Laura

15/05/2006 | Categoria: Críticas

Suspense de Otto Preminger, de 1944, faz parte da Santíssima Trindade do film noir

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Quando se fala em film noir, duas produções são lembradas de imediato pelos fãs como títulos fundamentais para o desenvolvimento do gênero: “O Falcão Maltês” (1941), de John Huston, e “Pacto de Sangue” (1944), de Billy Wilder. Em uma hipotética Santíssima Trindade noir, seriam pai e filho, os dois representantes mais perfeitos do gênero. É bem possível que o papel de Espírito Santo nessa trinca toda especial fosse “Laura” (EUA, 1944), suspense magistral assinado pelo diretor austríaco Otto Preminger.

Embora menos lembrado do que os dois grandes clássicos noir, “Laura” trabalha os elementos narrativos tradicionais do gênero – personagens de caráter ambíguo, uma mulher misteriosa, investigação policial cheia de reviravoltas inteligentes – com maestria, adicionando à receita uma generosa dose de tensão sexual, escancarada na trama por uma frase sensacional proferida por um dos personagens: “ele está apaixonado por um cadáver”. É isso: “Laura” é a história de um detetive que cai de amores pela vítima do assassinato que está investigando.

Laura, a personagem-título, tem uma inspiração evidente: “Rebecca”, o filme ganhador do Oscar de 1941, de Alfred Hitchcock. Ela é uma mulher fascinante, que está sempre no centro das conversas dos demais personagens, embora poucas vezes apareça efetivamente. Preminger aprendeu direitinho a lição do mestre inglês, e criou uma locação principal que funciona perfeitamente para manter a presença etérea, fantasmagórica, de Laura no filme. A casa dela, onde a maior parte da investigação se desenrolada, é dominada por um enorme retrato da garota, cuja beleza estonteando hipnotiza o detetive Mark McPherson (Dana Andrews).

O grande trunfo da produção, ousadia impressionante para a época, é a reviravolta fulminante que gira o enredo de cabeça para baixo na metade do longa-metragem. Além disso, o excelente roteiro assinado por Jay Dratler, Samuel Hoffenstein e Elizabeth Reinhardt trata a investigação do assassinato de maneira bem didática, como um detetive faria na realidade, enfatizando detalhes como um rádio quebrado e uma garrafa de uísque barato – do tipo que uma dama da alta sociedade jamais beberia – deixada na casa de Laura na noite em que ela morreu, atingida por um tiro de espingarda no momento em que atendia a um toque de campainha, no meio da noite.

A narração do filme é limpa e clara, jogando o espectador diretamente dentro da investigação e complicando-a com pistas e novas informações que vão sendo jogadas aos poucos. Uma falha, pouco perceptível, é a desnecessária narração em off que abre o filme, com frases do jornalista Waldo Lydecker (Clifton Webb), um cronista social megalomaníaco que destrói vidas com a máquina de escrever, sempre sentado olimpicamente em uma banheira de luxo e bebericando martinis. Dá até para entender: Lydecker, o descobridor da publicitária Laura, que mantinha por ela uma paixão platônica, é o autor das frases mais deliciosamente amorais da produção. É um canalha de trejeitos homossexuais, uma heresia na Hollywood clássica.

Na melhor tradição noir, o detetive McPherson – ele mesmo um sujeito atacado por crises impertinentes de ciúme e obsessão – reúne uma galeria de suspeitos que incluem Lydecker, o noivo playboy da vítima (interpretado pelo futuro astro de horror Vincent Price) e um punhado de gente da alta sociedade, todos de caráter duvidoso. Para arrematar, a direção classuda de Otto Preminger apela para os fortes contrastes de luz e sombra, caprichando em longas tomadas sem cortes, como a belíssima cena em que McPherson passeia pela casa de Laura, com um copo de uísque na mão, tentando descobrir pistas (na verdade, o espectador logo percebe que ele está obcecado pela beleza de Laura e não consegue abandonar o lugar).

O DVD é um lançamento duplo do selo Fox Classics. O disco 1 traz uma cópia excelente do filme, com ótima imagem (4:3, formato original) e som (Dolby Digital 2.0). Há dois comentários em áudio, um com o historiador Rudy Behlmer e outro com os críticos David Raksin e Jeanine Basinger. No disco 2, três documentários. O melhor deles é também o mais curto (13 minutos), e reúne curiosidades e detalhes dos bastidores das filmagens. Há ainda dois perfis biográficos feitos pelo canal de TV a cabo A&E, sobre Gene Tierney e Vincent Price (45 minutos cada). Todo o material extra, com exceção dos comentários, tem legendas em português.

– Laura (EUA, 1944)
Direção: Otto Preminger
Elenco: Gene Tierney, Dana Andrews, Clifton Webb, Vincent Price
Duração: 88 minutos

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