Labirinto do Fauno, O

15/04/2007 | Categoria: Críticas

Guillermo Del Toro mescla drama político e realismo fantástico em conto de fadas macabro de visual estilizado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Quem é razoavelmente familiarizado com o trabalho do mexicano Guillermo Del Toro vai reconhecer com facilidade as marcas registradas do diretor em “O Labirinto do Fauno” (El Laberinto del Fauno, México/ Espanha/EUA, 2006). Investindo mais uma vez em uma mistura incomum e bastante original de drama político e realismo mágico, mimetizados através de um visual intensamente estilizado, o cineasta compôs uma espécie de conto de fadas macabro, recheado por uma iconografia vinda de três vertentes distintas: o filme de guerra, o horror B e os seres mitológicos.

Caso Del Toro houvesse sido convidado para dirigir o infantil “As Crônicas de Nárnia” (2004), com liberdade para fazer um filme com censura 18 anos, o resultado seria bem semelhante a “O Labirinto do Fauno”. Isto fica evidente desde os primeiros minutos de projeção, com a aparição de um dos mais curiosos e interessantes personagens do longa-metragem, um gafanhoto que vira fada. Há outras criaturas vindas diretamente da mitologia no filme, como o fauno do titulo e um montro sem olhos que é responsável pela seqüência mais apavorante.

Embora seja mexicano, Guillermo Del Toro demonstra fascínio inequívoco pela guerra civil espanhola (1936-39), sendo este o segundo filme que dirige ambientado no período, após “A Espinha do Diabo”. O longa-metragem de 2001, aliás, possui outras semelhanças com “O Labirinto do Fauno”: flerta fortemente com o cinema de horror e tem como protagonista uma criança, o que denota mais uma vez como Del Toro fica confortável quando filma suas loucuras delirantes sob um olhar infantil, ainda que sanguinolento e bastante triste.

Não dá para deixar de observar, também, a influência confessa do cinema desenvolvido por outro diretor gordinho, contemporâneo do mexicano e afeito ao cinema fantástico, que é Peter Jackson. A concepção de cinema dos dois é idêntica, privilegiando o visual estilizado ao enredo. Como o neozelandês, Guillermo Del Toro gosta de efeitos especiais à moda antiga (maquiagem, próteses de borracha), embora domine muito bem a computação gráfica. Os dois também movem a câmera em amplos movimentos circulares, buscando sempre ângulos diferentes, exóticos, que reforcem a atmosfera de fábula.

Impressiona, aliás, que “O Labirinto do Fauno” tenha sido filmado com um orçamento de US$ 5 milhões, ridículo para os padrões de Hollywood. O filme anterior do diretor, “Hellboy” (2002), que custou treze vezes mais, tem a mesma estrutura visual, que privilegia as cores fortes, muitas sombras e uso constante de tonalidades cinzentas. Del Toro parece ter aproveitado aqui a pesquisa feita durante “Hellboy” para compor a toda a parte visual que se refere à guerra, já que os militares franquistas que habitam a pequena aldeia ao pé das montanhas espanholas, onde o filme se passa, lembram bastante os nazistas da produção de 2002. Nada de errado com isso, que fique claro.

A história se passa em dois ambientes distintos, freqüentados por personagens diferentes. Apenas uma pessoa circula livremente pelos dois universos: a menina Ofélia (Ivana Baquero), criança de 10 anos cuja mãe viúva (Ariadne Gil) casou-se com um sádico oficial do Exército (Sergi López, ótimo). Uma missão militar obrigou a família a mudar-se para uma velha mansão no interior do país, onde o capitão Vidal tem que exterminar um foco de resistência rebelde, cinco anos após o final da guerra civil na Espanha. Uma gravidez difícil complica ainda mais a situação para Ofélia, prendendo a mãe à cama e tornando a filha cada vez mais distante.

Leitora compulsiva de fábulas infantis, e dia após dia mais solitária naquele ambiente desolado, Ofélia reprocessa toda a violência e brutalidade que vê ao redor em uma macabra e sangrenta história de conto de fadas. Durante os longos passeios pelo bosque, a menina acaba encontrando um antigo labirinto de pedra, onde mora o imortal Fauno (Doug Jones). A criatura mitológica vai guiar Ofélia numa aventura perigosa, sinistra e sombria. Detalhe importante: o longa-metragem tem menos seqüências delirantes do que esta sinopse faz supor, já que a criança só penetra em território fantástico durante seis ou sete cenas, todas irresistíveis. É o caso típico de eficiência causada pela economia, já que isto deixa um sabor de “quero mais” muito bem-vindo.

Se os filmes anteriores de Del Toro sempre passaram a impressão de que o cineasta tem boas idéias e olho apurado para visual fantástico, mas não sabia amarrá-las direito em um todo consistente, este aqui pode carimbar seu atestado de maturidade. O enredo é simples e engenhoso, e o solene prólogo fornece uma pista importante do que virá a seguir (cinéfilos mais atentos poderão encontrar aí uma pista do final amargo). Além disso, a apresentação dos personagens é rápida e firme, durando uma única seqüência e atirando o espectador rapidamente no universo fantástico de Ofélia.

A aparição do gafanhoto/fada é uma idéia brilhante, conduzida com destreza por todo o longa-metragem. Para completar, a trilha sonora melancolicamente bela de Javier Navarrete, toda construída em cima de um tema que gruda na mente desde a primeira audição, dá ao todo uma tonalidade dissonante que completa perfeitamente o poder assustador e fascinante, mas sobretudo triste, das imagens criadas por Del Toro. É a trilha sonora épica mais bacana desde que Howard Shore criou a melodia marcante de “O Senhor dos Anéis”, em 2001. Nos momentos mais tocantes, os mais sensíveis vão sentir lágrimas vindo aos olhos.

Evidentemente, é impossível não ressaltar a qualidade excepcional da fotografia de Guillermo Navarro e de toda a equipe de maquiagem. O personagem do Fauno, que lembra uma árvore envelhecida, funciona como exemplo da excelência do trabalho neste campo, algo que fica ainda mais impressionante quando sabemos que o orçamento do trabalho foi tão minúsculo. A melhor seqüência, contudo, não tem o personagem – é o momento em que Ofélia precisa roubar um objeto do covil de um ser repugnante/aterrorizante, um gigantesco monstrengo sem face, de longas unhas negras e com olhos adaptáveis às palmas das mãos, que tem o hábito pouco recomendável de arrancar cabeças de delicadas fadinhas a dentadas. O arrepio na espinha é inevitável.

No todo, a maior das muitas qualidades de “O Labirinto do Fauno” é conseguir misturar dois gêneros quase impossíveis de unir – a fábula, de narrativa essencialmente escapista e infantil, e o drama político, sempre tão engajado e adulto – em um todo consistente e uniforme. Há que se ressentir um tom didático (excessivo, talvez) na conclusão da trama, através de imagens que fazem questão de eliminar qualquer dúvida sobre a natureza onírica do fauno, o que acaba meio que resumindo todo o filme a uma única leitura, um tanto limitadora, ainda que coerente. Mas não é nada que manche a criatividade e o tesão em fazer cinema que marca todo esta produção.

O DVD da Warner tem qualidade da imagem (widescreen anamórfica) e do áudio (Dolby Digital 5.1) é excelente. O disco simples também contém um documentário bem ágil (43 minutos), que disseca todos os aspectos da produção.

– O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno, México/ Espanha/EUA, 2006)
Direção: Guillermo Del Toro
Elenco: Ivana Baquero, Doug Jones, Sergi López, Maribel Verdú
Duração: 112 minutos

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