Lenhador, O

26/07/2005 | Categoria: Críticas

Filme tenta responder, com coragem e sensibilidade, o que se passa dentro da cabeça de um pedófilo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Existe uma regra universal, não escrita, sobre o convívio dentro de prisões. Essa regra ensina que molestadores de crianças são a escória da escória. Assassinos, estupradores e ladrões de banco se respeitam, mas não aos pedófilos. Estes precisam ser isolados do convívio, ou acabam vítimas de estupros coletivos, e são mortos por espancamento. Criminosos sentem repugnância pelo comportamento de um molestador de crianças, e se negam a conviver com gente assim. A pergunta que “O Lenhador” (The Woodsman, EUA, 2004) procura responder, e o faz com sensibilidade e coragem, é a seguinte: como um pedófilo convive consigo mesmo? Como funciona o código moral do tipo de criminoso mais odiado pela sociedade?

É uma tarefa espinhosa, que tinha tudo para dar errado. A cineasta Nicole Kassel, co-responsável pelo roteiro junto com o autor da peça em que o filme se baseia, Steven Fechter, havia acabado de sair da universidade quando assumiu o projeto, e jamais havia dirigido qualquer outro filme. Um tema tão polêmico e difícil, não mãos de um diretor inexperiente, poderia descambar para um filme malvado, simplista ou equivocado com muita facilidade. Mas não foi o que ocorreu. “O Lenhador” consegue a proeza de ser um filme sensível, que observa o inferno pessoal de um indivíduo de longe, sem tomar partido, sem obrigar o espectador a simpatizar ou odiar o sujeito em questão.

O pedófilo é Walter (Kevin Bacon). Quando o filme começa, Walter acaba de ser libertado de uma temporada de 12 anos de prisão. Ele volta à cidade-natal e arranja um emprego como operário em uma metalúrgica, onde somente o diretor conhece seu passado. A única pessoa da família que ainda fala com ele é Carlos (Benjamin Bratt), o cunhado. A irmã não deseja nenhuma espécie de contato. Walter é visitado ocasionalmente pelo sargento Lucas (Mos Def), um policial hostil, que o vigia de perto, apenas esperando um deslize para colocá-lo atrás das grades mais uma vez.

A situação de Walter é ainda mais delicada porque o único apartamento que ele conseguiu alugar, com o pequeno salário que recebe, fica em frente a uma escola primária. Isso significa que as horas solitárias passadas dentro de casa são preenchidas com a visão de crianças brincando – uma tortura para um homem que precisa de acompanhamento psicológico semanal a fim de tentar domar seu desejo irreprimível por meninas de 10 a 12 anos. As constantes espiadas de Walter o fazem descobrir um outro pedófilo rondando as crianças do lugar.

A construção do personagem é feito de uma maneira meticulosa por Nicole Kassell. A platéia não fica sabendo, por exemplo, quase nenhum detalhe sobre o passado de Walter. Sabemos que ele foi para a cadeia por molestar crianças, mas não sabemos muito mais do que isso – não sabemos quantas meninas ele tocou, se de fato fez sexo com alguma delas, se foi violento. Não conhecemos os detalhes. Claro que isso é intencional. Se a platéia ouvisse de algum personagem uma narração ou descrição daquilo que ele fez para merecer a cadeia, a repugnância tornaria o filme desagradável, e o personagem insuportável. Ao contrário, Kassell deseja que Walter inspire raiva, mas uma raiva controlada, e certamente alguma compaixão.

O inferno interior de Walter ganha vida com uma interpretação contida de Kevin Bacon. Seu personagem carrega uma maldição; ele interpreta Walter, acertadamente, como se o pedófilo fosse um viciado. A pedofilia é uma droga que ele quer largar, mas não consegue. Walter sente que seu desejo sexual por crianças é moralmente errado, mas sabe que isso é algo mais forte do que ele, um vulcão que pode irromper a qualquer momento. Ele sabe que se isso acontecer sua vida estará condenada em definitivo. Se é que já não está, uma vez que sua condição lhe deixa sem amigos, sem família e com um sentimento de culpa tão avassalador quanto o desejo que sente por crianças.

Walter é um personagem rico e complexo, e o filme acerta ao não tentar desvendá-lo. “O Lenhador” apenas acompanha a progressiva marginalização do personagem. Para ilustrar à platéia o inferno interior do pedófilo, a diretora Nicole Kassell usa duas estratégias. Primeiro, acompanha as sessões de terapia do Walter, em que ele é obrigado a falar sobre seu problema. Além disso, o psicólogo o força a manter um diário com anotações íntimas, e a platéia compartilha com ele os sentimentos contraditórios que convivem dentro daquele homem – a culpa e o medo, o desejo e o horror.

O enredo de “O Lenhador” inclui, ainda, a operária Vicki (Kyra Sedgwick, mulher de Bacon na vida real), única pessoa a simpatizar com Walter e que se torna namorada, a certa altura, sem saber da condição do amado. É uma estratégia magistral da direção: o que acontecerá quando Walter lhe revelar a tara sexual por crianças? Na verdade, “O Lenhador” foi feito com pequeno orçamento e nenhuma intenção de marketing. O objetivo era que os espectadores entrassem no cinema sem saber qual a natureza do crime de Walter – e só o descobrissem no mesmo momento em que ele conta o problema a Vicki. Infelizmente, toda a campanha publicitária do filme revela o segredo, o que diminui o impacto de uma seqüência muito forte.

O final do filme é polêmico, mas não da maneira que normalmente se esperaria de um filme assim. Há um par de cenas que se encaixa perfeitamente no roteiro, mas que alguns críticos apontam como um elemento redentor que suaviza a força do tema do filme. Não tenho certeza sobre isso. A verdade é que a platéia aceita o que acontece com Walter, porque são acontecimentos lógicos, coerentes com as ações que envolvem o operário durante o filme. Pense um pouco, após assistir ao longa: de que outra forma “O Lenhador” poderia terminar e ainda deixar algum tipo de reflexão na memória do espectador?

De certa forma, é interessante que “O Lenhador” tenha aparecido em 2004, ano em que outras produções de fôlego abordaram o tema da pedofilia. Pedro Almodóvar fez o mesmo em “Má Educação”, e é quase impossível não ver semelhanças entre Walter e o padre Manolo, que se apaixona pelo menino Inácio, na escola. Os dois são homens torturados, prisioneiros de um desvio de comportamento indesejável. Ao lado de “Sobre Meninos e Lobos”, de Clint Eastwood, que também trazia Kevin Bacon e tinha a ação disparada por um ato de pedofilia, “O Lenhador” forma uma trinca de filmes que discute o assunto com profundidade, coragem e sensibilidade.

PS: Outro dia, pude ler um ensaio escrito por um excelente professor da Universidade de Brasília, inspirado justamente por “Má Educação”. O ensaio traça um paralelo entre a maneira como a sociedade encara (e condena) a pedofilia, hoje, e fazia a mesma coisa com o homossexualismo, no século XIX: como um crime ou uma doença. O artigo sugere que a visão social da pedofilia poderia mudar no futuro, desde que se dê voz aos pedófilos para que eles expliquem sua condição.

Pois bem, acho um grave erro fazer uma analogia rasa como essa. Pedofilia significa atração, de ordem sexual, de um ser humano adulto por uma criança. Ou seja, atração de uma pessoa que está em condições intelectuais e psicológicas de persuadir a outra, muito menos desenvolvida, a consentir em uma relação sexual. Uma criança não tem a menor chance de refletir e compreender seus impulsos sexuais. Portanto, acho que não é preciso ser um gênio para compreender que pedofilia é, na mais branda das hipóteses, sexo em que somente um dos participantes sabe o que está fazendo. Isso tem nome: estupro.

O DVD nacional, da Imagem Filmes, não é de boa qualidade. Além de ter trilha de áudio Dolby Digital 2.0 (quatro canais apenas), as imagens são cortadas nas talerais para caberem no formato 4×3 das TVs convencionais. Não há extras.

– O Lenhador (The Woodsman, EUA, 2004)
Direção: Nicole Kassell
Elenco: Kevin Bacon, Kyra Sedgwick, Benjamin Bratt, Mos Def
Duração: 87 minutos

| Mais


Deixar comentário