Ladrão de Sonhos

17/08/2006 | Categoria: Críticas

Caro e Jeunet fazem fábula infanto-juvenil extravagante, com toques generosos de humor negro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Filme francês independente, produzido sem a ajuda de produtores poderosos ou grandes estúdios por dois realizadores jovens, “Ladrão de Sonhos” (La Cite des Enfants Perdus, França/Alemanha/Espanha, 1995) é um dos primeiros exemplares de um estilo de cinema eminentemente visual, que se tornaria bastante popular nos anos seguintes. O longa-metragem de Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet, que haviam feito antes o tratado impressionista sobre canibalismo chamado “Delicatessen” (1991), é uma espécie de fábula infanto-juvenil extravagante, com toques generosos de humor negro, que assusta e diverte ao mesmo tempo.

Trata-se de uma narrativa claramente calcada em antigas histórias de ninar, só que distorcida por um olhar pós-industrial que tem algo do Tim Burton de “Edward Mãos-de-Tesoura” (1990) ou de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005). Ou seja, é um filme construído a partir do elemento visual, e como tal apresenta um trabalho bastante criativo de figurino, direção de arte e fotografia, especialmente quando se leva em consideração que é uma produção analógica, feita com pouca ajuda de computação gráfica. Sozinho, esse fato já amplifica bastante os méritos de Caro e Jeunet.

Chamam a atenção, em especial, os gigantescos cenários, que parecem uma versão em live action da Paris surreal vista depois no desenho animado “As Bicicletas de Belleville” (2003). Um detalhe que merece ser elogiado é que tudo foi construído manualmente, com pedaços de metal, madeira, plástico e vidro. O nível de detalhes é impressionante. Os enormes navios cargueiros que singram a água esverdeada do sombrio porto da cidade, por exemplo, são réplicas em tamanho natural, puxadas por guindastes. A água, que inundou uma parte do estúdio para compor o cenário, era tingida com tinta verde para dar ao filme a aparência desejada pelos diretores.

O resultado é o tipo de look vibrante que Jeunet conseguiria aperfeiçoar em “O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain” (2001), o delicado algodão-doce do cinema francês que marcou a estréia solo do cineasta. Em termos de iluminação e tratamento de cores, “Ladrão de Sonhos” é quase um filme noir colorido: cheio de sombras enormes e ângulos baixos (o pé-direito altíssimo dos cenários ajuda bastante nas composições em que a câmera é posicionada de baixo para cima, tornando os personagens gigantescos), e todo construído com tonalidades verdes e vermelhas, quentes e abrasivas. O resultado é uma série de imagens que carrega um clima onírico bastante apropriado para a história.

Para reforçar ainda mais a impressão de pesadelo, Jeunet e Caro chamaram o estilista Jean-Paul Gaultier e encomendaram um figurino exótico e berrante para os personagens. A história narra a trajetória de um marinheiro grandalhão e abobalhado (Ron Perlman) que tem o irmãozinho adotivo seqüestrado por um cientista louco (Daniel Emilfork). O sujeito vive isolado numa torre de metal construída em pleno oceano, e é um homem solitário e infeliz porque não consegue sonhar. Ele rapta crianças porque construiu um aparelho capaz de roubar-lhe os sonhos, e segue tentando absorver as imagens mentais produzidas pelos pequenos durante os sonhos.

O problema é que, diante da figura macilenta do cientista, só conseguem ter pesadelos. O cientista vive cercado por uma trupe hilariante, que inclui seis clones acometidos da doença do sono (Dominique Piñon), todos criados como filhos adotivos; a esposa, uma anã (Mireille Mossé) também criada por meio de clonagem; e um cérebro – que fala e vê através de um aparelho especial – criado dentro de um aquário. O coitado de cérebro, aliás, vive tendo terríveis enxaquecas. Na tentativa de encontrar a criança seqüestrada, One conta com a ajuda de uma menina destemida (Judith Vittet) que é mais adulta do que ele próprio. Como se vê, uma galeria de personagens irresistível. Eles geram um bocado de empatia no público.

No todo, percebe-se uma alegria quase infantil de Jeunet e Caro em manipular os recursos técnicos e narrativos do cinema. Observe o uso bizarro da lente grande angular na seqüência de abertura, aliás um ótimo momento de humor negro, quando uma das crianças seqüestradas sonha com uma série interminável de Papais Noel entrando pela chaminé, enquanto o quarto inteiro dança loucamente, como se o menino estivesse desmaiando. O filme todo é acometido desse excesso de técnica, que muitas vezes chama mais a atenção para si do que para a história, algo que é sempre um defeito. Isso posto, “Ladrão de Sonho” merece uma conferida atenta pela originalidade e pela bem-vinda mistura de humor, pesadelo e fantasia.

O DVD lançado pela Universal é simples, mas cheio de extras. A cópia do filme está muito boa, com imagem excelente (wide 1.85:1 anamórfica) e som idem (Dolby Digital 5.1). Há um comentário em áudio de Jean-Pierre Jeunet (legendado), dois documentários sobre a produção (35 minutos, legendados) e galeria de fotos. O único senão é que a transferência de imagem fez o filme ficar levemente acelerado, tornando-se quase cinco minutos mais curto. Porém, é algo imperceptível para não-profissionais.

- Ladrão de Sonhos (La Cite des Enfants Perdus, França/Alemanha/Espanha, 1995)
Direção: Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro
Elenco: Ron Perlman, Daniel Emilfork, Judith Vittet, Dominique Piñon
Duração: 112 minutos

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4 comentários
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  1. dica de domingo: o filme"O ladrão de Sonhos" (La Cite des Enfants Perdus) http://twurl.nl/5pm570 Um mundo surreal onde rubam sonhos.

  2. dica de domingo: o filme"O ladrão de Sonhos" (La Cite des Enfants Perdus) http://twurl.nl/5pm570 Um mundo surreal onde rubam sonhos.

  3. #filmesqvalem: o filme"O ladrão de Sonhos" (La Cite des Enfants Perdus) http://twurl.nl/5pm570 Um mundo surreal onde roubam sonhos.

  4. RT @agencia_sputnik: #filmesqvalem: o filme"O ladrão de Sonhos" (La Cite des Enfants Perdus) http://twurl.nl/5pm570 Um mundo surreal onde roubam sonhos.

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