiração do roteiro, ponto fraco da produção.

Por outro lado, a parte conceitual e visual do filme compensa os problemas com referências bem boladas ao estilo hiperativo de animação adotado pelos mangas japoneses. Algumas das seqüências de luta, por exemplo, adotam um truque esperto, inventado pelos orientais, para expressar a idéia de velocidade: mantêm os lutadores em primeiro plano, enquanto borram o cenário em movimentos rapidíssimos, como se podia ver em desenhos como “Speed Racer”. Há ainda um prólogo bem bacana, com uma seqüência de sonho animada de forma inteiramente manual, sem o uso de computadores e em 2D, na técnica chamada de “lanternas mágicas”, que já era utilizada antes mesmo da invenção do cinema, no século XIX.

Pena que as técnicas que fogem da mesmice não sejam empregadas durante toda a projeção. Na maior parte do filme, os animadores da Dreamworks usam a tradicional tecnologia de animação em 3D, combinada com uma paleta de cores vibrantes que reproduzem com propriedade as paisagens naturais grandiosas do interior da China. O resultado é OK, mas não tem nenhum sabor de novidade. As já citadas seqüências de luta acabam se mostrando eficientes, com a tradicional montagem que combina cortes rápidos com tomadas em velocidade alterada (às vezes câmera acelerada, às vezes câmera lenta). Os animadores acertam a mão na movimentação criativa dos cinco aprendizes animais de mestres kung fu – quem poderia imaginar que macaco, tigre, garça, cobra e louva-deus, especialmente os dois últimos, pudessem disparar golpes com tanta graça e velocidade sem parecerem falsos?

O DVD nacional está disponível em duas versões, uma simples e uma dupla, com o selo Buena Vista. A edição de um só disco traz o filme com enquadramento original (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1), mais comentário em áudio dos diretores. A versão dupla agrega um DVD extra contendo pequenos documentários sobre a produção, os atores e os animais verdadeiros, mais trailers ejogos interativos.

– Kung Fu Panda (EUA, 2008)
Direção: Mark Osborne e John Stevenson
Animação
Duração: 92 minutos

| Mais


Deixar comentário