Lady Vingança

18/01/2008 | Categoria: Críticas

Park Chan-Wook encerra trilogia da vingança com filme mais fraco, mas ainda assim bem acima da média

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

“Lady Vingança” (Chinjeolhan Geumjasshi, Coréia do Sul, 2005) é o último exemplar da trilogia sobre vingança tramada pelo cineasta sul-coreano Park Chan-Wook. O longa-metragem encerra a fase mais famosa do trabalho do diretor com a história mais simples dos três filmes. Chan-Wook, contudo, esconde essa simplicidade fragmentando a narrativa entre vários personagens e tempos cronológicos, o que torna a experiência um tanto complicada de decifrar, especialmente na primeira metade. Superada a confusão, “Lady Vingança” se mostra um filme fascinante, que encerra a trilogia não com uma nota grave e dramática, mas como um suspiro.

Não há como negar que “Lady Vingança” é o filme visualmente mais rebuscado de um diretor cuja sofisticação visual sempre foi um ponto forte. A busca pela perfeição estética – leia-se jogo de cores, enquadramentos, cenários e figurinos – parece tê-lo levado longe demais aqui, deixando a obra com um cheiro kitsch inconfundível. O elemento visual é, sem dúvida, o que mais chama atenção na película, encobrindo a importância da história, o que nunca é bom negócio no cinema.

O visual elegante, inclusive, foi responsável por uma das decisões mais curiosas envolvendo a finalização. Park Chan-Wook havia concebido originalmente uma estratégia de utilização das cores bem diferente original. A paleta deveria começar ultracolorida, abusando de cores fortes e explosivas, e ir perdendo vigor durante a narrativa, tornando-se mais opaca e terminando em preto-e-branco. Essa seria a forma encontrada pelo diretor para sublinhar a jornada vingativa da protagonista feminina.

Ao final das filmagens, porém, o resultado agradou tanto ao cineasta que ele ficou em dúvida entre obedecer ao plano original (e retirar progressivamente a cor do filme) e abrir mão da idéia, lançando o filme totalmente coloridos. Como Chan-Wook não se decidia, acabou fazendo as duas coisas. Na Coréia, o filme foi lançado em duas versões simultâneas, e o público que ia os cinemas podia escolher entre ver a cor definhando ou conservando-se forte durante toda a projeção. Ambas as versões podem ser encontradas em DVD na Ásia. A versão 100% colorida foi destinada aos cinemas ocidentais.

A indecisão de Park Chan-Wook depõe, de certa forma, contra o filme, porque deixa evidente que, para o diretor, pelo menos nessa obra em particular, o visual é mais importante do que a história contada. O plano original era uma forma inteligente de mostrar ao espectador o progressivo vazio emocional que ia crescendo sobre a protagonista, à medida que ela punha em prática seu mirabolante plano de vingança. Ao abrir mão de um recurso narrativo tão sutil em prol apenas de imagens belas para encher os olhos da platéia, o cineasta declara, de certa forma, que “Lady Vingança” é mais um trabalho de pintor do que de um contador de histórias.

O raciocínio não impede que a platéia babe de prazer estético com os enquadramentos precisos, com o jogo de cores fenomenal (as texturas abstratas da abertura com os créditos já têm potencial de beleza para deixar qualquer um boquiaberto), com a direção de arte impecável e com as criativas cenas de transição vistas na montagem criativa de Kim Jae-Beom e Kim Sang-Beom. Uma dessas cenas, por exemplo, congela uma imagem e ela vira uma porta, “aberta” pelo personagem que aparece na cena seguinte. O efeito geral desse refinamento visual é contraditório; tudo é tão perfeito que soa artificial – e é nesse ponto que o filme falha, já que se torna involuntariamente kitsch.

A história central, por outro lado, é bastante simples. Em linhas gerais, trata-se do plano de vingança arquitetado por Lee Geum-Ja (Lee Yeoung-Ae) durante 13 anos na prisão. A moça foi para a cadeia, aos 19 anos, sob a acusação de torturar e matar um menino de 6 anos. Na verdade, ao confessar um crime que não havia cometido, a mulher acobertava o namorado, Sr. Baek (Choi Min-Sik), um professor de escola primária. Ela sabia que o homem havia assassinado o garoto, mas não podia falar nada para a polícia porque o sujeito havia raptado a filha dela. Por isso, só restava a Geum-Ja aproveitar o tempo na prisão para tramar uma vingança o mais dolorosa possível.

Nada dessa premissa, contudo, é explicado de maneira simples ao espectador. Quando “Lady Vingança” começa, Lee Geum-Ja está saindo da cadeia. A primeira metade do filme realiza vários flashbacks para explicar o caso e, simultaneamente, a organização do plano de vingança, que não conhecemos. Para isso, Chan-Wook e apresenta uma grande quantidade de personagens, principalmente mulheres que a protagonista conheceu na cadeia e que vão ajudar, voluntariamente ou não, na execução do plano.

O diretor sul-coreano recicla elementos dos dois filmes anteriores da trilogia e faz um bom número de citações a ambos (um exemplo: em certo momento, Lee Geum-Ja concorda em ceder um rim para uma colega de cadeia que está à beira da morte, cena que liga este filme ao tema de “Sr. Vingança”). Por causa da grande quantidade de personagens e dos flashbacks excessivos, porém, essa primeira metade se torna um pouco cansativa, até porque não conhecemos o plano que ela está montando.

Tudo muda quando esse plano passa da teoria à prática, e finalmente o expectador pode compreendê-lo em toda a sua extensão. Aí, fica evidente a perícia do cineasta sul-coreano em montar verdadeiros quebra-cabeças cinematográficos, e o filme ruma para um final excitante e explosivo, embora sem o uso da violência gráfica que “Oldboy” explorara à exaustão. A verdade é que “Lady Vingança” tem excessos e é inferior aos outros dois exemplares da trilogia, mas ainda assim é um ótimo filme, que revela inteligência muito acima da média dos thrillers de Hollywood.

O DVD nacional é um lançamento da Platina Filmes. O longa aparece com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Lady Vingança (Chinjeolhan Geumjasshi, Coréia do Sul, 2005)
Direção: Park Chan-Wook
Elenco: Lee Yeong-Ae, Choi Min-Sik, Go Su-Hee, Kim Bu-Seon, Kim Byeong-Ok
Duração: 112 minutos

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