Lisbela e o Prisioneiro

07/03/2004 | Categoria: Críticas

Cacoetes da linguagem televisiva do diretor Guel Arraes até diluem, mas não mancham brilho cômico do filme

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O diretor Guel Arraes é uma das crias mais paparicadas da televisão brasileira. Desde que surgiu no cenário nacional, com o seriado adolescente “Armação Ilimitada”, lá pelos idos da década de 1980, ele vem sendo louvado por criar e sedimentar uma nova linguagem televisiva.Uma linguagem mais atual, mais jovem, mais inteligente e menos ortodoxa. Aí Guel começou, sorrateiramente, a fazer incursões pelo cinema.

O sucesso estrondoso (de público e crítica) de “O Auto da Compadecida” lhe deu certeza de que estava no caminho certo. “Lisbela e o Prisioneiro” (Brasil, 2003), terceiro trabalho do diretor pernambucano, marca um ponto de virada da carreira do cineasta – um ponto em que a mesma crítica que lhe pedia bênção, ajoelhada aos pés, agora não hesita em apontar defeitos no trabalho que Arraes desenvolve.

Aliás, defeitos não. Minto: defeito. Um só, no singular. Em resumo, a grande bronca dos críticos brasileiros para com os filmes de Guel é de ordem estética. Dizem que a linguagem dele funciona muito melhor na telinha, porque o diretor abusa da montagem veloz, picotada, e costuma ser extremamente econômico no uso dos planos gerais.

Em linguagem comum, os entendidos de cinema dizem duas coisas: (1) que Guel não dá pausa para o espectador respirar, pulando de uma imagem para outra com excesso de velocidade; e (2) que ele esquece de filmar os personagens de longe, aquelas imagens que chamamos de “planos gerais”. Essas paisagens têm duas funções básicas na linguagem cinematográfica. Uma é descansar a vista do espectador, e outra é ajudá-lo a estabelecer melhor a geografia e a noção de espaço em que a ação do filme se desenvolve.

Quem reclama de Guel por causa desses detalhes estéticos não está errado. “Lisbela e o Prisioneiro” realmente sofre de hiperatividade visual. É um filme muito veloz, excessivamente editado, como se o diretor e os roteiristas (Jorge Furtado e Pedro Cardoso, dois amigos e parceiros profissionais do cineasta) tivessem mais idéias do pudesse caber em duas horas de projeção. Da mesma forma, a falta dos planos gerais parece evidente.

Se qualquer espectador mais atento tentar relembrar o filme cena a cena, ao final da projeção, vai conseguir recordar talvez três ou quatro usos de paisagens mais panorâmicas. O resultado é um filme de pé embaixo, realmente corrido. Ocorre que o público, acostumado com a linguagem da TV, nem parece notar esses detalhes. Ou seja, são características que só parecem problemas para olhos profissionais.

Há detalhes importantes, porém, que os críticos não estão levando em consideração. O primeiro é a coerência estética do realizador. Para quem não lembra bem, “O Auto da Compadecida” e “Caramuru” também abusavam da montagem e se ressentiam dos planos gerais. “Ah, mas esses dois foram feitos primeiro para a TV, o que explica tudo”, dizem os entendidos.

Esse argumento parece tão falso quanto insuficiente. Talvez – e parece que poucos conseguem perceber isso – tudo seja intencional. Guel Arraes é um sujeito corajoso. Ele está tentando, e essa tentativa não começou ontem, estabelecer uma conexão mais orgânica entre cinema e televisão. Duas linguagens que já foram diferentes mas que caminham, hoje, numa dinâmica muito parecida. Toda a obra de Hollywood, por exemplo, sofre do mal da super-edição. E muitos filmes que vêem de lá ganham elogios profusos. Nesse caso, a super-edição parece não incomodar os críticos de plantão.

Também já se ouve por aí algumas alfinetadas em Guel Arraes por uma suposta tentativa de criar uma “estética do blockbuster nacional”. É um argumento interessante, que merece talvez uma análise mais aprofundada. Particularmente, não vejo problema algum em tentar fazer filmes mais populares, que agradem mais ao povo e menos aos intelectuais. O último grande casamento entre cinema nacional e público aconteceu justamente na época em que os filmes tinham linguagem próxima do cotidiano popular – os anos 1970, com a pornochanchada e Os Trapalhões.

Os próprios críticos e cineastas são os primeiros a enfatizar a necessidade de consolidar uma indústria de cinema brasileiro, para que o público perca o preconceito de ir ver filmes feitos aqui e, finalmente, ponha em movimento um esquema de produção/distribuição realmente forte, que permita aos cineastas locais trabalhar sem precisar perder anos passando a cuia e implorando dinheiro a mecenas, governamentais ou privados.

De qualquer forma, “Lisbela e o Prisioneiro” acabou julgado muito mais pelo contexto em que se insere (ou seja, pelos debates “linguagem do cinema x TV” e “blockbuster made in Brasil”) do que pelo filme em si. Isso parece bem injusto para com um filme que, sejamos justos, é leve, agradável, delicioso.

O enredo apresenta um herói tipicamente brasileiro (Selton Mello, excelente), um artista mambembe malandro, trapaceiro e mulherengo, que cai de amores por Lisbela (Débora Fallabela, correta), ao mesmo tempo em que é perseguido por um matador que corneou (Marco Nanini, ótimo). O filme apresenta um nordeste onírico e levemente atemporal, obviamente caricato, pobre mas limpinho e perfumado.

Uma pequena pausa aqui para comentar outro detalhe que parece incomodar os entendidos em cinema. As interpretações, meio exageradas, incomodam alguns especialistas. Os personagens de Tadeu Mello (um cabo do Exército meio covarde e ignorante) e de André Mattos (o pai de Lisbela, delegado) são construídos assim, com traços caricatos, grosseiros. O detalhe é que essa é uma característica das farsas. Não se pode exigir realismo em filmes como “Lisbela”. Se assim fosse, “O Auto da Compadecida” poderia ser criticado porque os golpes de João Grilo soavam inverossímeis, irreais. Lisbela éuma caricatura do nordeste. É assim que deve ser percebida e criticada.

Entre as muitas bolas dentro do filme, merece destaque o ótimo uso da metalinguagem (Lisbela é fanática por cinema, e freqüentemente consegue ver paralelos entre o que ocorre na própria vida e os acontecimentos que vivencia, diariamente, na telona do município de Vitória de Santo Antão, onde mora). A presença de Bruno Garcia, no papel do noivo enganado da protagonista, um matuto que passou um mês no Rio de Janeiro e voltou falando “carioquês”, é outro feliz achado. Garcia rouba quase todas as cenas e deixa pelo menos um momento antológico, quando emite um “oxenteAA!” arranca-riso-de-defunto.

Vale lembrar, ainda, a coincidência de ver “Lisbela” chegando aos cinemas praticamente ao mesmo tempo em que “Amarelo Manga”, outro longa feito no Recife (e curiosamente filmado nas mesmas locações, no pátio de Santa Cruz, um velho ponto comercial localizado perto do centro da cidade). Embora sejam obras com estéticas e objetivos completamente diversos, ambos levaram os recifenses aos cinemas em massa – ver aos filmes tornou-se uma espécie de dever cívico e motivo de orgulho local. Só por isso, “Lisbela” já mereceria uma menção honrosa.

– Lisbela e o Prisioneiro (Brasil, 2003)
Direção: Guel Arraes
Elenco: Selton Mello, Débora Fallabela, Marco Nanini, Virgínia Cavendish, Bruno Garcia
Duração: 106 minutos
Censura livre

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