Lobisomem Americano em Londres, Um

27/02/2006 | Categoria: Críticas

Terror oitentista com toques de romance e muito humor permanece divertido e tem maquiagem ainda impressionante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O conceito de maquiagem cinematográfica, para o espectador comum, não ia muito além da mistura batom-blush-rímel, até 1982. Efeitos simulados de ferimentos eram a glória desses profissionais, até então quase anônimos. Naquele ano, porém, a Academia de Hollywood decidiu inaugurar uma categoria do Oscar destinada a premiar o trabalho dos maquiadores. E um pequeno filme de terror bem-humorado mudou para sempre essa situação. “Um Lobisomem Americano em Londres” (An American Werewolf In London, EUA, 1981) faturou a primeira estatueta da categoria e descortinou, aos olhos do público, a arte da maquiagem de cinema.

A transformação de homem em lobo, mostrada pela primeira vez diante das câmeras, era o maior trunfo do filme. Tão grande que esse detalhe acabou ancorando todo o marketing do trabalho e dando uma tremenda fama ao mago Rick Baker, maior nome da área e atual ganhador de seis Oscar. Isso prejudicou a carreira do subestimado diretor John Landis, responsável pela comédia “Os Irmãos Cara-de-pau” e pela revolucionária comédia “Kentucky Fried Movie”, uma espécie de antepassado das sátiras implacáveis no estilo dos irmãos Farrelly. Landis está sem trabalho há um tempão, o que é uma pena: “Um Lobisomem Americano em Londres”, revisto hoje, mantém-se atual e mostra-se precursor da onda de filmes de terror com boas doses de comédia que assola o mercado norte-americano.

A trama toma como ponto de partida uma viagem de dois estudantes norte-americanos pelo interior da Inglaterra. Numa noite de lua cheia, a dupla vai parar num vilarejo estranho, tem uma conversa surreal com freqüentadores do pub rural Cordeiro Estraçalhado e se perde num pântano, sendo atacada na seqüência por uma criatura monstruosa. Jack (Griffin Dunne) morre, enquanto David Kessler (David Naughton) fica ferido e é levado a Londres. Ao recuperar-se, David passa a receber visitar do amigo morto; Jack o avisa que ele agora é vítima de uma maldição, e irá se transformar em lobisomem sempre que for lua cheia.

Escrito em 1969, quando Landis ainda era dublê, o roteiro demorou onze anos para ser filmado porque o diretor não conseguia financiamento dos estúdios. Em 1980, depois do sucesso de “Os Irmãos Cara-de-pau”, ele ganhou carta branca (leia-se US$ 10 milhões) para fazer o filme, um projeto que ele carregava com carinho. A primeira providência foi chamar o amigo Baker, maquiador que começava a se destacar na profissão. Como o trabalho incluia muito mais do que inventar um lobisomem, Baker teve que reunir seis fãs e formar uma equipe pioneira de maquiadores.

Toda essa trajetória está descrita em detalhes nos extras generosos que compõem o disco. Entre eles, há um documentário/entrevista com Landis (18 minutos), que aparece sorridente, cheio de energia; outro com Rick Baker (11 minutos), que fala sobre as técnicas usadas para criar o lobisomem e suas vítimas; o processo de construção dos moldes em gesso (10 minutos); um making of original de 1981 (5 minutos); cenas cortadas, comparações com o storyboard, erros de gravação (sem som) e até um comentário em áudio da dupla de atores principal, Griffin Dunne e David Naughton. Tudo cheio de bom humor e repleto de causos de bastidores que fazem a delícia dos fãs do gênero.

Se os extras agradam, o filme vai além. “Um Lobisomem Americano em Londres” cria terror sem ser rabugento nem fake, algo raríssimo na biografia do gênero. Não tem atuações especialmente inspiradas, mas compensa a falha com alguns achados. Um deles é a boa trilha sonora, cheia de canções legais que falam da lua (“Bad Moon Rising”, da banda Creedence Clearwater Revival; “Blue Moon”, do soulman Sam Cooke; e “Moondance”, do irlandês Van Morrison). Há também um trabalho de montagem cuidadoso, que reveste a trama de suspense ao valorizar as raras aparições do lobisomem, além de emprestar credibilidade aos efeitos especiais.

Sim, os efeitos ainda funcionam. A já lendária transformação do lobisomem continua impressionante. A seqüência, toda explicada nos extras do DVD, comprova como a criatividade na combinação de cortes e efeitos especiais tradicionais, sem uso de computador, garante resultados sublimes. O filme prescinde da parafernália digital que deixa cenas de produções atuais com ar falso e, apostando apenas no suor e no talento da equipe técnica, garante qualidade ao trabalho. A direção acerta e cria suspense ao aguçar a criatividade do espectador e retardar a entrada em cena do lobisomem até perto do final.

Tudo bem, a trama parece um tanto simplória, mas Landis compensa isso pondo boas doses de romance, alguma sensualidade, delírios oníricos engraçados do protagonista e pitadas de investigações policiais para enriquecer a mistura de gêneros. A cenografia exagera nos cenários, sempre limpinhos e hipercoloridos, mas aquela era a década de 1980, ora bolas! Com diálogos bacanas, transposição de som e imagem de ótima qualidade, o DVD de “Um Lobisomem Americano em Londres” recupera um antigo cult adolescente que parecia fadado ao esquecimento absoluto.

– Um Lobisomem Americano em Londres (An American Werewolf In London, EUA, 1981)
Direção: John Landis
Elenco: David Naughton, Griffin Dunne, Jenny Agutter, John Woodvine
Duração: 97 minutos

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