Ladrão de Casaca

30/05/2007 | Categoria: Críticas

Filme de 1955 é a ode definitiva de Alfred Hitchcock à figura sublime de Grace Kelly

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Quem conhece a carreira de Alfred Hitchcock sabe que ele considerava Grace Kelly o mais perfeito rosto feminino de Hollywood. O mestre inglês fez três filmes com a futura rainha de Mônaco, e estava certo de que havia encontrado a atriz perfeita para viver as loiras insinuantes que marcaram quase todos os seus filmes. Ironicamente, foi durante a produção de “Ladrão de Casaca” (To Catch a Thief, EUA, 1955), filme feito sob medida para celebrar a beleza de Grace Kelly, que ela conheceu o príncipe Rainier, com quem se casaria mais tarde, abandonando Hollywood em definitivo. Coisas do cinema.

Em 1955, Hitchcock estava pronto para se tornar o que François Truffaut chamava de “o maior cineasta de todos os tempos”. Tinha acabado de filmar uma obra-prima, “Janela Indiscreta”, e os seis anos seguintes dirigiria uma seqüência notável de filmes brilhantes, jóias inquestionáveis do cinema, como “Um Corpo que Cai” e “Psicose”. Na época, contudo, Hitchcock estava tão deslumbrado com a beleza de Grace Kelly que decidiu filmar com ela um enredo apenas razoável. O motivo? A alta sociedade da Riviera francesa, onde a trama se passava. Hitchcock achava que Grace Kelly a suntuosidade do lugar iria combinar perfeitamente com sua estrela. Afinal, pensava, ela tinha rosto de princesa. Tinha mesmo. Infelizmente para nós, espectadores, Rainier de Mônaco também pensava assim.

O fato é que o enredo de “Ladrão de Casaca” não é brilhante nem surpreendente, como seriam as futuras obras-primas do mestre inglês; é apenas um thriller eficiente. Um longa-metragem agradável e um colírio para os olhos, com certeza, mas não uma obra-prima. Aqui, Hitchcock retoma o mais insistente tema de sua obra: o homem inocente obrigado a investigar um caso por conta própria, para se ver livre de falsas acusações. Nesse caso, o inocente é John Robie (Cary Grant), ladrão de jóias regenerado que vive numa mansão à beira-mar. Acusado pelos insistentes roubos de jóias ocorridos nos hotéis da Riviera francesa, ele decide apanhar o ladrão por si mesmo para se ver livre da perseguição policial.

Muito mais do que a trama, o que impressiona mesmo no filme é a belíssima fotografia de Robert Burks. Fugindo bastante do estilo discreto adotada pelo mestre do suspense, Burks usa com riqueza de detalhes as formidáveis paisagens (naturais ou urbanas) do charmoso retiro de férias da burguesia européia, utilizando uma grande quantidade de planos gerais, bem abertos. O tratamento das cores também é pouco comum, já que a obra possui um visual exuberante e rico – e toda a parte final, que ocorre durante uma festa a fantasia, é uma verdadeira aula de como realçar cenários e figurinos através do uso de cores quentes e fortes.

Além disso, é claro que o mestre do suspense inclui muitos elementos recorrentes em sua obra. O protagonista, por exemplo, é um homem circunspeto, quase tímido, que resiste às investidas de Grace Kelly o quanto pode. Cary Grant, nesse caso, reproduz o flerte bem-humorado que James Stewart havia obtido no filme anterior de Hitchcock com a futura rainha de Mônaco. As referências veladas a sexo – observe o piquenique de Grant e Kelly à beira da estrada – são abundantes. Além disso, a figura belíssima da loira fatal, com seus figurinos elegantes criados pela imortal Edith Head, seria obsessivamente perseguida por Hitchcock até o fim da carreira (e ele mesmo constatou, entristecido, que jamais conseguiu encontrar outra atriz tão perfeita para aquele tipo de papel).

No final das contas, “Ladrão de Casaca” muito mais uma ode à figura sublime de Grace Kelly do que um filme maior na carreira de Hitchcock. De todo modo, Hitchcock é Hitchcock – um homem que trabalhou durante mais de 50 anos e jamais fez um filme realmente ruim. Nesse caso, trata-se de um thriller de suspense interessante e uma das poucas ocasiões da carreira de Hitchcock em que ele fez um exemplar do gênero “whodunit” (ou seja, um filme em que a identidade do criminoso permanece desconhecida até o final). Ótima pedida para fãs.

O DVD nacional simples saiu pela Paramount, em 2003. Traz uma cópia restaurada do filme no enquadramento correto (1.85:1) e com boa trilha de áudio (Dolby Digital 1.0). Entre os extras, quatro pequenos documentários (um sobre o roteiro, outro sobre o diretor, um terceiro sobre a figurinista Edith Head e o último específico sobre o filme) que totalizam 40 minutos. Uma galeria de fotos completa o disco. A edição especial também contém comentário em áudio com os especialistas Peter Bogdanovich e Laurent Bouzereau.

– Ladrão de Casaca (To Catch a Thief, EUA, 1955)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Cary Grant, Grace Kelly, Jessie Royce Landis, John Williams
Duração: 106 minutos

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