Lianna

13/09/2006 | Categoria: Críticas

Obra-prima independente de John Sayles antecipa o badalado “Brokeback Mountain” em mais de 20 anos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Filmes sobre relacionamentos amorosos entre pessoas do mesmo sexo sempre foram um tabu difícil de quebrar no cinema norte-americano. Mesmo depois da queda da censura e de uma invasão de cineastas arrojados (Coppola, Scorsese, Penn), dois acontecimentos importantes nos anos 1960, o tema era sistematicamente evitado pelos grandes estúdios. John Sayles teve que recorrer a um esquema de financiamento amador, completamente inusitado, para conseguir filmar “Lianna” (EUA, 1983), um belíssimo estudo de personagem sobre uma mulher infeliz no casamento que se apaixona por… outra.

Surgido em 1980, Sayles foi um dos grandes artífices do cinema independente norte-americano que floresceu na década de 1980. “Lianna” foi, na verdade, o primeiro roteiro que ele completou, mas transformá-lo em filme mostrou-se tarefa árdua. O cineasta teve que dirigir dois outros longas antes de se aventurar em uma produção independente sem ligação com estúdios. Para pagar os custos de produção, os produtores tiveram que tomar emprestado dinheiro com cerca de 50 pessoas. Arrecadaram apenas US$ 300 mil, e por isso Sayles teve que filmar em película amadora de 16 mm (filmes profissionais são feitos na bitola de 35 mm). Mas o resultado, de frescor e originalidade impressionantes, supera todas as limitações técnicas.

A história, como o nome indica, é sobre uma mulher de 33 anos chamada Lianna (Linda Griffiths). Ela vive um casamento estável, mas infeliz, com um professor universitário (Jon DeVries). O casal tem dois filhos pequenos e mora numa pequena cidade universitária. Sob a máscara de sujeito moderno, Dick é um machista que trai a mulher com as estudantes – ela própria foi aluna dele muitos anos antes – e espera que ela fique em casa, cuidando dos filhos. Tudo parece bem até que Lianna conhece Ruth (Jane Hallaren), uma professora de Psicologia Infantil, e se apaixona perdidamente.

Embora não houvesse tido nenhuma experiência homossexual anterior, Lianna não se importa com isso. Sem saber, contudo, está entrando num mundo onde a aparência de normalidade precisa ser preservada de qualquer maneira, e sua honestidade ingênua vai lhe causar sérios problemas – inclusive com a própria Ruth, lésbica experiente. “Eu preciso obter a confiança dos pais para poder fazer experiências com as crianças; se eles souberem quem eu sou, como vão me dar essa confiança?”, explica Ruth, quando Lianna lhe comunica que está se divorciando e pretende ir morar com ela.

John Sayles lança ao problema de Lianna um olhar despido de preconceitos; resulta daí um estudo de personagem maravilhoso, muito denso e profundo, honesto e realista, sem um pingo de melodrama ou afetação. Neste processo de análise disparado pelo filme estão embutidos vários temas menores: a vida claustrofóbica numa cidade pequena que possui um sistema simbólico de punições para quem ousa transgredir as regras (observe o comportamento da melhor amiga de Lianna depois que esta lhe revela o affair proibido), a máscara do casamento mal sucedido, a impossibilidade do amor socialmente proscrito.

O trabalho de John Sayles no filme é admirável. Ele dá total liberdade para que os atores improvisem os diálogos, e utiliza uma técnica enxuta para dar a eles toda a atenção que merecem. O som utilizado é sempre o ambiente, mesmo que com imperfeições, e isto é algo que dá ao filme a aparência espontânea da qual a obra se beneficia enormemente. Além disso, Sayles tem um instinto imbatível para posicionar a câmera (perceba a tomada em que Lianna e o marido discutem ferozmente, no primeiro andar, enquanto a câmera permanece na cozinha, observando as reações do filho mais velho).

Há, também, total atenção aos detalhes. O quarto do casal é decorado com um pôster do clássico “Metrópolis”, de Fritz Lang, tipo de artigo raro que um professor de Cinema nos anos 1960 certamente teria em casa. Existe uma cena, em particular, que mostra este cuidado com os detalhes; é quando Lianna volta para casa de madrugada e encontra o filho mais velho ainda acordado. Ele lhe fala apressadamente e se oferece para arrumar a sala; ela passa por lá depois que ele sai, e encontra revistas pornográficas embaixo do sofá. O timing perfeito dos atores faz com que a cena soe absolutamente natural. Aí estão mãe e filho de verdade, pensamos.

Além do roteiro inspirado, cheio de diálogos ricos e complexos (“o fato de articular melhor não garante que você esteja certo”, diz ela ao marido, após uma discussão repleta de ironia e mágoa latentes), John Sayles constrói algumas cenas antológicas. Ele também montou o filme, e fez isso magistralmente. O ritmo ilustra a crescente atração entre Lianna e Ruth de maneira totalmente natural, e culmina com o belíssimo momento do primeiro beijo entre as duas, em meio a reminiscências de infância de Lianna. É muito bonito, e nada vulgar. Aí está um longa-metragem ousado, que antecipa o badalado “O Segredo de Brokeback Mountain” em mais de 20 anos, e não lhe deve nada na qualidade da riqueza humana mostrada na tela. Obra-prima, nada menos.

O DVD da Aurora tem boa qualidade. A imagem está límpida e em formato correto (widescreen 1.78:1 anamórfico) e o som é OK (Dolby Digital 2.0). Os extras da edição norte-americana (comentário em áudio e entrevista em vídeo do diretor) não foram mantidos no Brasil.

– Lianna (EUA, 1983)
Direção: John Sayles
Elenco: Linda Griffiths, Jane Hallaren, Jon DeVries, Jo Henderson
Duração: 110 minutos

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