Lenda do Tesouro Perdido, A

03/05/2005 | Categoria: Críticas

Variação do tema de ‘O Código Da Vinci’ tem furos e clichês de sobra, mas até que diverte

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Quem leu o livro mais vendido de 2004, “O Código Da Vinci”, vai reconhecer todo o esqueleto narrativo do livro de Dan Brown transportado para o filme “A Lenda do Tesouro Perdido” (National Treasure, EUA, 2004). O produtor, Jerry Bruckheimer, jura que não passa de coincidência. Ele garante que a pré-produção do longa-metragem já estava em andamento quando o romance foi lançado. É difícil de acreditar nessa versão. Hollywood não brinca em serviço, e os imitadores são inevitáveis quando um novo produto alcança o nível de sucesso de “O Código Da Vinci” dentro do mercado do entretenimento.

Ocorre que o problema da originalidade, no fundo, não é fundamental. A indústria do entretenimento sempre viveu de reciclar temas bem aceitos pela platéia. A questão é, na verdade, bem simples e direta: a trama de “A Lenda do Tesouro Perdido” tem criatividade, humor e dinâmica suficientes para ser vista como diversão de qualidade? A resposta pende mais para o “não” do que para o “sim”. Existem qualidades em “A Lenda do Tesouro Perdido”, mas o roteiro possui furos sérios demais para serem ignorados por qualquer pessoa que veja o filme com um mínimo de atenção.

A produção narra a odisséia enfrentada pelo historiador e arqueólogo Ben Gates (Nicolas Cage) para descobrir um lendário tesouro, supostamente escondido em algum lugar dos EUA por uma sociedade secreta descendente dos antigos Cavaleiros Templários. Como em “O Código Da Vinci”, o rapaz precisa seguir uma série de pistas, cada uma levando à seguinte, por diversos pontos turísticos da Costa Leste do país. Existe um vilão perseguindo o mesmo tesouro, o milionário inglês Ian Howe (Sean Bean), ex-parceiro de Gates. Ao lado do herói, um ajudante meio atrapalhado, Riley Poole (Justin Bartha), e uma arqueóloga sensual, Abigail Chase (Diane Kruger).

Quando o filme começa, Gates e Howe são parceiros. Eles descobrem um antigo navio do século XVII enterrado no gelo do Ártico. Dentro dele, a primeira charada que precisam seguir para achar o tesouro. Ian revela sua traição e abandona o colega, que escapa de uma explosão espetacular. Começa aí uma espécie de jogo de gato e rato. A cena, logo nos primeiros 10 minutos, é também o primeiro dos vários momentos inverossímeis que veremos no longa-metragem: como é possível alguém trancado em um caixote de madeira gigante escapar ileso de uma explosão causada por centenas de quilos de pólvora? Não, o filme não providencia uma resposta decente para a pergunta. O navio explode e Ben Gates sai sem um único arranhão.

Em outro momento da narrativa, herói e vilão disputam um artefato para conseguir a pista para o enigma seguinte. Em teoria, só quem ficar com o pergaminho poderá continuar a busca pelo tesouro. Gates vence, e segue a pista para outra cidade. Sem a informação e sem saber onde está o ex-parceiro, Ian Howe deveria perder a trilha, mas isso não acontece. No dia seguinte, lá está o milionário, importunando nossos heróis. “Mas como ele conseguiu chegar aqui sem a pista?”, pergunta Poole, ecoando uma dúvida de qualquer espectador antenado. “Ian tem recursos ilimitados e é muito inteligente”, filosofa Ben Gates. É mesmo? E se é assim, porque diabos a família Gates demorou seis gerações inteiras para desvendar o primeiro enigma da trilha? E porque a corrida para chegar primeiro à próxima pista é tão importante assim, se dinheiro e raciocínio bastam para antecipar os passos do inimigo?

“A Lenda do Tesouro Perdido” não tem muita preocupação de ser coerente porque é um filme para adolescentes, com a única intenção de divertir a turma que não gosta de pensar muito no cinema. O longa até tem um sabor de novidade para aqueles que não conhecem as aventuras de Indiana Jones, série na qual o livro de Dan Brown também vai buscar inspiração. De certa forma, não seria exagero dizer que “A Lenda do Tesouro Perdido” parece ter sido filmado com um roteiro apressado, pois a maioria das charadas que servem como pistas são simples demais para ficar dois séculos inteiros sem que ninguém conseguisse resolvê-las. Esse é um problema que “O Código Da Vinci” não tem.

Como não poderia deixar de ser, os velhos clichês de Hollywood batem ponto. Há o amiguinho cômico, que serve para que o herói possa trocar idéias sem ficar pensando alto, como um louco que fala sozinho. A ignorância de Riley Poole também funciona como piada para divertir o público. Há, também, o inevitável interesse romântico do herói, na pessoa de uma jovem especialista do Smithsonian Museum que se reúne à equipe por acidente. Isso sem falar nas várias seqüências desnescessárias de perseguição, em que Ben Gates mostra que tem uma certa vocação para McGyver.

Mesmo com furos e clichês atrapalhando, o diretor John Turtletaub faz o dever de casa direitinho. Nos momentos que antecedem o roubo de um valioso artefato histórico, por exemplo, ele acelera a montagem e constrói uma seqüência razoável, inspirada em “Onze Homens e Um Segredo”. Turtletaub sabe dosar o ritmo da aventura, acelerando-o nos momentos certos. O elenco de apoio correto, que inclui os sempre cool Harvey Keitel e Jon Voight, também empresta credibilidade ao filme, e Sean Bean está ótimo, como sempre. Se você não ligar para o problema da imitação, “A Lenda do Tesouro Perdido” passa raspando no teste.

O DVD simples do filme é bem interessante. Além de conter o filme com imagem original em formato widescreen, e trilha de áudio em formato Dolby Digital 5.1, você ganha quatro extras: documentário de bastidores (11 minutos), duas cenas extras (sete minutos), uma abertura alternativa (dois minutos) e um final alternativo (dois minutos). Um detalhe original é que, se você assistir aos quatro e navegar pelo menu, pode achar pistas para mais quatro bônus, incluindo dois pequenos documentários (um deles, sobre verdadeiros caçadores de tesouros, é bem legal). É o filme certo para isso!

– A Lenda do Tesouro Perdido (National Treasure, EUA, 2004)
Direção: John Turtletaub
Elenco: Nicolas Cage, Diane Kruger, Sean Bean, Harvey Keitel
Duração: 131 minutos

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