Linha de Passe

13/01/2009 | Categoria: Críticas

Walter Salles constrói denso painel humanista ao acompanhar o duro cotidiano de uma família que vive na periferia de São Paulo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Walter Salles é mesmo um cara legal – e não, não há um pingo de ironia nesta frase. O cineasta que repôs o país no mapa do cinema internacional, com “Central do Brasil” (1998), cultiva evidentes preocupações sociais, e não tem medo de transpô-las para os filmes que assina. Embora a intenção seja das melhores, esta característica costuma carimbar filmes com os rótulos de “panfletário” ou “engajado”, algo que Salles e a parceira criativa Daniela Thomas procuraram nitidamente evitar, em “Linha de Passe” (Brasil 2008). Buscando um registro contido e sem qualquer traço do melodrama que permeava perigosamente “Central do Brasil”, Salles constrói um denso e intrincado painel humanista ao acompanhar, durante alguns meses, o duro cotidiano de uma família que vive na periferia de São Paulo.

Sem abrir mão do olhar social crítico, Salles contou com a colaboração de Daniella Thomas, co-diretora de “Linha Estrangeira” (1996) e “O Primeiro Dia” (1999), para injetar carinho e humanidade num roteiro cujo objetivo principal é problematizar a complexa relação de classe entre a burguesia e a pobreza brasileiras. Este elemento humano é alcançado através dos cinco personagens principais, todos delineados com muita profundidade pelos roteiristas (Daniella Thomas e o pernambucano George Moura) e defendidos com talento pelo elenco, compostos por rostos desconhecidos do grande público. O fantástico desempenho do elenco acabou reconhecido no Festival de Cannes, onde a atriz Sandra Corveloni faturou o troféu de melhor atriz, em 2008.

Corveloni, que nunca havia feito novela em TV e portanto é uma ilustre desconhecida para a maior parte do público nacional, brilha intensamente no papel de Cleuza, empregada doméstica solteira que luta para sustentar os quatro filhos e está grávida do quinto. Ela não brilha só, contudo. Os quatro rapazes que dividem com ela o casebre de dois quartos, na periferia paulista, alcançam desempenhos igualmente intensos. Eles são Dênis (João Baldissieri), motoboy que tem um filho de dois anos e não pode ajudar a sustentá-lo por estar pagando as prestações da motocicleta; Dario (Vinícius de Oliveira), aspirante a jogador de futebol à beira do desespero, por estar no último ano em que pode enfrentar as peneiras dos grandes clubes; Dinho (José Geraldo Rodrigues), frentista de posto de gasolina que superou uma adolescência marginal freqüentando igreja evangélica; e Reginaldo (Kaíque Jesus Santos), o caçula que nunca conheceu o pai, menino traumatizado por ser o único negro da casa, que adora passar horas dentro de ônibus, observando motoristas e tentando aprender a dirigir.

A família de Cleuza é um perfeito microcosmo da periferia de uma grande metrópole brasileira. Nesse aspecto, o roteiro é um grande gol do longa-metragem, pois ousa combinar, com naturalidade e fluidez, diferentes aspectos da identidade cultural brasileira: futebol, religiosidade, mercado de trabalho, composição familiar, sexo, racismo, violência urbana e o famoso “jeitinho” brasileiro, que se manifesta de diferentes maneiras (candidatos a boleiros têm que pagar propina para serem selecionados, motoboys fazem favores sexuais para receberem mais trabalho, etc.). Todos esses aspectos são muito bem trabalhados dentro da história. O problema é que na verdade não existe exatamente uma história, já que o filme se limita a acompanhar os cinco membros da família durante um período de alguns meses.

Um dos grandes destaques de “Linha de Passe” está nos pequenos detalhes saborosos que, juntos, preenchem lacunas importantes sobre o que significa ser brasileiro. São coisas miúdas, como a mania que os motoristas têm de “esquecer” a primeira e dar partida no carro usando a segunda marcha (“é preguiça”, explica um condutor de ônibus a um fascinado Reginaldo), a maneira quase suicida como os motoboys dirigem pelas avenidas paulistas ou o muito utilizado truque de falsificar a carteira de identidade para poder participar de peneirões em equipes grandes de futebol após os 18 anos de idade. Walter Salles sempre demonstrou interesse em investigar aspectos da identidade nacional, e “Linha de Passe” talvez seja o melhor filme que ele realizou até aqui, pelo menos neste sentido, ao lado de “Terra Estrangeira”.

Se o trabalho de composição de personagens chama a atenção pela perícia com que foi feito, existe um outro aspecto do roteiro que deixa a desejar. Embora o ponto de vista narrativo esteja claramente do lado dos menos favorecidos, observadores atentos irão notar certa artificialidade no tratamento do principal tema do filme: as relações de classe entre burgueses e favelados. Cada um dos cinco personagens principais, afinal, persegue com afinco um sonho, um desejo, uma vontade de ascender ou pelo menos manter o status quo. Este sonho, no entanto, sempre é sabotado por algum representante da classe média, algumas vezes de forma consciente e canalha, outras vezes por ingenuidade ou desconhecimento. Nesse aspecto social, “Linha de Passe” soa simplista e insuficiente, jamais alcançando o mesmo grau de complexidade que atinge na questão cultural.

Curiosamente, esta é uma questão que tem sido bem abordada no cinema brasileiro contemporâneo, em filmes de diferentes gêneros e com graus variados de ambição. O drama naturalista “A Casa de Alice”, de Chico Teixeira, e o brega esperto “Falsa Loura”, de Carlos Reichenbach, são exemplos de trabalhos que soam melhor resolvidos do que “Linha de Passe”, no que diz respeito a essa relação entre a periferia e o centro, entre a base e o topo da pirâmide social. Aliás, a semelhança estética entre o filme de Walter Salles e Daniela Thomas com “A Casa de Alice” não é mera coincidência, já que ambos dividem o crédito de diretor de fotografia. Mauro Pinheiro Jr. (“Cinema, Aspirinas e Urubus”) trabalhou, nos dois casos, com o mesmo registro, de tom documental, com iluminação naturalista, muitas sombras e cores dessaturadas. O resultado sublinha bem a atmosfera urbana melancólica, e une-se à trilha sonora discreta do uruguaio Gustavo Santaolalla, no sentido de acentuar a progressão dramática dos personagens, cada vez mais sufocados e oprimidos dentro de suas respectivas condições.

Por fim, é importante observar o excelente trabalho de edição realizado pela dupla Lívia Serpa e Gustavo Giani. A estrutura narrativa escolhida é difícil para montadores, pois não existe um fio condutor claro. A história é dividida em longas seqüências de acontecimentos simultâneos, cuja narrativa salta com freqüência entre cinco ações paralelas. A fim de minimizar os saltos abruptos, os editores capricharam nas transições, o que empresta ao todo um ritmo mais solto e fluido. Observe, por exemplo, a cena de abertura, que mostra Cleuza torcendo furiosamente pelo Corinthians no estádio, num jogo contra o São Paulo. A edição valoriza rostos anônimos, em estado de tensão absoluta, até que uma falta perigosa é marcada para o time adversário. Aí, os torcedores rezam – e a imagem religiosa de aglomerados humanos com olhos fechados e braços erguidos é a deixa perfeita para que a ação salte para Dinho, que naquele mesmo momento participa de um culto na igreja evangélica. A transição suave e inteligente não desvia a atenção do espectador e o mantém concentrado na história.

O DVD nacional leva o selo da Universal. O formato de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfico) foi respeitado, e o áudio (Dolby Digital 5.1) tem seis canais. Entrevistas em vídeo com os diretores e com boa parte do elenco estão disponíveis como extras.

– Linha de Passe (Brasil 2008)
Direção: Walter Salles e Daniela Thomas
Elenco: Sandra Corveloni, João Baldasserini, Vinícius de Oliveira, José Geraldo Rodrigues
Duração: 108 minutos

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