Lobisomem, O

28/06/2010 | Categoria: Críticas

Nova versão do clássico de 1941 confirma as suspeitas: longo, excessivamente sério e com atores exagerados, filme desperta rapidamente o desinteresse

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Um dos sinais mais confiáveis que a comunidade cinéfila tem para aferir antecipadamente a qualidade mínima de um filme é o cumprimento correto dos prazos estabelecidos pelo cronograma de produção. Quando um longa-metragem tem data marcada para chegar aos cinemas e começa a ser sucessivamente adiado pelo estúdio, bom sinal não é. Isso aconteceu várias vezes com “O Lobisomem” (The Wolfman, EUA, 2010), cujas filmagens foram realizadas no primeiro semestre de 2008 para um lançamento mundial marcado para novembro do mesmo ano. O filme só chegou aos cinemas, no entanto, quase quinze meses depois. E o resultado final confirma as suspeitas: apenas o desenho de produção gótico e a maquiagem da fera valem o preço do ingresso. Todo o resto, do desempenho histriônico dos atores ao excesso de seriedade do enredo, depõe contra o título dirigido por Joe Johnston.

“O Lobisomem” é o resultado de um dos processos de pós-produção mais atribulados dos últimos tempos. Aliás, a refilmagem do clássico de 1941 já dava problemas ainda em 2006, quando era apenas um projeto embrionário. Somente o nome de Benicio Del Toro – um notório fanático pelo personagem lendário do homem-lobo – esteve ligado ao projeto desde o início. O filme mudou de diretor (saiu Mark Romanek, entrou Joe Johnston), de roteirista (a versão inicial de Andrew Kevin Walker deu lugar a um novo script de David Self) e de quase tudo o mais.

As mudanças não pararam na pré-produção. A trilha sonora de Danny Elfman, inicialmente recusada pelo diretor, foi reaproveitada às pressas, depois que o compositor Paul Hasling entregou (em dezembro de 2009, pouco mais de um mês antes da estréia) um resultado considerado ainda pior – ele teria apostado em música eletrônica, ao invés dos arranjos góticos encomendados pelo diretor. Os atores tiveram que regravar parte das cenas, em 2009, e até mesmo uma dupla de editores experientes – Mark Goldblatt e o craque Walter Murch – foi chamada de última hora para remontar o filme. Seria difícil imaginar uma obra mexida e remexida por tanta gente sair realmente boa, e é o caso aqui.

Embora pague tributo evidente à versão de 1941, inclusive usando o mesmo nome do protagonista, o longa-metragem empresta elementos de outros filmes de horror (especialmente “O Lobisomem de Londres”, de 1935, do qual vêem a explicação para a origem do ser sobrenatural e uma longa seqüência no segundo ato que põe a fera para passear pelos cartões postais da capital inglesa), além de reaproveitar todos os elementos da lenda sobre os homens-lobo, como balas de prata e pentagramas, criados pelo roteirista alemão Curt Siodmak para o título de 1941.

O personagem principal é Lawrence Talbot (Del Toro), aristocrata britânico que vaga pelo mundo sem destino desde a morte da mãe, em violentas circunstâncias não explicadas. O desaparecimento do irmão o faz retornar ao lar, para um reencontro não desejado com o enigmático pai (Anthony Hopkins) e com a ex-noiva do irmão (Emily Blunt). Depois que Lawrence é ferido por um lobo, a ferida se cura sozinha, milagrosamente, e ele começa a se sentir mais forte. Em paralelo, um inspetor vindo de Londres (Hugo Weaving) começa a investigar o caso, que termina como uma tragédia shakespeareana (incluindo muitas menções a personagens do próprio teatrólogo britânico). O detetive, inclusive, é uma das raras boas sacadas do roteiro, pois foi inspirado em personagem real: o inspetor Abbernaty, que investigou de verdade os crimes atribuídos a Jack o Estripador, no século XIX.

A mudança da trama para a Londres vitoriana dá oportunidade à equipe de direção de arte e figurino se destacarem. Infelizmente, a opção do diretor Joe Johnston por ambientar quase todas as cenas à noite impede que o trabalho de Milena Canonero nas roupas e de Rick Heinrichs no desenho de produção seja desfrutado inteiramente. O uso de efeitos digitais também é abusivo, especialmente nas já citadas cenas do lobisomem em Londres, o que complica uma parte do bom trabalho do maquiador Rick Baker com a criatura, cujas transformações também são recheadas de interferências do CGI.

Aliás, a opção por dotar o visual do lobisomem de uma aparência mais humana e menos animal, contrariando a tendência dos últimos exemplares do subgênero, é duplamente eficaz. A fera anda em duas patas e com roupas humanas, homenageando a obra de 1941 e ao mesmo tempo emprestando ao filme certo tom cartunesco que poderia ser ainda melhor, caso Johnston houvesse incluído um pouco de humor no resultado final. Outro ponto forte está nas cenas de ataque do homem-lobo, repleta de sangue e membros amputados, o que faz de “O Lobisomem” um filme pouco recomendado a crianças.

Por outro lado, mesmo contando com dois vencedores do Oscar (Del Toro e Hopkins) no elenco, Joe Johnston deixa muito a desejar na direção de atores, de forma que as performances atingem variados graus de canastrice, que vão do desinteresse evidente de Anthony Hopkins ao histrionismo de Hugo Weaving, resgatando parte dos cacoetes que pareciam tão adequados ao Sr. Smith da triloga “Matrix” e, aqui, soam apenas exagerados e dignos de gargalhadas. Enfim, era previsível: sempre que algum cineasta de talento apenas mediano se dedica a injetar pompa, seriedade e tragédia a um gênero que visa prioritariamente a diversão (caso do horror), o resultado é a irregularidade e a monotonia. “O Lobisomem” apenas confirma essa regra.

O DVD lançado pela Universal, simples, tem apenas galeria de cenas cortadas (11 minutos) como extra solitário. O filme aparece com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– O Lobisomem (The Wolfman, EUA, 2010)
Direção: Joe Johnston
Elenco: Benicio Del Toro, Anthony Hopkins, Emily Blunt, Hugo Weaving
Duração: 125 minutos

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