Lenda do Tesouro Perdido: O Livro dos Segredos, A

20/05/2008 | Categoria: Críticas

Segundo filme da franquia não tem pudor de clonar os livros de Dan Brown e a série Indiana Jones em história inverossímil

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Jerry Bruckheimer é um produtor muito esperto. Diante do sucesso esmagador do romance “O Código Da Vinci”, ele decidiu antecipar a inevitável versão cinematográfica oficial e clonou o romance, acrescentando pitadas da série “Indiana Jones” e criando sua própria franquia sobre acadêmicos que caçam tesouros. Isto aconteceu meses antes que o filme de Ron Howard fosse lançado. Graças esperteza e à estratégia correta de marketing, o primeiro “A Lenda do Tesouro Perdido” faturou a fortuna de US$ 347 milhões ao redor do mundo. Uma continuação era inevitável. Três anos depois, “A Lenda do Tesouro Perdido: O Livro dos Segredos” (National Treasure: Book of Secrets, EUA, 2007) reúne o mesmo elenco estelar, vitaminado por novos astros de prestígio (Helen Mirren, Ed Harris), e xeroca sem pudor a trama do próprio antecessor, substituindo apenas as locações e os artefatos históricos que movimentam a narrativa.

Se o longa-metragem de 2004 já dispensava qualquer preocupação com lógica e verossimilhança, a continuação proporciona um exagero ainda maior. O enredo gira em torno de mais um tesouro escondido em solo americano (note que a franquia tenta se diferenciar da estabelecida pelo escritor Dan Brown transferindo a ação da Europa para os EUA). Como na vez anterior, o ponto de partida está no século XIX, época da Guerra Civil norte-americana – mais precisamente no assassinato de Abraham Lincoln, morto dentro de um teatro. Os roteiristas (são tantos que não vale a pena citar todos, ou este parágrafo ficaria longo demais) sugerem que o crime teria sido cometido por uma sociedade secreta interessada em decifrar uma inscrição em código presente no diário de John Wilkes Booth, o assassino do presidente. Tal inscrição, se desvendada, levaria à descoberta de uma cidade feita inteiramente de ouro.

A estrutura narrativa é absolutamente idêntica ao filme anterior, que por sua vez copia sem cerimônia os livros de Dan Brown. Trata-se da lógica de um jogo de videogame: cada enigma decifrado leva a uma nova pista, e assim sucessivamente. A cada nova etapa, o nível de dificuldade aumenta um pouco. Por si só, esta estrutura não é suficiente. Para efeitos dramáticos, a corrida pelo tesouro ficaria monótona sem vilões. Então, claro, eles existem, sendo representados pelo veterano Ed Harris, interpretando uma versão suavizada do aterrorizante gângster de “Marcas da Violência” (2005). O elenco ganha também a adição de luxo da dama inglesa Helen Mirren, no primeiro papel após o Oscar recebido pelo drama “A Rainha” (2006). Com ela, são nada menos que três atores vencedores da estatueta no elenco, sem contar outros tantos de igual calibre (Harris, Harvey Keitel, Bruce Greenwood).

No filme, Helen Mirren interpreta a mãe de Ben Gates (Nicolas Cage), o herói. A personagem feminina deixa evidente a segunda maior influência da franquia: a série “Indiana Jones”. O surgimento dela na trama tem a mesmíssima função dramática da aparição do pai do herói de Steven Spielberg, em “Indiana Jones e a Última Cruzada” (1989). A falta de criatividade é tão grande que a apresentação do próprio protagonista acontece da mesma maneira que Ron Howard mostrou pela primeira vez seu pesquisador em “O Código Da Vinci” – em uma palestra acadêmica. No resto do filme, mesmo com um elenco de sonho nas mãos, o diretor-operário John Turteltaub se contenta em filmar a história burocraticamente, em ritmo acelerado, sem sequer providenciar soluções visuais criativas para dar conta da enorme quantidade de informação que o espectador precisa processar, durante a projeção. O resultado é uma dose cavalar de diálogos expositivos, com todos os personagens tagarelando sem parar.

Adicione à receita uma seqüência de perseguição de carros e um punhado de situações dramáticas absolutamente feéricas, inacreditáveis de tão mentirosas, e você termina com uma aventura adolescente nas mãos. Não importa que o filme nos peça para acreditar em situações inaceitáveis, como a possibilidade de que o presidente dos Estados Unidos seja seqüestrado, por uma única pessoa, dentro de sua própria festa de aniversário. Ou que este mesmo presidente guarde um grosso volume, composto exclusivamente por documentos secretos, dentro de uma biblioteca pública. O que importa é que a excitação gerada pelos sucessivos enigmas envolvendo fatos históricos – um prato cheio para fanáticos por teorias conspiratórias, desses que existem aos milhões nos Estados Unidos – funciona como um ímã para o público jovem.

Embora massacrado sem piedade pela crítica norte-americana, “A Lenda do Tesouro Perdido: O Livro dos Segredos” foi muito nas bilheterias de janeiro, permanecendo por três semanas como líder do ranking de faturamento e amealhando a fortuna de US$ 171 milhões no mesmo período, apenas por lá. Há uma razão para que um produto de tão baixa qualidade cinematográfica faça tamanho sucesso: o público-alvo pouco atento aos detalhes. “A Lenda do Tesouro Perdido” mira, e acerta, numa fatia infanto-juvenil de audiência, em especial os jovens na faixa dos 14 aos 16 anos, cuja bagagem cultural ainda é deficiente. Boa parte dessa turma não deve ter visto a trilogia “Indiana Jones”, e portanto não tem idéia de que as mesmas histórias já foram narradas antes, com mais criatividade e competência. São as idiossincrasias da indústria cultural.

O DVD simples, da Buena Vista, traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Não há extras.

– A Lenda do Tesouro Perdido: O Livro dos Segredos (National Treasure: Book of Secrets, EUA, 2007)
Direção: John Turteltaub
Elenco: Nicolas Cage, Jon Voight, Helen Mirren, Ed Harris
Duração: 124 minutos

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