Ligeiramente Grávidos

07/02/2008 | Categoria: Críticas

Comédia de Judd Apatow celebra amizade masculina misturando vulgaridade e carinho pelos personagens

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Autor de vários clássicos de faroeste, comédia romântica e film noir, o versátil Howard Hawks se notabilizou como o cineasta que melhor filmou a camaradagem masculina, nos tempos áureos de Hollywood. Bem mais modesto, Judd Apatow confirma em “Ligeiramente Grávidos” (Knocked Up, EUA, 2007) que é candidato a ficar com mesmo título na Hollywood do século XXI. O diretor, que já havia demonstrado olho apurado para o tema no engraçado “O Virgem de 40 Anos” (2005), repete a dose numa comédia que tem as mesmas impressões digitais do antecessor: uma mistura certeira de situações vulgares e carinho insuspeito pelos personagens.

Obviamente, a comparação entre Hawks e Apatow se restringe à temática predileta de ambos, sem se referir à qualidade do trabalho de cada um – o primeiro era um mestre, o segundo não passa de diretor esforçado. Aliás, basta dar uma olhada atenta a seqüências onde os dois trabalham o tema para perceber o quanto o mundo mudou em cinco décadas. Uma das seqüências mais célebres de Hawks, presente no megaclássico “Onde Começa o Inferno” (1959), e sempre lembrada por enfatizar sem palavras o clima de camaradagem entre homens, traz quatro amigos entoando uma canção improvisada, violão na mão, enquanto aguardam o inevitável ataque mortífero de um bando de vilões. São heróis, cabras machos de verdade. Esperam a morte sorridentes (se passou pela sua cabeça algum tipo de insinuação gay, esqueça – a sujeira não está no filme, mas na sua mente, como diria Cláudio Assis).

Em “Ligeiramente Grávidos”, a amizade masculina é celebrada alegremente de maneira bem parecida, e ao mesmo tempo muito diferente. Em longas seqüências, quatro amigos também cantam juntos e conversam sobre abobrinhas. Mas eles não são heróis, nem modelos de comportamento. Fumam maconha e são vagabundos preguiçosos com a aparência de quem não toma banho há duas semanas. Soltam peidos fedorentos com a alegria de quem vê um filme do Monty Python, falam sobre seios femininos e Internet. Sinal dos tempos, certamente. De qualquer forma, para um homem na faixa dos 20/30 anos, não é difícil se reconhecer na tela. Saber criar personagens e situações familiares é uma virtude do diretor, também produtor e roteirista.

O personagem principal é Ben (Seth Rogen), um cara normal, meio gordinho e feioso, que não parece ator de Hollywood (uma virtude). Preguiçoso, vive desde os 14 anos com a grana que recebeu após sofrer um acidente. Tem um punhado de amigos tão nerds quanto ele, fuma maconha todo santo dia, é masturbador semi-profissional e sonha em virar milionário criando um site de putaria (confesse: se não parece com você, parece com alguém que você conhece). Numa daquelas situações de estar no lugar certo e na hora certa, Ben cruza numa boate com Alison (Katherine Heigl). Em condições normais ele jamais olharia para um cara como ele – além de ser muita areia para o caminhãozinho de Ben, a garota faz um perfil completamente diferente. É séria, compenetrada, ambiciosa. Nem mesmo gosta de maconha. Só que justo naquela noite ela está comemorando uma promoção.

A euforia não apenas a tornou momentaneamente falante e sorridente como a fez exagerar na cerveja. Numa adaptação livre de um conhecido ditado (“não existe mulher feia, você é que bebeu pouco”), Alison dá a maior bola para Ben, leva ele para casa e transa sem camisinha. Pelo título nacional estúpido, você já sabe o que acontece oito semanas depois. Daí para frente, o filme mostra o casal forçado tentando se adaptar à gravidez indesejada, com um monte de lances cômicos. Mas não se engane: o verdadeiro tema do longa-metragem é o lamento de Ben pelo fim daquilo que mais gosta: ficar largado com os amigos, sem fazer nada, curtindo papo furado e um baseado. O drama vivido por um personagem secundário (Pete, cunhado de Alison, vivido por Paul Rudd), numa história paralela enfiada no filme como um gigantesco parêntese, materializa exatamente a situação de Ben.

Por trabalhar situações facilmente reconhecíveis pelos homens, sempre com humor contagiante, “Ligeiramente Grávidos” entra facilmente naquela categoria de filmes simpáticos e inofensivos que você guarda no coração. Além do mais, o elenco relativamente desconhecido, de feições normais que não são feias e nem bonitas demais, garante um reforço extra à sensação de que o filme apenas mostra uma vida que poderia ser a sua Vale lembrar que a maior parte dos atores participou anteriormente de outros trabalhos de Apatow, inclusive os dois principais membros do elenco masculino (Rogen e Rudd, atores limitados mas eficientes como comediantes – a imitação que o segundo faz de Robert De Niro, em certo momento, é impagável). É o tipo de filme que deve agradar em especial aos órfãos de “Procura-se Amy” (Kevin Smith) ou “Swingers” (Doug Liman). Digna de nota é a participação do diretor Harold Ramis (do excelente “Feitiço do Tempo”) numa ponta, como o pai de Ben.

De qualquer forma, “Ligeiramente Grávidos” está longe de ser um grande filme. Uma característica dos melhores diretores é a atenção minuciosa aos detalhes, e isso é algo que Apatow definitivamente não tem. Os personagens secundários, por exemplo, não recebem nem um décimo da atenção dedicada aos protagonistas. São caricaturas terrivelmente superficiais, que não merecem sequer um batismo decente – quase todos recebem os nomes dos próprios atores. Além disso, Apatow demonstra certa dificuldade de alcançar uma visão abrangente da própria obra, pois repete um defeito grave cometido em “O Virgem de 40 Anos”: inclui diversas cenas que podem até soar engraçadas, mas mantêm a narrativa estacionada por tempo demais, sendo dramaturgicamente desnecessárias. Elas esticam a duração para proibitivos 129 minutos, uma eternidade.

O DVD da Universal contém o filme com boa qualidade de vídeo (widescreen anamórfico) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Ligeiramente Grávidos (Knocked Up, EUA, 2007)
Direção: Judd Apatow
Elenco: Seth Rogen, Katherine Heigl, Paul Rudd, Leslie Mann
Duração: 124 minutos

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