Leste de Bucareste, A

12/12/2009 | Categoria: Críticas

Comédia romena esconde, com leveza e bom-humor, abordagem de temas duros e interessantes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Ao contrário do que muita gente pode imaginar, o circuito de cinema alternativo também se alimenta de modas sazonais. Em meados dos anos 1990, por exemplo, o mercado foi invadido pelos filmes iranianos. A este ciclo, seguiram-se outros menos intensos, como aqueles que jogavam os holofotes para os novos cinemas argentino e sul-coreano. A segunda parte dos anos 2000 está, graças ao Festival de Cannes, dominada pelo cinema da Romênia. “A Leste de Bucareste” (A Fost Sau n-a Fost?, Romênia, 2006), comédia do estreante Cornelius Porumboiu, foi um dos primeiros filmes do pequeno país no leste europeu a vencer um prêmio importante no festival mais badalado do planeta.

Na edição de 2006, “A Leste de Bucareste” faturou o prêmio Câmera D’Or em Cannes, mas o maior feito da comédia não foi este. O filme de Porumboiu apareceu no rastro do sucesso de “A Morte do Sr. Lazarescu”, que abriu a porteira ocidental para as produções romenas no ano anterior, também em Cannes, e acabou sucedendo aquele filme na lista de premiados da edição seguinte do evento. A boa receptividade dedicada a este “A Leste de Bucareste” fez eco ainda em outro título forte da Romênia lançado no mesmo ano (“Como Comemorei o Fim do Mundo”) e revelou de vez aos cinéfilos que o país, cujo maior ícone cinematográfico até então era o Conde Drácula, vivia uma onda revigorante de cinema bom e barato.

Via de regra, os filmes romenos se caracterizam por priorizar um caráter intimista e afetuoso, com interpretações naturalistas e técnica bem básica. “A Leste de Bucareste” se encaixa perfeitamente nesta descrição, embora seja bem distinto em tom e temática dos demais títulos romenos. Aqui, a narrativa – que se passa num único dia, o aniversário de 16 anos da revolução de 22 de dezembro de 1989, quando o ditador Nicolau Ceausescu foi derrubado por pressão popular – assume um caráter farsesco para investigar os limites borrados entre história e memória. É um filme divertido e leve, mas que não se furta a discutir questões de ordem sócio-política, como a introdução problemática da Romênia no mundo globalizado e até mesmo o caráter fortuito das revoluções políticas, algo que os livros de História teimam em esquecer.

O eixo dramático gira em torno de um debate na televisão sobre o tema. O apresentador Jderescu (Teodor Corban), também dono do canal, pretende discutir o germe inicial da revolução, naquele fatídico dia, 16 anos antes. Os livros escolares ensinam que uma massa popular revoltada iniciou, exatamente às 12h08, um movimento espontâneo que culminaria na queda do ditador. Para discutir o tema, ele convoca Manescu (Íon Sapdaru), professor alcoólatra afundado em dívidas, e Piscoci (Mircea Andreescu), vizinho idoso que teria sido testemunha do ato de revolta popular. A primeira metade do filme acompanha os três personagens durante a manhã pré-debate. A segunda parte é o programa em si. Os dois trechos são divididos por uma longa tomada sem cortes filmada dentro de um automóvel.

Chama a atenção a simplicidade da produção. Nada de trilha sonora, movimentos de câmera elaborados ou edição de som. Tudo é natural e espontâneo. Espertamente, Porumboiu filma tudo com humor singelo, afetuoso, causando empatia instantânea entre personagens e espectadores – impossível não sorrir da rabugice do velho Piscoci, que se irrita com as crianças da rua soltando fogos, ou com o desespero surdo do cansado professor, que contrai novas dívidas para pagar as antigas. O diretor também tem a manha de incluir objetos de cena, figurantes e coadjuvantes com função de apontar à platéia questões que o filme gostaria de discutir, mas não deseja fazê-lo diretamente.

Um exemplo? O personagem do amigo chinês de Manescu. O velho comerciante mantém com ele uma relação de ambigüidade, emprestando dinheiro e até telefonando ao programa para dar apoio ao amigo, mesmo sabendo que o jeito afável de Manescu desaparece quando ele está bêbado (ou seja, todas as noites). Nessas ocasiões, o professor se transforma e vocifera sem controle sobre os imigrantes que roubam as oportunidades de riqueza dos trabalhadores romenos. É uma forma inteligente que o cineasta iniciante encontrou para lançar ao espectador a questão da chegada da Romênia à União Européia, algo que envolve temas tradicionais como desemprego e identidade cultural.

Na segunda metade, quando o filme se transforma e vira algo completamente diferente do que foi no início, os traços cômicos evoluem e alimentam uma situação quase surreal, mas que tem recebido tratamento sério em produções mais ambiciosas (“A Conquista da Honra”, de Clint Eastwood, por exemplo). O ponto é: como separar, em eventos históricos, os fatos e a ficção? Uma discussão curiosa, coordenada por um irritado Jderescu e interrompida o tempo todo por telefonemas divertidíssimos de espectadores que parecem ter mais a dizer do que os debatedores, trata de expor a complexidade do tema com um frescor e uma simplicidade contagiantes.

Exibido no Brasil através do circuito de cinemas alternativos, o longa-metragem foi lançado por aqui em DVD pela Imovision. Está disponível uma edição simples, com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0).

– A Leste de Bucareste (A Fost Sal n-a Fost?, Romênia, 2006)
Direção: Cornelius Porumboiu
Elenco: Mircea Andreescu, Teodor Corban, Ion Sapdaru, Mirela Cioaba
Duração: 89 minutos

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