Ladrões de Bicicleta

05/06/2007 | Categoria: Críticas

Clássico no neo-realismo italiano resiste ao tempo e surpreende pela concisão e sobriedade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“Ladrões de Bicicleta” (Ladri di Biciletti, Itália, 1948) está para o neo-realismo italiano como “2001 – Uma Odisséia no Espaço” para a ficção científica, ou como “À Beira do Abismo” para o filme noir, ou ainda como “Rastros de Ódio” para o faroeste. É o filme mais importante dentro de seu gênero, o mais famoso, o mais conhecido. Embora não seja o inventor do neo-realismo, certamente foi a obra que melhor sintetizou os elementos do gênero, transformando-se em paradigma para tudo o que veio depois. Continua, até hoje, o título mais lembrado quando se fala de neo-realismo italiano.

Para entender tamanha fama, é preciso contextualizar o lançamento do longa-metragem. Em 1948, a Europa vivia uma fase de renascimento e efervescência cultural, mas também convivia com a fome e a miséria absoluta. As duas coisas eram conseqüências diretas da II Guerra Mundial, que havia terminado em 1945, com o continente inteiramente devastado. O cinema neo-realista, que sempre se pautou por uma narrativa mais seca e concisa, tentava reproduzir a realidade sem floreá-la (como faziam os melodramas, faroestes e policiais de Hollywood). Isso significava o uso de técnicas quase documentais, bem como a utilização de atores amadores.

A produção de Vittorio De Sica foi uma consagração completa de crítica e público. Além de se tornar o longa mais visto na Itália em 1948, também entrou direto no topo das listas de grandes filmes da história, em quase todas as listas realizadas por publicações de prestígio. O filme foi tão influente que levou vários preceitos neo-realistas para dentro da indústria cinematográfica norte-americana, pondo um pé no freio das narrativas cada vez mais sonhadoras e escapistas produzidas na Meca do cinema. Mesmo décadas depois, em condições históricas muito diferentes, “Ladrões de Bicicleta” continua um filme muito moderno, ágil e rápido.

Além disso, é um exercício interessante vê-lo com os olhos de hoje (2007), porque apesar de carregar o rótulo de realista, ele não parece exatamente realista. Por exemplo, a edição utiliza trilha sonora com abundância, e a música é um elemento evitado por todos os filmes contemporâneos que seguem uma veia mais naturalista. Isto é algo que acontece por uma razão simples: a vida real não tem trilha sonora. Se não dá para ter certeza, podemos pelo menos apenas supor que De Sica usou música porque não fazê-lo seria romper de forma tão radical com a tradição narrativa do cinema clássico que isso afastaria o público.

Outro detalhe que impede o filme de exalar um realismo cru é a fotografia, já que as câmeras se movem de forma 100% profissional e elegante. O filme valoriza composições bem elaboradas, inclusive com utilização abundante da profundidade de campo (ou seja, há ações ocorrendo em segundo plano, e o filme se preocupa em enquadrá-las e enfocá-las corretamente). É importante lembrar que a profundidade de campo era um recurso relativamente recente em 1948, tendo ficado realmente popular apenas após o lançamento de “Cidadão Kane”, que tinha ganho as primeiras exibições na Europa somente três anos antes, após o final da II Guerra Mundial.

Por outro lado, há inovações importantes a considerar. O diretor italiano evitou, por exemplo, o uso de close ups nos rostos dos atores, optando por filmar tudo em planos médios ou tomadas gerais, com a câmera posicionada bem longe da ação principal. Esta estratégia empresta ao filme uma estética bem mais sóbria e discreta do que o normal, pois sabemos que o close – especialmente o close do rosto humano – é um recurso utilizado, na gramática do cinema, para gerar emoção. Sem closes, o filme parece mais duro, mais seco, mais contido do que o normal.

Por fim, é fundamental lembrar que “Ladrões de Bicicleta” alcança plenamente um dos ideais mais importantes do neo-realismo, que era criar um registro histórico fiel dos primeiros anos do pós-guerra. Isto é conseguido tanto do ponto de vista da produção (atores semi-profissionais, cenas filmadas em locações reais) quanto da narração, já que a história aborda com propriedade a situação social-econômica da Itália naqueles anos difíceis: o desemprego, a fome, a falta de dinheiro, a dificuldade de transporte, os recursos materiais finitos e suas conseqüências mais problemáticas, como o crescimento do crime. Tudo isso está encapsulado perfeitamente na história do homem pobre (Lamberto Maggiorani ) que persegue desesperadamente o sujeito que lhe roubou a bicicleta, instrumento sem o qual ele não pode trabalhar. Para completar, o final, com sua amarga ironia, é espetacular.

A edição brasileira desta clássico, lançada pela Versátil, é muito boa. Embora o disco seja simples, a cópia do filme foi inteiramente restaurada, gerando uma imagem (fullscreen, 4:3) de excelente qualidade. O áudio (Dolby Digital 2.0) também é bom. Os extras incluem documentário sobre De Sica (54 minutos), três entrevistas de especialistas (19 minutos), um featurette sobre a restauração (10 minutos) e uma galeria de fotos.

– Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciletti, Itália, 1948)
Direção: Vittorio De Sica
Elenco: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell, Gino Saltamerenda
Duração: 90 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


5 comentários
Comente! »