Lobisomem, O

22/09/2005 | Categoria: Críticas

Filme de 1941 é responsável por toda a mitologia – a prata, os pentagramas – do estilo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

De que maneira um filme de horror clássico sobre homens-lobo pode ser relacionado às denúncias sobre atrocidades cometidas pelos nazistas durante a II Guerra Mundial? Aparentemente, não há relação possível entre as duas coisas. Só aparentemente, pois “O Lobisomem” (The Wolf Man, EUA, 1941) foi planejado como uma metáfora para o caos e o horror que o exército de Adolf Hitler impingia à Europa nos anos em que o longa-metragem foi produzido. A revelação é do roteirista Curt Siodmak, o homem que criou toda a mitologia sobre lobisomens que o cinema popularizou, a ponto de pessoas acreditarem, em pleno século XXI, que as fábulas a respeito do tema têm algo de verdadeiro.

Pois não têm. Curt foi contratado para escrever “O Lobisomem” como mais um filme de monstros para a Universal. O estúdio, especializado no gênero e produtor de “Drácula” e “Frankenstein”, queria acrescentar uma nova criatura aterrorizante à sua galeria. Siodmak, alemão de origem judia que havia fugido de Hitler antes do começo da guerra, viu no roteiro a oportunidade de denunciar a perseguição aos judeus, mas de modo bem sutil. Por isso, criou o personagem de Larry Talbot (Lon Chaney Jr), um astrólogo de família rica que tem sua vida transformada em verdadeira maldição depois de ser mordido por um homem-lobo. “O Lobisomem” tem ares de tragédia grega e é certamente o mais triste dos filmes de monstros lançados pela Universal.

De fato, “O Lobisomem” seria decisivo na forma como, décadas depois, os filmes de horror passaram a assumir essa faceta trágica, fato exemplificado especialmente na versão de “Drácula” dirigida por Francis Ford Coppola. No filme de Coppola, o vampiro é um ser torturado, que vê a imortalidade não como uma dádiva, mas como uma maldição que o impede de viver junto à mulher amada. O Larry Talbot de Lon Chaney Jr, filho e homônimo de um dos maiores mitos do cinema de horror, já era assim: um homem solitário, sem lugar no mundo. Apesar de o estúdio ter modificado o roteiro original, realçando-lhe o elemento sobrenatural, o ar de tragédia ainda encontrou espaço dentro da trama.

Uma das mais importantes mudanças forçadas pela Universal está nas cenas de transformação do homem em lobo. O texto de Curt Siodmak evitava essas cenas, pois pretendia não deixar claro se Larry Talbot realmente se transformava em lobisomem ou se estava sofrendo de delírios causados pela solidão. As três cenas de transformação, realizadas com uma combinação de truques de maquiagem com trucagem/edição de imagens, retiraram o caráter ambíguo do filme. Em compensação, geraram um estilo de longa-metragem de horror – o filme que mostra mais do que sugere – muito popular entre adolescentes.

Não é preciso lembrar, também, que toda a simbologia que as platéias modernas associam a lobisomens – ciganos, videntes, bengalas em forma de lobo, pentagramas, a prata como elemento de defesa contra as criaturas – nasceu com o filme do diretor George Waggner. É nesses símbolos, aliás, que está a ponta mais evidente da engenhosa metáfora do roteirista para retratar o nazismo em Hollywood. O modo como ele mostra os ciganos, por exemplo, é fruto direto da perseguição que Hitler empreendeu a essa raça: eles são tratados como um povo marginal, vítima de preconceito geral, e acabam obrigados a viver em bosques frios e úmidos.

Além disso, o pentagrama, um dos símbolos mais fortes dentro da mitologia do homem-lobo, é diretamente inspirado na Estrela de Davi, que os nazistas obrigavam os judeus a usar nos territórios ocupados. A estrela de cinco pontas identificava, aos olhos da sociedade nazista na Alemanha de Hitler, a raça maldita a que pertenciam aqueles que usavam o símbolo. Dessa forma, Curt Siodmak traçava um paralelo entre o lobisomem, condenado à marginalidade por apresentar a marca nas mãos, e o judeu.

“O Lobisomem” também reflete a época em que foi filmado. Possui muito mais humor do que os filmes de monstros da década de 1930 – sai o tom solene de “A Múmia”, entra um senso de humor mórbido – e também uma grande quantidade de referências sexuais. Por outro lado, se a produção do filme se apoiou em idéias avançadas, a direção de George Waggner é burocrática e sem destaques. O tom geral do longa-metragem ainda está bem longe do realismo que marcaria produções futuras do gênero, tendo como cenário um bosque evidentemente reconstruído em estúdio (a platéia nunca vê o chão, sempre coberto por espessa névoa) e uma participação caricata e exagerada de Bela Lugosi como o cigano que originalmente detém a maldição do homem-lobo.

O lançamento do filme no Brasil ocorreu dentro da Monsters Collection, da Universal, em uma edição bem caprichada. O filme tem imagens (standard 4×3, que é o enquadramento original) e som (Dolby Digital 2.0) restaurados, um comentário em áudio do historiador Tom Weaver (legendado em português), um documentário narrado pelo cineasta John Landis (33 minutos, com legendas) e galeria de fotos. O material é de primeira e vale a pena.

– O Lobisomem (The Wolf Man, EUA, 1941)
Direção: George Waggner
Elenco: Lon Chaney Jr, Claude Rains, Evelyn Ankers, Ralph Bellamy
Duração: 70 minutos

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