Laranja Mecânica

07/11/2007 | Categoria: Críticas

Mundo futurista analógico de Stanley Kubrick faz sátira social intensa e complexa

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Semiótica é, para muita gente instruída, uma palavra arrogante e incompreensível. Trata-se do estudo dos símbolos, sejam eles desenhos, objetos, sons, vídeos – de qualquer tipo. Aprender ou discutir semiótica parece coisa de universitários ou intelectuais que vivem em um mundo superior, acima dos mortais comuns como eu e você. Mas não é bem por aí. Tudo depende de como os conceitos relacionados a esta disciplina são analisados. Um dos melhores e mais eficientes exemplos de semiótica pode ser encontrado em “Laranja Mecânica” (A Clockwork Orange, EUA, 1971), uma brilhante sátira futurista do mestre Stanley Kubrick.

O enredo de “Laranja Mecânica” gira em torno do jovem Alex DeLarge (Malcolm McDowell), líder de uma gangue juvenil em uma Inglaterra situada em um futuro incerto. Esse futuro é um caos, estranha e premonitoriamente parecido com o século XXI; mais parece uma terra-de-ninguém, onde a polícia que combate os jovens arruaceiros é formada por esses mesmos sujeitos, depois que eles envelhecem. Com isso, Kubrick deseja nos dizer que a violência institucional e legalizada da polícia é uma outra face da mesma violência que, a princípio, parecia ser uma manifestação irresponsável e adolescente de rebelião contra os valores estabelecidos.

Essa é uma lição que Kubrick oferece ao espectador sem jamais ser maniqueísta ou raso. De fato, o cineasta fez em “Laranja Mecânica” uma obra que oferece muitas interpretações, todas profundas, complexas. Kubrick é dialético; ele parece defender a idéia de que todo tipo de violência, mesmo quando começa como resistência cultural, acaba sendo consumido pelo sistema social vigente. Ou seja, o diretor vê o sistema de valores ocidental como uma espécie de buraco negro, uma voragem que a tudo engole, mesmo aquilo que no princípio parecia combatê-lo.

Mas como Kubrick faz isso através de uma simples comédia de humor negro? A resposta: narrando a extraordinária vida de Alex de maneira igualmente extraordinária, com uma trilha sonora espetacular de música clássica, uma narração em off sardônica e uma enorme carga de imagens estilizadas e impressionantes. Alex é um jovem e rico desajustado do futuro. O cuidado com que Kubrick constrói o ambiente social em que Alex vive é impressionante; o cineasta usou locações verdadeiras de Londres e teve o cuidado de enchê-las com símbolos fálicos, lixo e objetos cênicos de caráter levemente atemporal. É uma verdadeira tour-de-force visual. A leiteria onde a gangue de Alex se encontra todas as noites, por exemplo, é uma obra-prima de exotismo ameaçador.

Alex mora com os pais, não tem interesse pela escola, cria uma jibóia no quarto. Vive basicamente à noite, quando sai com sua gangue; todos vestidos de branco, com cílios postiços, uma curiosa espécie de cueca de boxeador sobre as calças. O grupo de Alex é viciado em ultraviolência (leia-se espancar mendigos, invadir residências ricas e estuprar mulheres). Dorme de dia, bebe leite aditivado por uma misteriosa droga excitante à noite. Acima de tudo isso, Alex ama também a música de Beethoven, especialmente a Nona Sinfonia.

A narrativa de “Laranja Mecânica” é dividida em três blocos radicalmente diferentes, inclusive no visual. O primeiro acompanha as noites de Alex até sua prisão, durante um golpe mal sucedido. No segundo, o delinqüente se torna voluntário em uma experiência médica; ele se submete a um tratamento exótico para desenvolver uma aversão física à violência. Para isso, precisa passar por um agoniante tratamento, que inclui estranhas sessões de cinema acompanhadas de aparelhos de tortura visual e auditiva. O terceiro ato acompanha Alex de volta às ruas

A mensagem de Kubrick, como diz um personagem a certa altura da trama, é clara: quando um ser humano perde a capacidade de escolher o que deseja fazer (mesmo que seja um mal aterrador), deixa de sê-lo. Ou seja, perde exatamente a caraterística indizível que lhe faz humano. Malcolm McDowell oferece uma performance elétrica, intensa, charmosa, espetacular. Seu olhar fixo de confronto quase arranca faíscas da tela de cinema; a energia que imprime ao personagem o transforma em um dos personagens mais amedrontadores já filmados. Além disso, foi ele o principal responsável pela seqüência que explica direitinho aquela história da semiótica. Lembra? Pois bem: quando espanca alguém com sua bengala, o jovem Alex DeLarge sempre o faz cantarolando a singela, quase pueril, melodia de “Singing In The Rain”.

Essa canção, um clássico do cinema, foi durante muito tempo sinônimo de uma mansa e inofensiva felicidade para cinéfilos de todo o mundo. Duas gerações cantaram essa música pensando em um algo adorável, bonitinho, fofo. Ao reutilizar a mesma música em um contexto quase oposto, McDowell (foi ele quem escolheu o tema, que não estava no roteiro) distorceu o sentido de “Singing In The Rain” para as gerações seguintes. Nos anos 1970, os jovens que ouviam a canção não pensavam mais em felicidade, mas em ultraviolência. Kubrick dera um novo sentido à música – ódio e medo, ao invés de paz e amor. O símbolo mudou subitamente de significado. Pura semiótica.

“Laranja Mecânica” é um clássico do cinema porque sobrevive ao tempo como raros filmes. Até mesmo o idioma falado pelos ingleses futuristas (uma mistura de russo, inglês clássico e gírias da época) contribui para dar ao filme um forte sentido atemporal. O futuro de “Laranja Mecânica”, aliás, é um clássico futuro apocalíptico, mas o apocalipse aqui é analógico, e não digital, que encaixa bem na proposta do diretor – a sátira social. Inclusive há algo de Monty Python no roteiro (a sagaz seqüência que explica o motivo pelo qual Alex se tornou fervoroso leitor da Bíblia dentro da prisão é o melhor exemplo), e isso vem bem a calhar para um filme de conteúdo tão polêmico e destrutivo.

Por ironia, o filme ganhou uma bela versão no formato digital, num DVD com imagem restaurada (widescreen anamórfica) e trilha de áudio Dolby Digital 5.1. A edição especial da Warner, em DVD duplo, traz extras saborosos: comentário em áudio de McDowell, dois documentários sobre a obra (43 e 28 minutos, respectivamente), e outro (90 minutos) sobre o ator principal. Material para fãs, certamente.

- Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, EUA, 1971)
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke
Duração: 137 minutos

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11 comentários
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  1. Uma Obra de arte em movimento,cada ”quadro” desse filme é uma obra de arte, da introdução antológica, ao final ”Climax” no sentido literal;Mesmo a suposta Ultra-Violência do filme contém sua beleza,aquele misto de nilismo e ironia destruidora de ipócritas que so o mestre Stanley conseguia fazer; Obviamente verdadeiras obras de artes so poderiam ser perpetradas e assinadas por Gênios, no cinema muitos são considerados gênios,mas acho que poucos merecem tal alcunha ,Stanley Kubrick é um deles,talvez o maior de todos.

  2. Só uma correção, o filme foi feito na Inglaterra, e não nos EUA.

  3. Verdade. Mas a referência aos EUA não diz respeito ao país onde foi filmado, e sim à nação de onde veio o financiamento, e à qual o filme está vinculado em termos de produção. Nesse caso, Estados Unidos.

  4. No filme a composição de maior destaque é a Nona Sinfônia de Beethoven, não a quinta.

  5. Correto. Obrigado, Stéphane.

  6. Então Rodrigo…sempre ouço falar desse filme e sempre com rasgos de elogios daí resolvi pesquisa, so q eu me decepcionei com historia desse tal de Alex ou sei la eu esperava outra coisa…e me assustei com a “violência” q dizem ter nesse filme q foi unanimidade em todas as resenhas eu pensei q aqui ia ter uma explicação q apagasse um pouco essa marca q ficou sobre esse filme…sabe vc escreve sem clichês, da p ver q são coisas suas vc ñ pegou na wikipédia (até por q eu j li o q a wikipédia diz)…então isso q dizer q tem violência mesmo!!!Só q eu ñ consigo imaginar algo mais violento q por ex Cidade de Deus…e eu ñ to a fim de ver nada parecido por um bom tempo por melhor q seja por isso seja sincero é tão violento assim ou é como um cara em um comentario sobre o filme disse “tachado de violento”?!?!

  7. Amanda, a representação da violência precisa ser interpretada dentro do contexto da época de produção do filme. Não faz sentido comparar “Laranja Mecânica” com “Cidade de Deus”. Na época do filme de Kubrick, praticamente nenhum filme de Hollywood representava a violência dessa forma crua e quase sádica (hoje isso é normal). Já quando o filme de Meirelles apareceu, não avançou nenhum milímetro em termos de representação da violência. Veja filmes como o francês “Irreversível”, feito na mesma época, para checar os extremos aonde os cineastas estavam indo. Abraços.

  8. Bom então o cara q disse q tinha gostado mais estava meio enjoado devia ter o estomago fraco…brincadeira…agradeço por ter esclarecido essa duvida boba e por aquela outra vez q eu interrompi a conversa p falar de outro filme… achei q aquele filme por estar na lista de criticas recentes a resposta seria mais rapida!!!Sei q disse q ñ se incomodava mais nem agradeci pela cordialidade.E obrigada pela dica!!!!

  9. Simplesmente perfeito esse filme.Kubrick é sem sombra de dúvida um gênio.

  10. Sem palavras

  11. Laranja Mecânica – Mundo futurista analógico de Stanley Kubrick faz sátira social intensa e complexa http://t.co/sJZc8kk5 via @AddThis

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