Lancelot do Lago

24/04/2008 | Categoria: Críticas

Versão de Bresson para lenda da Távola Redonda é focada em um Lancelot atormentado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Poucos admiradores do cinema cru e reflexivo do cineasta francês Robert Bresson, durante as décadas de 1950 e 60, poderiam imaginar que o diretor planejava filmar uma versão da lenda da Távola Redonda. Afinal, aparentemente, uma narrativa épica de aventura nada tinha a ver com o estilo seco e ascético de Bresson, um diretor que instruía seus atores a jamais expressar emoções utilizando o rosto. Pois bem: “Lancelot do Lago” (Lancelot Du Lac, França/Itália, 1974) é a prova definitiva que qualquer tema, se abordado da maneira correta, pode expressar perfeitamente a visão de mundo de um cineasta.

Amigos de Bresson dizem que ele era obcecado por histórias envolvendo o Rei Arthur, e planejava fazer um filme sobre o assunto ainda no começo da década de 1950. Levou mais de 20 anos para fazê-lo, mas jamais abdicou da idéia. Para transformar em película uma história tão conhecida e ainda assim manter a assinatura pessoal, Bresson preferiu de dar um enfoque incomum ao assunto. O protagonista teria que ser Lancelot, o principal cavaleiro da corte do rei Arthur, e vértice mais misterioso do triângulo amoroso que envolvia o monarca e a rainha Guinevère.

De acordo com a lenda, Lancelot era um homem bem diferente dos outros cavaleiros. Era francês, enquanto os outros eram ingleses; chegara à Távola Redonda já adulto, atraído pela fama de Arthur; também era um veterano, enquanto os demais era jovens cheios de energia, e inexperientes. Bresson explora todas essas características para criar a imagem de um cavaleiro atormentado, que acredita estar sendo testado por Deus. O Lancelot de Bresson funciona, para a mítica cidade de Camelot, com um ser marginal, um excluído, assim como a garotinha Mouchette era para o vilarejo onde morava, em “A Virgem Possuída” (1967). Trata-se de alguém que mora lá, mas não pertence àquele mundo.

O prólogo do filme pode enganar os desavisados. Em uma rápida e estilizada seqüência de imagens (a decapitação de um cavaleiro termina com um esguicho de sangue de uma cabeça decapitada que lembra “Kill Bill”, de Tarantino), Bresson resume uma viagem de dois anos dos cavaleiros da Távola Redonda em busca do Santo Graal. Eles nada encontram. Ao voltar a Camelot, Lancelot (Luc Simon) é outro homem. Ele tem certeza de que está sendo submetido a uma provação divina, e que o fato de não ter encontrado o cálice sagrado é uma punição divina pelas maldades praticadas pelos cavaleiros – pilhagens, assaltos, matanças. Lancelot acredita que precisa interromper o caso com Guinevère (Laura Duke Condominas), e dedicar-se a purificar corpo e alma, para que possa finalmente achar o artefato religioso.

Bresson filma a desagregação moral de Camelot, enquanto Lancelot luta contra os próprios instintos. Cavaleiros como Mordred (Patrick Bernhard) conspiram para assassinar o protagonista, e o rei Arthur é um homem ausente. O filme lança um olhar triste aos últimos momentos do vilarejo inglês, e impressiona sobretudo pelo extremo realismo com que Bresson filmou a vida na Idade Média. As armaduras dos cavaleiros rangem como o diabo, e todos eles andam com enorme dificuldade, precisando de ajuda de terceiros para tarefas simples, como subir em um cavalo.

Observe ainda como Bresson despreza as cenas de ação, preferindo utilizar tomadas fechadíssimas em detalhes (pés, patas de cavalo, lanças) que impedem o espectador de entender o que está ocorrendo. Rumo ao final do filme, quando ocorre uma matança generalizada, Bresson filma as mortes através de elipses curiosas, cortando fora todas as partes que envolvem ações violentas (um homem aparece cavalgando, há um corte; o cavalo dele aparece sozinho, há outro corte; o homem aparece no chão se esvaindo em sangue). No final, o imagem que emerge de “Lancelot do Lago” é a de uma época supersticiosa e violenta, onde viver exigia disciplina férrea para suportar uma dor permanente. Ou seja, puro Bresson.

O DVD da Silver Screen Collection é baseado na edição simples e sem extras, colocada nas lojas dos EUA pela New Yorker Films. Imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 2.0) são de boa qualidade.

– Lancelot do Lago (Lancelot Du Lac, França/Itália, 1974)
Direção: Robert Bresson
Elenco: Luc Simon, Laura Duke Condominas, Humbert Balsan, Patrick Bernhard
Duração: 80 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »