Lições Para Toda a Vida

10/11/2004 | Categoria: Críticas

Simpático sem ser brilhante, filme do novato Tim McCanlies flagra transição de uma criança para a adolescência

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Jodie Foster (que não aparece neste filme) é uma brilhante exceção que confirma uma regra incômoda em Hollywood: bons atores infantis raramente conseguem fazer uma transição competente para a idade adulta. Basta pensar em alguns exemplos, sejam eles recentes (Anna Paquin) ou do passado (Tatum O’Neal) – e estou citando agora duas pirralhas que ganharam o Oscar. Esse é o desafio que Haley Joel Osment, de “O Sexto Sentido” e “A.I. – Inteligência Artificial”, enfrenta agora. “Lições Para Toda a Vida” (Secondhand Lions, EUA, 2003) é o primeiro filme dele nessa difícil transição. E Osment até que não se sai mal.

O projeto do longa-metragem parece ter sido escolhido meticulosamente como um passo adiante na carreira do jovem talento. Dividir o espaço cênico com duas lendas vivas da Sétima Arte, mas que nunca atingiram o status de celebridade, não tem cara de coincidência. Assim, são talvez os dois atores coadjuvantes mais qualificados da atualidade, Robert Duvall e Michael Caine, que dão suporte ao olhar triste de Osment. A dupla interpreta um par de ermitãos, Hub (Duvall) e Garth (Caine). Eles vivem numa fazenda no Texas (EUA), matando peixes a tiros e tentando acertar balas em vendedores ambulantes. São dois sujeitos que preferem rejeitar a sociedade e viver à margem dela – um tipo muito comum nos Estados Unidos.

Walter (Osment) tem 12 anos e é enviado para passar uma temporada de verão com os dois tios rabugentos. Ele tem uma missão que lhe é dada pela mãe, Mae (Kyra Sedgwick): descobrir se é verdade que os velhotes escondem um tesouro dentro da fazenda. Na comunidade em que vivem, todo mundo já ouviu falar de tal fortuna, que tem origem imprecisa, já que a dupla esteve desaparecida por 40 anos. Uns dizem que o dinheiro teria sido arrecadado na Arábia, outros crêem que eles já foram assaltantes de banco, e há até quem acredite que a fortuna teria sido roubada do gângster Al Capone.

“Lições Para Toda a Vida” é um filme sobre crescimento, sobre a passagem da infância à adolescência – um processo que Osment está vivendo de verdade. Portanto, fica bastante claro que ele, de certo modo, não está interpretando, mas procurando a maneira correta de deixar de lado os cacoetes da criança para se transformar num ator adulto. Por isso, ele não decepciona. Sabe que tem olhos marcantes e os usa para comunicar timidez e tristeza, algo que, como o roteiro deixa claro logo nas primeiras cenas, é gerado pelo comportamento histriônico e desleixado da mãe. Por outro lado, o roteiro reserva a Osment pelo menos três discursos emocionados, uma típica cena-solo dos melodramas mais banais. Nesses momentos ele não se sai tão bem.

Isso não quer dizer que o garoto esteja caminhando para uma carreira medíocre na idade adulta, à sombra do que fez quando era criança. É bom lembrar que atuar exige controle completo do corpo, algo que um adolescente – nenhum deles – tem. Osment tem agora outra voz, outros braços, outra face. Ele precisa aprender a descartar os velhos recursos dramáticos e utilizar os novos. Isso leva tempo, e ele escolheu um bom trabalho para treinar. “Lições Para Toda a Vida” parece claramente um filme de transição para um ator em transição. De alguma forma, o desconforto de Osment em certas cenas parece perfeitamente adequado ao personagem, e isso ajuda o filme, ao invés de atrapalhá-lo.

Assistir ao longa do diretor novato Tim McCanlies vai fazer muita gente lembrar do recente “Peixe Grande”, de Tim Burton. Isso ocorre porque o filme é entrecortado por flashbacks em que Garth, o mais falante dos velhos rabugentos, conta a Walter o que os dois teriam feito nos 40 anos em que estiveram sumidos. Esses trechos são filmados corretamente, com ações sem palavras conduzidas por uma narração em off tipicamente infantil, e pecam apenas pelo excesso de realismo (a direção de arte poderia ser mais caricata para acertar no tom farsesco que a ação pede). Mesmo assim, a narrativa é fantasiosa, busca inspiração em episódios das “Mil e Uma Noites” e está claramente repleta de exageros, para delícia do pirralho.

Dessa forma, “Lições Para Toda a Vida” pretende, e consegue, capturar um daqueles verões que, mesmo parecendo rotineiros ou chatos à primeira vista, inesperadamente se transformam em inesquecíveis. São ritos de passagem, épocas definidoras da personalidade de um adolescente e que, regra geral, rendem memórias para o resto da vida. Aliás, memória é uma palavra-chave para descrever a película, já que ela é inteiramente narrada por um Walter adulto, que emoldura o filme em seqüências na abertura e no encerramento. Ou seja, o filme é uma memória. Em poucas palavras, “Lições Para Toda a Vida” é simpático e correto, mesmo sem ser brilhante.

- Lições Para Toda a Vida (Secondhand Lions, EUA, 2003)
Direção: Tim McCanlies
Elenco: Michael Caine, Robert Duvall, Haley Joel Osment, Kyra Sedgwick
Duração: 111 minutos

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3 comentários
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  1. :lol: filme muito bom, vale a pena assistir…..

  2. o filme e otimo….
    nos faz repensar algumas atitudes
    e dar mais valor as pessoas q nos amam
    e q estao sempre ao nosso redor…
    enfim…e magico!!!

  3. Excelente! Deveria passar mais vezes. COMO POSSO ADQUIRIR O FILME?

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