Lawrence da Arábia

01/01/2006 | Categoria: Críticas

Cinebiografia épica tem cenas antológicas e a melhor fotografia do deserto já vista no cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“O maior épico da história do cinema e meu filme favorito”. O autor da frase: Steven Spielberg. A obra a que o maior diretor da atualidade se refere não é nenhum arrasa-quarteirão dos tempos modernos, muito menos algum ícone dos primórdios cinematográficos. Para as platéias mais jovens, a declaração de Spielberg deve servir como cartão de apresentação. Amantes do cinema com mais de 40 anos de idade, contudo, devem lembrar bem de “Lawrence da Arábia” (Lawrence of Arabia, Inglaterra, 1962).

O filme do inglês David Lean possui duas caprichadas edições brasileiras em DVDs duplos, ambos lançados pela Columbia Pictures. São lançamentos de deixar babando uma geração inteira de cinéfilos para quem Spielberg ainda é o maior de todos os diretores. A versão comum, lançada em 2001 e bem rara, traz o filme cercado por documentários; a Superbit, de 2005, não tem extras, mas possui qualidade superior de som e imagem.
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Quem deseja ver o filme em telão ou numa TV de tamanho maior do que 32 polegadas pode preferir a versão Superbit. Para com,pensar a falta de extras, o filme ganha uma faixa de áudio superior, no formato DTS, com realce dos graves e volume mais alto, enquanto as imagens são mais cristalinas, porque registradas com maior definição. Os produtores do disco foram tão reverentes à obra de Lean que mantiveram a abertura, o interlúdio e o final intactos: quatro minutos de tela negra em cada um dos três momentos, apenas com a música de Maurice Jarre ecoando nas caixas.

A versão comum na verdade não tem nada de comum, a começar por um brinde raro: a caixa dá de bônus a reprodução do livreto de divulgação original da película. Infelizmente, esse tesouro para cinéfilos não é fácil de encontrar no mercado brasileiro. Nos depoimentos contidos no DVD, Spielberg e outros grandes nomes do cinema relatam fatos da produção e dizem porque o filme foi um desses eventos que só ocorrem devido à conjunção quase milagrosa de talentos. Afinal de contas, numa época em que efeitos digitais e computador eram palavras desconhecidas na indústria cinematográfica, David Lean fez questão de dispensar truques para reduzir o orçamento.

O projeto era gigantesco, mas o diretor assumiu cada risco. Decidiu filmar em locações reais, na Jordânia, em pleno deserto de Nafud, o gigantesco planalto de dunas que o oficial inglês T.E. Lawrence foi obrigado a cruzar várias vezes. E recusou o astro Marlon Brando para o papel principal – Brando chegou a fazer testes na Inglaterra – para contratar o desconhecido irlandês Peter O’Toole, porque este tinha mais estofo dramático (vinha da prestigiosa Royal Shakespeare Company) e era fisicamente parecido com o verdadeiro Lawrence.

A vida no set de filmagens foi um verdadeiro tormento. As grandes distâncias, o sol inclemente e a dificuldade no transporte do material obrigavam o diretor a fazer apenas uma tomada por dia. Por isso, precisou de 285 dias de filmagens, algo inconcebível nos dias de hoje. Peter O’Toole e o coadjuvante principal, Omar Sharif, ocuparam dois meses apenas com ensaios e aulas para andar de camelo. O calor de 50 graus à sombra também fez estragos: Sharif conta que tinha doze túnicas negras e idênticas para vestir e perdeu nove quilos no decorrer das filmagens. “Quando retirava a roupa, à noite, a túnica estava coberta de sal que o meu corpo perdia”, diz o ator egípcio.

Esse não era o único problema. O sol também complicou a vida do diretor de fotografia, Freddy Young, que já andava às voltas com cálculos geométricos complicados para filmar em terreno repleto de dunas sem perder o foco. O negativo do filme freqüentemente derretia dentro da câmera. O excesso de luz exigia que as tomadas fossem feitas principalmente no fim da tarde.

Mesmo assim, Young dominou tão bem as condições inóspitas que filmou o deserto como nenhum outro filme jamais conseguiu. A quantidade de tomadas belísimas do mar de areia é simplesmente monumental. Além disso, deve-se a ele a seqüência mais inesquecível do filme: o momento em que o beduíno Sherif Ali (Omar Sharif) surge no horizonte pela primeira vez, como uma miragem aos olhos do oficial inglês recém-chegado ao deserto. Young pintou uma faixa amarela de vários quilômetros no chão do deserto, para guiar os olhos do espectador até o ponto negro que vai se transformar, mais de um minuto mais tarde, no árabe nobre e destemido. Nas palavras de Spielberg: “Esta é a melhor cena da história do cinema”.

Na verdade, o filme dispensa palavras. Nunca o deserto foi tão tórrido, enlouquecidamente quente e, ao mesmo tempo, sedutor. As areias fumegantes fornecem a paisagem perfeita para o homem forte, contraditório e cativante que foi Lawrence. O trabalho de O’Toole é perfeito: levemente afeminado, mas sem jamais ser afetado, o ator trabalha com base na sugestão, no que é apoiado por um roteiro fácil de seguir, mas repleto de pequenas sutilezas.

A seqüência em que Lawrence chega ao Cairo após a conquista de Aqaba, emocionalmente devastado, e confessa ter sentido prazer ao matar pela primeira vez, é um dos momentos que transforma “Lawrence da Arábia” em um épico majestoso e, contraditoriamente, intimista. Pense em uma alquimia entre “Cidadão Kane” e “Os Dez Mandamentos”, e você vai chegar perto do que é o filme.

– Lawrence da Arábia (Lawrence of Arábia, EUA, 1962)
Direção: David Lean
Elenco: Peter O’Toole, Omar Sharif,
Duração: 218 minutos

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