Lenda de Beowulf, A

08/04/2008 | Categoria: Críticas

Irregular, aventura épica de Robert Zemeckis traz à tona reflexão sobre as crises do cinema neste século XXI

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Os olhos. Ah, os olhos… Será que existe alguma característica mais humana, no nosso corpo, do que os olhos? A aventura digital “A Lenda de Beowulf” (Beowulf, EUA, 2007) está aí para dissipar qualquer dúvida sobre o assunto. A releitura do famoso poema épico do século XVIII aplica técnicas avançadas de tecnologia de animação computadorizada para criar versões virtuais de seres humanos, coreografados em embates contra criaturas mitológicas como demônios e dragões, e faz isso com perfeição quase absoluta. Quase. Num primeiro momento, você olha e se impressiona. Tudo parece estar no lugar. A textura da pele, os cabelos e pêlos do corpo, os músculos, tudo recriado à imagem e semelhança de uma pessoa de carne e osso. Aí você observa com cuidado, e percebe que algo está faltando. O que seria?

Em uma animação tradicional, não valeria a pena analisar a fundo este assunto – seria mais produtivo gastar palavras refletindo sobre o enredo e os personagens, departamento em que “A Lenda de Beowulf” deixa a desejar. Filmes de animação não têm a intenção, e nem a obrigação, de reproduzir fielmente a realidade. Mas o caso deste filme é diferente, porque as razões para o diretor Robert Zemeckis (“De Volta para o Futuro”) utilizar esta técnica de CGI, chamada de “animação fotorrealística”, tem conexões com duas crises, a da indústria cinematográfica e a das narrativas tradicionais. São duas crises que vêm tirando o sono não só dos executivos de Hollywood, mas também dos cineastas. Eles começam a perceber que o cinema clássico vem gerando desinteresse na platéia, e estão experimentando diferentes possibilidades de reativar o interesse do público.

A técnica da “animação fotorrealística” consiste em pregar centenas de sensores eletrônicos no corpo dos atores, levá-los para um galpão forrado de azul e fazê-los interpretar desta maneira, usando a imaginação. Não há câmeras. Os dados captados pelos sensores são transmitidos para um software e gravados. Posteriormente, artistas gráficos cobrem esses dados com pele, ossos, músculos e cabelos digitais, criando avatares (ou seja, versões virtuais dos atores) de incrível semelhança. Às vezes, o processo corrige pequenas imperfeições, eliminando por exemplo a barriga saliente do ator Ray Winstone, que interpreta o protagonista Beowulf, e transformando-o num viking parrudo de dois metros (qualquer semelhança com o rei Xerxes de “300” não é mera coincidência). Os cenários e criaturas mágicas, claro, também são virtuais.

Ao tomar a decisão de descartar as imagens reais dos atores e construir todo o filme em computadores, Zemeckis realiza um sonho antigo dos cineastas: libertar a câmera das leis da Física. Para a montagem das seqüências do filme, os artistas gráficos criam ambientes virtuais completos, com 360º, de forma a permitir que o diretor movimente a câmera da maneira que desejar. E Zemeckis faz isso muito bem: dá giros impossíveis, faz piruetas, voa. Com isso, o espectador é colocado no centro da ação, como se participasse de modo ativo do filme, e não apenas o assistisse passivamente.

Para compreender as intenções reais de tal procedimento, é preciso analisar o contexto inerente à produção de “A Lenda de Beowulf”. Em 2007, o cinema enfrenta competição acirrada no campo do entretenimento. Adolescentes baixam filmes pela Internet ou os vêem em casa, em formatos de alta definição. Ao mesmo tempo, videogames se tornam cada vez mais realistas, oferecendo uma participação ativa do jogador em enredos de inspiração cinematográfica. As duas coisas esvaziam as salas de cinema. Como citado antes, é uma dupla crise: do cinema (que se torna entediante para uma parte do público mais jovem) e da narrativa (passiva demais para a mesma parcela do público).

Como enfrentar estas duas ameaças? A resposta, pelo menos para uma parte dos cineastas, está nas projeções cinematográficas cada vez mais pirotécnicas – cinemas em 3D, telas gigantescas que causam a impressão de imersão na falsa realidade dos filmes. São tecnologias de projeção que aproximam o cinema da realidade virtual e fazem a platéia experimentar uma sensação mais próxima de estar lá, dentro do filme (é sintomático perceber como o tema já vinha provocando reflexões nos cineastas mais atentos, como provam filmes do naipe de “A Rosa Púrpura do Cairo”, que Woody Allen fez em 1985). Nos EUA, “A Lenda de Beowulf” estreou em mais de 700 salas com estas características especiais.

A conexão entre a crise da indústria cinematográfica e a estética de “A Lenda de Beowulf” está exatamente na tentativa consciente, por parte de Zemeckis, em submeter o espectador a uma espécie de imersão total dentro da realidade do filme. Isto não seria possível com o uso de cenários naturais, com atores de carne e osso, com câmeras normais. Para dar à audiência a impressão de participar da ação, de estar no olho do furacão, é preciso dar liberdade total de movimento à câmera. E isto só pode ser feito com a técnica de “captura dos movimentos”.

No aspecto técnico, “A Lenda de Beowulf” chega muito perto de cumprir o objetivo de proporcionar ao espectador uma experiência de imersão. Há seqüências tecnicamente incríveis, repletas de movimentos de câmera impossíveis – as duas cenas de luta que envolvem o herói sueco Beowulf, lutando contra um gigante e depois contra um dragão, são absolutamente empolgantes. Há outras seqüências assim, menos pirotécnicas e porém eficientes. Numa delas, sensacional, a câmera assume a perspectiva subjetiva de um rato apanhado por uma coruja (aliás, o trabalho de edição de som nesta cena em particular é, também, excelente). Outros momentos são mais sóbrios, como na seqüência de introdução, em que a câmera dispensa cortes e gira em torno do salão de festa do rei Hrothgar, apresentando o ambiente como um bailarino valsando no meio de uma festa.

No meio do espetáculo pirotécnico, temos um elenco de qualidade (Ray Winstone e Robin Wright-Penn são destaques, e Anthony Hopkins parece se divertir à beça), emprestando vozes e expressões corporais aos personagens de uma variação da mítica jornada do herói, em um enredo que explora temas como orgulho e mentira, e desemboca em uma tragédia familiar clássica. O roteiro é irregular. Apesar de interessante para os que conhecem o poema original que inspirou o filme, porque os escritores Neil Gaiman e Roger Avary preenchem diversas lacunas da história, conhecida pela imprecisão, com um bocado de imaginação e audácia, tem diálogos bobos e artificiais. Mesmo assim, os dois criam implicações quase incestuosas e dotam o enredo de uma qualidade ainda mais mítica – algo que Gaiman, em particular, já demonstrou dominar muito bem, em criações como a graphic novel Sandman.

Apesar dos predicados, voltamos ao problema crucial: os olhos dos personagens. Nem com toda a perícia da equipe de artistas gráficos, nem mesmo com a ajuda do gordo orçamento de US$ 70 milhões, Robert Zemeckis conseguiu recriar aquela centelha de humanidade, aquela faísca de vida, que reside no olho humano. Enquanto assistia ao filme, eu pensava na célebre seqüência do chuveiro em “Psicose”, de Hitchcock, que termina com um plano magnífico do olho de Janet Leigh perdendo o foco, no exato instante em que ela morre. Dá para perceber, pelo olho, a humanidade daquela mulher – e, na hora da morte, o exato momento em que a humanidade se esvai. A diferença entre um ser humano e um avatar está no olho. “A Lenda de Beowulf” não resolve este problema. E se em outros filmes este dado seria desprezível, aqui não é. Ele causa um sério revés nas intenções da produção, porque quebra a ilusão de realidade que o filme tanto deseja provocar. Claro que, mesmo assim, há muito que discutir a partir do longa – e qualquer obra que provoque discussões e reflexões tem seus méritos.

O DVD da Warner tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Traz ainda dois featurettes detalhando os bastidores da produção.

– A Lenda de Beowulf (Beowulf, EUA, 2007)
Direção: Robert Zemeckis
Elenco: Ray Winstone, Angelina Jolie, Anthony Hopkins, Robin Wright-Penn (animação)
Duração: 113 minutos

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