Ladrão de Sorte

18/06/2004 | Categoria: Críticas

Química perfeita do casal de protagonistas e charme da França geram DVD cheio de classe

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Trocadilhos são sempre infames, mas não há melhor maneira de iniciar um texto sobre o novo filme de Neil Jordan: Nick Nolte é mesmo um ladrão de sorte, como diz o título do longa-metragem. Só assim é possível explicar o inexplicável – a esnobada desleixada e charmosa que o personagem dele, Bob, dá na encantadora russa Anne (Nutsa Kukhianidze), uma prostituta do Leste Europeu que tenta o sorte na noite de Nice, a cidade turística engastada nas praias da Riviera francesa.

Em “Ladrão de Sorte” (The Good Thief, EUA/Irlanda, 2003), Bob é um bandido grã-fino – um personagem que anda cada vez mais valorizado no cinema independente norte-americano, como provam filmes como “Onze Homens e Um Segredo” e “O Assalto”, entre outros de temática parecida. Ele tem mãe francesa, pai americano e duplo passaporte, o que lhe deu a oportunidade de viver uma vida cheia de emoção, dinheiro e passagens pela cadeia. Esse passado nebuloso, contudo, é apenas mencionado de soslaio. Quando o filme começa, Bob não é nem sombra do que já foi. Transformou-se em um viciado em heroína que apenas espera a hora de morrer – mas faz isso com classe.

Essa é uma estratégia bastante óbvia do roteiro: transformar a figura de um ladrão em alguém por quem o espectador sente simpatia. Assim, a platéia jamais assiste aos crimes de Bob; vê apenas ele ajudar um jovem batedor de carteiras paquistanês (Said Taghaqui) e não ser preso, e salvar a bela Anne de um cafetão canalha. As duas ações definem o caráter de Bob para a audiência: um bom ladrão. O título original faz referência ao ladrão crucificado ao lado de Jesus Cristo no melhor diálogo do trabalho (“quando penso que há um ladrão no Paraíso, fico todo arrepiado”, afirma Bob).

De qualquer forma, quando “Ladrão de Sorte” começa, Bob está em vias de torrar seus últimos francos em corridas de cavalos. Mas eis que um velho comparsa surge do nada e lhe oferece um plano arriscado, mas que pode dar certo: roubar dezenas de quadros milionários (Picasso, Van Gogh, Matisse) quer estão expostos num grande cassino, em Mônaco. Para a empretada, Bob larga a heroína e forma uma pequena mas decidida quadrilha, composta por um halterofilista que mudou de sexo, irmãos gêmeos idênticos e um braço-direito nervoso e apaixonado por Anne.

A catástrofe parece iminente. Para completar, Bob está sendo perseguido por um policial francês, Roger (Tcheky Karyo), que se tornou seu amigo durante os anos de inatividade e deseja menos prendê-lo e mais mantê-lo na linha, a salvo de uma prisão que poderia significa a morte de um sujeito simpático – afirmação que, a essa altura, já é devidamente compartilhada com a platéia.

Como se vê, não há nada de muito original na película; trata-se de uma mistura de “Onze Homens e Um Segredo” com “Prenda-me Se For Capaz”. Mas o filme está longe de ser ruim: “Ladrão de Sorte” (que é uma refilmagem de uma película francesa de 1955) tem ótimos personagens, diálogos excelentes e uma dupla de protagonistas com uma química absolutamente perfeita – a voz rouca de Anne e o jeito desengonçado de Bob se casam perfeitamente.

Além disso, o filme de Neil Jordan se afasta das dezenas de bons policiais com temáicas semelhantes porque investe em uma trama que praticamente não abre espaço para perseguições e seqüências de ação – e quando o faz, segue um ritmo bem mais lento do que o normal de Hollywood, o que parece sensato, uma vez que o protagonista é um homem com mais de 60 anos e consumidor de heroína.

O enredo de “Ladrão de Sorte” evolui mais no plano cerebral do que no físico, e o filme pega carona numa trilha sonora chique de cool jazz, rumo a um final inteligente e que surpreende de verdade, mesmo que você já tenha visto os similares. Junte a isso a fotografia encantadora, a edição cheia de classe e o sexy appeal da russa Nutsa Kukhianidze, e você vai sair do cinema satisfeito.

– Ladrão de Sorte (The Good Thief, EUA/Irlanda, 2003)
Direção: Neil Jordan
Elenco: Nick Nolte, Tcheky Karyo, Nutsa Kukhianidze, Said Taghaqui
Duração: 109 minutos

| Mais


Deixar comentário