Lolita

21/12/2006 | Categoria: Críticas

Primeiro grande filme de Stanley Kubrick dá tratamento de gênio a tema espinhoso e polêmico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

A maior parte dos cinéfilos tende a considerar como verdadeiro marco inicial da carreira de Stanley Kubrick este “Lolita” (EUA, 1962). Olhando em retrospectiva os quatro longas-metragens anteriores do cineasta, dá para perceber facilmente o motivo. Depois de exercícios de cinema noir com narrativa labiríntica (“O Grande Golpe”, de 1956) e superproduções mutiladas por estúdios (“Spartacus”, de 1960), o diretor finalmente havia conseguido um contrato decente para filmar com alguma liberdade aquilo que lhe dava na telha. E o primeiro projeto pessoal que fez com verba ilimitada foi exatamente “Lolita”, um minucioso estudo da perversão que deixou os executivos da Warner de cabelo em pé, por causa do tratamento ousado que o diretor desejava dar a um tema espinhoso como a pedofilia.

O filme de Kubrick se tornou a primeira versão cinematográfica do célebre romance de Vladimir Nabokov, publicado em 1955. O livro escandalizou a sociedade da época por narrar a paixão avassaladora de um cinqüentão viúvo por uma insinuante ninfeta de 12 anos. Não é preciso ser gênio para imaginar a quantidade de problemas que o cineasta teve que enfrentar para levar às telas, com o status de superprodução, um caso de amor pedófilo. As dificuldades foram tantas que Kubrick, irritado, terminou a edição final renegando-o, sob a alegação de que não havia conseguido fazer o filme que desejava. O fato é que só mesmo o altíssimo padrão de qualidade que o cineasta se auto-impunha deve tê-lo impedido de ficar satisfeito, pois “Lolita” é, sim, uma obra-prima, o primeiro grande exemplar de cinema assinado por um dos maiores e mais iconoclastas diretores.

A produção do longa-metragem, sem dúvida, foi um tormento. Nada menos do que seis atores do primeiro time recusaram a oferta do papel principal, o professor de Literatura Humbert Humbert; temiam jamais receberem boas ofertas de trabalho após interpretarem um pedófilo. Ainda na fase do roteiro (que o diretor reescreveu, pois não gostou do trabalho feito por Nabokov), Kubrick foi obrigado a aumentar a idade de Lolita para 14 anos, depois de saber que os censores decidiram só liberar as filmagens se a atriz-mirim tivesse seios desenvolvidos. Toda e qualquer cena de sexo teria que ser meramente insinuada; homem e criança deitados na mesma cama era uma imagem terminantemente proibida. A própria escalação de Lolita foi complicada, e nada menos que 800 garotas testaram para o papel.

Todas as dificuldades foram superadas com brilhantismo por Kubrick. O elenco final resultou simplesmente inesquecível. James Mason está brilhante como o austero e reservado professor que enlouquece de paixão por Lolita, enquanto a estreante Sue Lyon mescla sexualidade atrevida e ar ingênuo com perfeição. Kubrick teve a sacada genial de escalar Shelley Winters para o papel da mãe de Lolita (a personagem tem uma trajetória semelhante à solitária viúva Willa Harper, que a atriz imortalizara com uma interpretação tocante no gótico “Mensageiro do Diabo”, de 1955). A cereja do bolo é o camaleônico Peter Sellers, excêntrico e perversamente engraçado como Clare Quilty, o nêmesis ambulante de Humbert.

“Lolita” possui algumas das cenas com o mais alto grau de erotismo elegante que o cinema ousou cometer. O diretor quebrou a cabeça para responder a uma pergunta crucial: como sugerir sem deixar margem a dúvida, mas nunca mostrando nada, que havia atividade sexual entre Lolita e o professor Humbert? A resposta a esta questão veio na forma da maravilhosa seqüência em que o cinqüentão pinta as unhas do pé de Lolita, em uma cena carregada de tensão sexual que até hoje povoa os sonhos eróticos de muito marmanjo. Aliás, o trabalho de câmera, concebido por Oswald Morris, é tão discreto quanto espetacular, assumindo uma sutil postura voyeur que corresponde ao olhar do professor de Literatura. O lance de gênio é focalizar inúmeros “lances” da menina atrevida – um pedaço da calcinha, um decote ousado – sempre nas margens do enquadramento, como se a câmera fosse uma pessoa olhando para a garota com o rabo do olho. Uma estratégia original que eleva “Lolita”, o filme, ao posto de uma das obras mais eróticas do cinema.

A produção é, ainda, terreno fértil para Kubrick desenvolver uma característica particular em que se tornaria craque: a capacidade quase mediúnica de criar uma atmosfera adequada para cada história que desejava contar. Em “Lolita”, tudo conspira a favor da narrativa: o humor é elegante e nada óbvio (o nome do professor que repete o sobrenome, idiossincrasia dos ricos mais excêntricos), os diálogos são oblíquos e safados sem jamais parecerem vulgar. Para aproveitar e compreender cada segundo desta maravilha cinematográfica, contudo, é fundamental que o espectador saiba colocar a obra no devido contexto – dizer que “Lolita” parece bem comportado nos dias de hoje é se recusar a levar em consideração a época em que foi produzida.

O DVD simples da Warner não tem extras, mas a qualidade do filme é muito boa: imagem na proporção correta (widescreen 1.66:1 letterboxed) e som ótimo (Dolby Digital 2.0).

– Lolita (EUA, 1962)
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: James Mason, Sue Lyon, Shelley Winters, Peter Sellers
Duração: 152 minutos

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