Ligação Perdida

19/08/2008 | Categoria: Críticas

Pense em ‘O Chamado’ com telefones celulares e você tem uma boa idéia do que é o filme de Takashi Miike

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Os cineastas japoneses foram de uma competência digna de Hollywood. Após reinventar, em meados dos anos 1990, um gênero – o horror sobrenatural – combalido nos EUA desde a virada dos anos 1960/70, eles ousaram criar uma fórmula para refilmar infinitas variações do mesmo filme, baseando-se em narrativas lentas e atmosféricas para pregar sustos de parar o coração dos pobres ocidentais. “Ligação Perdida” (Chakushin Ari, Japão, 2003) é a incursão definitiva do diretor cult Takashi Miike dentro desse subgênero, que nos EUA é conhecido por “grudge movies” (ou “ filmes de maldição”).

A carreira de Miike é bem conhecida no Japão. Autor de cerca de 60 longas-metragens em apenas treze anos como cineasta, Miike trabalha numa velocidade alucinante para os padrões cinematográficos. Alternando-se entre filmes bizarro-infantis (“Zebraman”) e bizarro-adultos (o hipnótico e histérico “Gozu” e o culturado “Ichi The Killer”), ele construiu uma carreira sólida no underground cinematográfico japonês. “Ligação Perdida” pode ser considerado o filme mais comercial da carreira de Miike. Também é assustador, embora derivativo e pouco original.

“Ligação Perdida” tem sido descrito como uma espécie de “Ringu” com telefones celulares. Faz sentido. A história é simples e lembra demais o sucesso que inspirou “O Chamado”. Uma uma noite, numa boate, uma jovem japonesa recebe um estranho telefonema no celular. Ela não atende, mas verifica depois que o bina registrou a chamada como se tivesse sido feita do próprio telefone dela, só que dois dias no futuro. Pior: a garota ouve o recado, que é assutador. A voz dela mesma fala algumas palavras sem sentido, e dá um grito pavoroso. A menina mostra o telefonema a duas colegas, mas acha que é um trote e não pensa mais no assunto. Acontece que, dois dias depois, na hora exata registrada pelo telefonema, ela morre em um acidente de trem com característica de suicídio.

Takashi Miike filma a morte de maneira a não deixar nenhuma dúvida: a garota não se suicidou, mas foi assassinada por alguma entidade sobrenatural e invisível. Da mesma forma pensam as duas amigas que ouviram o recado macabro de dois dias antes, pois uma delas estava no telefone conversando com a colega morta, e ouviu as exatas palavras que constavam daquela ligação premonitória. Assim, quando um outro membro do grupo recebe um telefonema semelhante, elas têm a certeza de que todos eles estão sendo vítimas de uma maldição. Resta-lhe investigar para descobrir a origem da maldição, esperando conseguir uma forma de escapar da morte certa.

Miike filma tudo como manda a cartilha do horror japonês: lentidão exasperante, muitos momentos de silêncio absoluto, cenários escuros repletos de sombras e uma canção-tema arrepiante (no caso, a melodia do toque característico das ligações malditas, uma espécie de versão para celulares monofônicos do tema de “O Exorcista”). Não dá para se deixar enganar: esta é uma variação de “O Chamado”, embora bem feita e cheia de momentos interessantes, desses de dar medo em alma penada.

Há duas seqüências realmente assustadoras. Uma delas, dentro de um estúdio de TV, tem a marca registrada de Takashi Miike: uma morte bizarra e violenta, bem ao estilo extravagante do italiano Dario Argento. A outra é bem mais longa e inquietante, e se passa em um hospital abandonado, algo que lembra um pouco a minissérie dinamarquesa “O Reino”. Como pontos negativos, além da falta de originalidade, alguns buracos medonhos na trama (afinal, os telefonemas saem dos próprios celulares das vítimas ou não?) e um final que pretende ser etéreo e inconslusivo, mas só consegue ser confuso. De qualquer forma, como nos bons exemplares de “grudge movies”, há bons sustos e o já clássico fantasma de cabelo longo, rosto encoberto e olhão preto. Quem gosta do gênero vai achar o filme bem legal.

O DVD nacional, da Alpha Filmes, é simples e não tem nenhum extra. O enquadramento original (widescreen anamórfico) está preservado, e a trilha de áudio é OK (Dolby Digital 5.1).

– Ligação Perdida (Chakushin Ari, Japão, 2003)
Direção: Takashi Miike
Elenco: Kou Shibasaki, Shin’ichi Tsutsumi, Kasue Fukiishi, Renji Ishibashi
Duração: 116 minutos

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