Leis da Atração

17/11/2004 | Categoria: Críticas

Filme de Peter Howitt recicla (mal) o tema clássico dos rivais que não sabem, mas se amam

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Dois advogados especializados em casos de divórcio vivem às turras no tribunal, mas podem acabar vivendo uma grande paixão. A descrição básica do longa-metragem de “Leis da Atração” (Laws of Attraction, EUA, 2004) deixa clara a proposta modesta do cineasta Peter Howitt: fazer uma comédia romântica simpática, bonitinha e despretensiosa, reciclando uma das fórmulas mais batidas que Hollywood costuma adotar. Afinal, a trama do casal-que-se-odeia-mas-acaba-descobrindo-que-se-ama costuma levar milhares de pessoas às salas de cinema, sem que isso signifique necessariamente que o filme é bom.

De fato, às vezes esse enredo milenar termina cativando a platéia devido ao talento de parte da equipe envolvida. O charme pode estar nas belas locações (“Mens@agem Para Voce”), no elenco (“O Amor Custa Caro”), no texto bem cuidado (“Tenha Fé”). Infelizmente, nenhum desses é o caso de “Leis da Atração”. O filme de Peter Howitt se limita a reciclar a situação básica, recheando a história com personagens caricatos em excesso, uma montagem que sofre de falta de ritmo crônico e o desperdício completo de dois atores charmosos, que exageram nos trejeitos de maneira surpreendente para um casal experiente.

Na verdade, os problemas começam na própria construção dos dois personagens principais. Audrey Woods (Julianne Moore) é a melhor advogada de Nova Iorque na área de divórcios. Em um caso importante, ela enfrenta um desleixado colegada recém-chegado, Daniel Rafferty (Pierce Brosnan), e toma uma verdadeira surra. Daí em diante, os dois passam a se encontrar regularmente nos tribunais, com vitórias, derrotas e gozações de parte a parte, enquanto não percebem que estão se apaixonando.

O problema é que os dois protagonistas são canalhas antiéticos que agem de forma irracional e desonesta. Audrey, por exemplo, não hesita em invadir o escritório do colega para espionar as pastas de trabalho dele. Rafferty, que até certo momento parece ser mais íntegro, acaba descobrindo acidentalmente uma informação importante sobre um caso e a utiliza de forma irregular, mesmo sabendo que está fazendo a coisa errada. Detalhes como esses fazem com que a platéia, a certo momento, acabe irritada com os dois protagonistas. Espectadores menos pacientes correm o sério risco de começar a torcer para que tudo dê mesmo errado entre eles.

Os equívocos não param por aí. O filme carece de ritmo, demorando demais para desenvolver certas situações (o início, que detalha o primeiro confronto entre Woods e Rafferty, é até promissor), e de repente correndo alucinadamente para resolver outras. A direção é nitidamente insegura, o que se reflete no desempenho dos atores. O charme habitual de Pierce Brosnan simplesmente não está na tela, enquanto Julianne parece estar interpretando no teatro, cheia de caretas e sorrisos mais falsos do que aqueles que aparecem nas fotos caseiras em que o fotógrafo demora dois minutos para encontrar o botão da máquina.

Para completar o desastre, “Leis da Atração” foi lançado muito próximo de uma boa comédia romântica com quem tem semelhanças óbvias, que é “O Amor Custa Caro”. O filme dos irmãos Coen trafega no mesmo ambiente (tribunais especializados em divórcios caros), mas é superior em tudo: atuações, texto e até na fotografia, mesmo feita quase toda em ambientes fechados. “Leis da Atração” tem esse erro imperdoável, que é desperdiçar as paisagens de Nova York, uma cidade-ícone das comédias românticas, com locais infalíveis para despertar o romântico escondido dentro de cada um de nós. Pois essas paisagens, pasme, estão ausentes do longa-metragem.

Só para não dizer que o filme é um desperdício total de celulóide, existem duas coisas interessantes no trabalho de Peter Howitt. Uma é o personagem de Francis Fischer, Sarah Miller, a mãe de Audrey. Obcecada em parecer mais jovem do que realmente é, Sarah tem o olhar galanteador correto e o porte de uma verdadeira dama. Além disso, é dona das melhores piadas – a segunda melhor coisa do longa (“É verdade que a senhora tem 56 anos?”, pergunta Rafferty, ao conhecê-la; “Algumas partes de mim têm”, responde ela). Pena que isso é muito pouco para 87 minutos de filme.

– Leis da Atração (Laws of Attraction, EUA, 2004)
Direção: Peter Howitt
Elenco: Pierce Brosnan, Julianne Moore, Parker Posey, Michael Sheen
Duração: 87 minutos

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