Lenda do Zorro, A

15/02/2006 | Categoria: Críticas

Antonio Banderas e Catherine Zeta-Jones servem de veículo para aventura racista e xenófoba

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Primeira e mais importante constatação: o subtexto de “A Lenda do Zorro” (The Legend of Zorro, EUA, 2005) é simplesmente inacreditável de tão preconceituoso e conservador. No afã de vender mais uma vez a velha imagem dos Estados Unidos como terra da liberdade e da fartura, e ao mesmo tempo inserir a trama do filme no contexto da época em que foi produzido, os produtores criaram um cenário não apenas implausível e mentiroso, mas sobretudo racista e xenófobo. Só isso seria suficiente para recomendar que qualquer pessoa com um mínimo de bom senso passasse longe deste “A Lenda do Zorro”. Como se não bastasse, o filme é longo demais e distorce as características básicas do herói mexicano.

A abertura deixa evidente o racismo odioso do filme de Martin Campbell. A ação se passa em 1850, sete anos após os acontecimentos da aventura de 1998, no dia de um plebiscito em que os moradores da Califórnia vão decidir se passam ou não a fazer parte dos EUA. Os heróis são a favor da medida (claro, pois os EUA não são um paraíso para os pobres ignorantes e maltrapilhos mexicanos?). Os vilões são contra. Por isso, um pistoleiro religioso com uma cruz tatuada no rosto (cópia do Peregrino, personagem dos quadrinhos de Garth Ennis) tenta roubar a urna e invalidar o plebiscito. Ele está a mando de mexicanos que desejam manter o povão na miséria e na ignorância. Zorro (Antonio Banderas), evidentemente, quer virar norte-americano. Por isso entra em ação para impedir a ação criminosa.

A seqüência resume tudo de bom e de ruim que o filme possui. Sua maior qualidade é o flerte com a comédia quase infantil nas cenas de ação. Zorro, além de exímio espadachim, é um acrobata, e aqui acaba com uma quadrilha inteira de malfeitores se equilibrando nas toras de madeira de uma ponte em construção. É a melhor cena de ação do filme inteiro. Por outro lado, a mensagem subliminar é evidente demais para passar despercebida. A Califórnia é pintada, em 1950, como uma pátria (mexicana) de mendigos e analfabetos, que só garantiria a sua ascensão cultural e econômica passando a pertencer aos Estados Unidos. A idéia toda recende a um tipo de ufanismo idiota e simplista como há muito tempo Hollywood não fazia.

A partir daí, o filme engrena numa escala mais intimista, passando a enfocar os problemas familiares de Alejandro de La Vega, o alter-ego do herói. O fidalgo mexicano enfrenta problemas com a esposa Elena (Catherine Zeta-Jones) e com o filho Joaquin (Adrian Alonso). A primeira quer ver o marido aposentar a máscara negra, como ele havia prometido, e passar mais tempo com a família. O rapazola sente a ausência do pai e acredita que, além de submisso, ele não lhe dá atenção. O menino também idolatra o Zorro, e demonstra isso numa cena divertida, em que lidera uma pequena rebelião no colégio com o uso de uma régua. Martin Campbell aproveita e dá sinais de que a franquia pode ir longe, se os produtores resolverem transformar o pirralho num futuro Zorro.

A trama inclui o divórcio de Alejandro e um rival nos assuntos amorosos, o francês Armand (Rufus Sewell), além de uma misteriosa dupla de sujeitos mal-encarados que dá uma prensa em Elena, no começo do filme, e só revela sua verdadeira identidade no final. Na verdade, o roteiro é uma colcha de retalhos, repleta de indicações sobre a Hollywood de 2005. Os produtores conseguiram, por exemplo, incluir uma sociedade secreta que parece retirada do livro “O Código Da Vinci”. Também inventaram de dar um corte de cabelos moderninho ao herói; se um homem fizesse aquilo em 1850, seria enviado à forca. Além disso, coloca uma heroína feminina que grita com o Zorro de igual para igual, e possui idêntica habilidade com a espada nas mãos. Uma mulher tão ativa, é claro, seria impensável naquela época. Ou seja, o filme não se importa nem um pouco com verossimilhança histórica. Como o público-alvo está nas crianças (os duelos não têm sangue e possuem sempre uma pitada de humor), não há problema.

Sejamos sinceros: o enredo todo não passa de desculpa para que os belos Banderas e Zeta-Jones virem veículos de algumas das idéias mais xenófobas que o cinema ousou mostrar, nos últimos tempos. Basta dizer que, em certo momento, alguns personagens defendem a preconceituosa idéia de que os EUA precisam proteger melhor suas fronteiras da invasão de estrangeiros, que têm como maior objetivo a destruição dos valores morais da nação. Em outras palavras, até parece que os conselheiros da Casa Branca de George W. Bush apareceram nos sets, para dar uma mãozinha ao quarteto de roteiristas (Roberto Orci, Alex Kurtzman, Ted Elliott e Terry Rossio), enfiando no filme a conservadora política externa dos EUA de 2005. Um absurdo completo.

É interessante perceber que um produto tão tipicamente norte-americano, naquilo que Hollywood tem de pior, foi concebido por um trio de cabeças estrangeiras: Banderas é espanhol, Zeta-Jones vem do País de Gales (Grã-Bretanha) e o diretor Martin Campbell, que também fez o primeiro filme da franquia, é da Nova Zelândia. Uma pena que eles tenham aceitado fazer parte de um produto tão manipulador e tão reprovável, ideologicamente falando.

Talvez por causa do desânimo em fazer parte de um projeto desses, o trio falha; Banderas capricha nas caras e bocas exageradas, Zeta-Jones apenas desfila a beleza impecável sem se esforçar, e Martin Campbell entrega um filme irregular, de ritmo lento, com um trecho intermediário longo demais. Esse caráter subliminar, ao lado da frouxidão narrativa, faz de “A Lenda do Zorro” um dos piores produtos da safra de aventuras de 2005.

O DVD é da Columbia. O filme comparece com qualidade de imagem (wide anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1) impecáveis. Entre os extras, quatro featurettes enfocando dublês e efeitos especiais, comentário em áudio do diretor e uma galeria de cenas cortadas.

– A Lenda do Zorro (The Legend of Zorro, EUA, 2005)
Direção: Martin Campbell
Elenco: Antonio Banderas, Catherine Zeta-Jones, Giovanna Zacarías, Adrian Alonso
Duração: 129 minutos

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