Linha de Fogo, Na

23/09/2005 | Categoria: Críticas

Diretor alemão dirige Clint Eastwood em papel que retoma o tema preferido do ator: a chegada da velhice

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Não é difícil entender porque o cineasta Clint Eastwood aceitou participar, apenas como ator, do longa-metragem “Na Linha de Fogo” (In The Line of Fire, EUA, 1993), dirigido pelo alemão Wolfgang Petersen. O projeto do filme, que se tornaria a última obra de Clint sem estar atrás das câmeras, já caminhava quando o diretor foi consagrado com o Oscar por “Os Imperdoáveis”. De qualquer forma, esta é uma obra que se ajusta perfeitamente à temática favorita de Eastwood a partir dos anos 1990, que é a chegada da velhice, o momento em que a idade vem cobrar o seu preço de quem viveu perigosamente. Ao contrário dos longas-metragens assinados por Eastwood, no entanto, “Na Linha de Fogo” é apenas um thriller eficiente de ação, sem o subtexto rico dos filmes do Eastwood diretor.

O enredo é uma variação de uma fórmula muito comum em Hollywood: os jogos de gato e rato cinematográficos, com um policial perseguindo um criminoso e tentando evitar que ele cometa novos crimes. Nesse caso, o policial é Frank Horrigan (Eastwood), um agente secreto de FBI que vive com o trauma de ter estado no comando na equipe de segurança do presidente Kennedy quando este foi assassinado, em Dallas, em 1963. O acontecimento foi um marco na vida de Horrigan. Sentindo-se culpado, ele passou a levar uma vida solitária e amarga. Sua primeira cena, quando prende uma dupla de traficantes de drogas usando como isca um parceiro novato (Dylan McDermott), define a personalidade dele: frio, impassível, sem vida social. Alguns o definiriam como antipático.

O criminoso é Mitch Leary (John Malkovich). O psicopata tem um plano para assassinar o presidente dos EUA, e é dedurado casualmente por uma vizinha que suspeita do comportamento estranho que exibe. Mas consegue escapar, e fica exultante quando descobre que Horrigan é o policial escalado para investigá-lo. Assim, passa a fazer telefonemas pessoais para o agente, provocando-o e instigando-o a tentar impedir o novo atentado, para tentar compensar a falha de 30 anos antes.

Se a história não tem muita novidade, o roteiro de Jeff Maguire é inteligente, e foi dirigido com segurança por um Wolfgang Petersen que começava a mostrar serviço em Hollywood (ele depois faria “Air Force One” e “Tróia”, entre outros). Um exemplo: quando Frank Horrigan começa a investigar Mitch Leary, o diretor filma várias cenas para mostrar o quão perto o assassino está do agente. Em um dos telefonemas que o psicopata dá para a casa do policial, uma ambulância passa pela rua, na frente de Frank, que ouve a sirene também pelo bocal do telefone.

Outra boa sacada de Petersen é jamais mostrar o rosto do criminoso durante a primeira metade o filme, o que planta a dúvida na cabeça de quem vê o filme: será que o assassino é mesmo o sujeito que pensamos ser? Será? E o que dizer da quase imperceptível seqüência em que, depois de ficar sem parceiro, o agente secreto é obrigado a voltar para casa de ônibus, por ter perdido a carona? Quantos filmes de Hollywood mostram momentos tão pessoais, tão íntimos e desimportantes, nas vidas dos personagens principais?

Como brinde extra, o espectador ainda ganha dois excelentes desempenhos de atores com estilos diametralmente diferentes. Eastwood repete sua maneira dura, casual e espontânea de aparecer em cena, beneficiando-se da aura de durão angariada com os personagens que interpretou nos filmes de Don Siegel. Já Malkovich é muito mais técnico, o que se ajusta como uma luva a um papel que exige disfarces e sotaques diferentes. O ator chegou, durante a preparação para o filme, a morar sozinho durante um mês, sem sair de casa e ser assistir a TV, para sentir como o modo de vida do personagem afetava a sua mente. Entre os dois, há ainda uma Rene Russo charmosa, no papel de uma agente que tem o dever de supervisionar Frank Horrigan (e os dois protagonizam uma engraçada cena de sexo).

A edição em DVD lançada no Brasil pela Columbia é chamada nos EUA de Special Edition. Contém o filme com enquadramento original (widescreen 2.35:1), som potente (Dolby Digital 5.1) e uma série de extras, como dois documentários (20 minutos cada), dois featurettes de bastidores, uma galeria com cinco cenas cortadas e um comentário em áudio do diretor Wolfgang Petersen. Nada de legendas nos extras.

– Na Linha de Fogo (In The Line of Fire, EUA, 1993)
Direção: Wolfgang Petersen
Elenco: Clint Eastwood, John Malkovich, Rene Russo, Dylan McDermot
Duração: 128 minutos

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