Loja Mágica de Brinquedos, A

16/02/2009 | Categoria: Críticas

Filme infantil do roteirista e diretor Zach Helm aborda o tema difícil da morte com otimismo e delicadeza, mesmo sem encantar

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Um filme infantil cujo tema principal é a morte? Sem dúvida, uma ousadia para um diretor estreante. Filmes como “A Loja Mágica de Brinquedos” (Mr. Magorium’s Wonder Emporium, EUA, 2007) podem, se feitos de forma descuidada, enterrar carreiras e enviar grandes estrelas para o limbo de Hollywood. Mas o novato Zach Helm, premiado roteirista da comédia metalingüística “Mais Estranho que a Ficção” (2006), cercou-se de bom senso e fez um filme infantil lúdico e analógico, à moda antiga. Não há nele nenhuma grande novidade na narrativa ou na estética, mas o tema difícil foi abordado com otimismo e delicadeza, rendendo uma aventura que tem seus méritos, mesmo sem encantar.

Curiosamente, “A Loja Mágica de Brinquedos” foi o projeto autoral que Helm escolheu para se jogar na indústria cinematográfica. Muitas negativas e alguns anos depois (época em que o então roteirista sobreviveu corrigindo roteiros defeituosos para projetos comerciais), o segundo texto original dele ganhou sinal verde. O já citado filme de 2006, dirigido por Marc Foster, colecionou prêmios e comparações com o paparicado Charlie Kaufman (“Adaptação” e “Quero Ser John Malkovich”). Para Zach Helm, a melhor parte do sucesso foi trazer junto a possibilidade de finalmente transformar a história do Sr. Magorium em longa-metragem. Ele mesmo se incumbiu da direção.

Magorium é um homem de 243 anos que usa roupas hiper-coloridas, tem cabelos tão desgrenhados quanto os de Albert Einstein e é proprietário da loja citada no título. O lugar, um velho casarão espremido entre dois arranha-céus, não lembra em nada uma dessas assépticas lojas de brinquedo do século XXI, com vitrines cheios de jogos eletrônicos e bonecos de personagens de filmes. Como o nome original deixa claro, trata-se de um empório – uma espécie de velho armazém de bugigangas coloridas, quase como um brechó (se você pensou em “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, tanto o original quando a refilmagem de Tim Burton, acertou). Lá, os brinquedos têm vida. Bolas perseguem ou são perseguidas pelas crianças, ursos de pelúcia pedem carinho e antigos bonecos Playmobil erguem suas próprias construções.

A natureza mágica do lugar nunca é explicada, e não precisa. O espectador incrédulo (ou seja, os adultos) é representado no filme pelo contador Henry (Jason Bateman), contratado para pôr a documentação da loja em ordem. Como não acredita em mágica, ele não consegue ver nada de extraordinário acontecendo no lugar. Já os pirralhos podem se identificar com Molly (Natalie Portman), sonhadora e adorável garota de 23 anos que gerencia o estabelecimento. É para ela que Magorium decide deixar a loja quando pressente a chegada da morte. O problema é que Molly acha que perdeu o dom da criação. E sem criação, a loja está destinada a ser um lugar cinzento, sem vida.

Embora dê uma abordagem otimista e original ao tema complicado da morte, “A Loja Mágica de Brinquedos” nunca decola. O roteiro de Helm, cheio de clichês, arranja com “problema” para cada um dos personagens superar, mas não tem a engenhosidade de amarrar todos os dramas pessoais em uma única história coesa, de forma que quatro linhas narrativas independentes se desenvolvem, deixando a platéia infantil impaciente e os adultos irritados. A excessiva semelhança com “A Fantástica Fábrica de Chocolate” também não ajuda (ao contrário das inúmeras e bem colocados citações a “Ensina-me a Viver”, belo filme de Hal Ashby que também lida com a morte).

A grande sacada do longa-metragem é, sem dúvida, a ambientação hiper-colorida e extensivamente lúdica da loja. Se a direção de Zach Helm é hesitante, o mesmo não se pode dizer da concepção daquela locação. O empório de brinquedos é focalizado como um organismo vivo, cujas paredes criam bolhas e perdem a cor quando está triste. O filme se sai bem na tarefa de dotar a casa de sentimentos (nisso, lembra bastante o superior “A Casa Monstro”). A direção de arte da película consegue bons resultados quando explora o jogo entre o colorido e o preto-e-branco, no fraco terceiro ato. No fim das contas, “A Loja Mágica de Brinquedos” vale a pena como espetáculo para os olhos, e pode ser uma boa oportunidade para começar a explicar o conceito de morte a crianças pequenas.

O DVD da Imagem Filmes  traz o filme com razão de aspecto original (widescreen anamórfica) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Não há extras.

– A Loja Mágica de Brinquedos (Mr. Magorium’s Wonder Emporium, EUA, 2007)
Direção: Zach Helm
Elenco: Natalie Portman, Dustin Hoffman, Zach Mills, Jason Bateman
Duração: 94 minutos

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