Longa Caminhada, A

07/03/2007 | Categoria: Críticas

Estilo elíptico e fragmentado de Nicolas Roeg tem apoteose neste longa ambientado no deserto australiano

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

A cena mais representativa do longa-metragem independente “A Longa Caminhada” (Walkabout, Inglaterra, 1971) é um excelente exemplo da técnica inovadora de montagem por associação, desenvolvida pelo diretor Nicolas Roeg. Ela mostra um aborígine, personagem fundamental na trama, matando e esquartejando um canguru. Enquanto o habitante do deserto australiano corta a carne em pedaços, Roeg insere imagens de um açougueiro tratando carne em uma cozinha moderna, grande e equipada. Como várias outras existentes no longa, é uma seqüência sangrenta e violenta, capaz de afastar espectadores mais sensíveis. Também é uma amostra pequena, mas valiosa, do cinema inventivo, original e instigante do cineasta inglês.

Esta cena é importante porque exemplifica o estilo elíptico e fragmentado que Nicolas Roeg usa para contar a história. Além disso, também encapsula perfeitamente o tema principal do filme: o uso dos instintos como única forma possível de comunicação entre pessoas que integram culturas radicalmente distintas. Ao alternar imagens de moradores do deserto e da cidade grande realizando a mesma ação (o que difere é apenas o grau de tecnologia utilizado por cada cultura para fazê-lo), Roeg afirma que certos aspectos da condição humana são universais, e independem tanto da linguagem quanto da técnica. No decorrer do filme, contudo, o diretor se mostrará pessimista quanto às possibilidades de comunicação entre membros de culturas distintas.

Sob este aspecto, “A Longa Caminhada” observa a linguagem como fator limitador da condição humana. O filme acompanha dois irmãos da cidade grande, uma adolescente (Jenny Agutter) e uma criança (Luc Roeg, filho do diretor), perdidas no escaldante deserto australiano. Os dois são abandonados lá pelo pai, em um tresloucado ato suicida no começo do filme – o homem põe os meninos no carro, dirige até o meio do deserto e, durante um piquenique aparentemente inocente, começa a disparar tiros nos dois, suicidando-se e tocando fogo no veículo logo depois. Os garotos escapam apenas com a roupa do corpo. Estão longe da civilização, e não sabem quanto tempo conseguirão sobreviver naquele terreno esturricado e salpicado de rochas, que se estende além da linha do horizonte.

Eles serão salvos por um adolescente aborígine (David Gulpilil). O rapaz de pele escura está na transição para a idade adulta e, seguindo um costume aborígine, tem que vagar sozinho pelo deserto por seis meses, para provar que pode sobreviver sem depender de ninguém (o ritual explica o título do filme). O aborígine não entende inglês, e os dois irmãos não falam a língua dele, mas o instinto de sobrevivência os obriga a encontrar uma maneira de se comunicar. A câmera de Roeg acompanha a jornada do trio sem qualquer traço de complacência, sentimentalismo ou pieguice. A viagem é marcada por imagens duras de uma natureza bela, mas indiferente e implacável, emolduradas por uma sensualidade latente que permeia a relação sem palavras entre o aborígine e a garota branca.

“A Longa Caminhada” foi o primeiro longa-metragem de Nicolas Roeg, então já um veterano diretor de segunda unidade e fotógrafo. Produção independente filmada quase sem orçamento e mal distribuída nos anos 1970, o filme permaneceu cult durante muitos anos, mas angariou um séqüito fiel de fãs. A história já traz as marcas que funcionariam como assinatura da obra de Roeg: experiências ousadas na montagem, não apenas eliminando trechos da continuidade da ação no tempo e no espaço (como fazia Godard), mas criando metáforas visuais ao associar duas ações distintas, muitas vezes se passando em épocas e locais diferentes. A cena citada no primeiro parágrafo é um bom exemplo. Outro aparece numa seqüência particularmente criativa, quando o menino branco (nenhum personagem tem nome) conta uma história da carochinha ao aborígine, e Roeg usa um efeito de folhear – como uma página de livro sendo virada – como elemento de ligação entre cada tomada dos dois caminhando sob o sol.

Lindamente fotografado, o filme é repleto de imagens de animais do deserto – cangurus, pássaros, cobras, escorpiões, lagartos – mas não olha a natureza com afeto. “A Longa Caminhada” não é Animal Planet, Discovery Channel ou “A Lagoa Azul”. Não existe qualquer traço de sentimentalismo ou melodrama. Muitas das imagens da natureza mostram animais sendo mortos ou engolidos por outros. As cenas apenas reforçam a mensagem de que, quando despido da cultura e reduzido a lutar pela sobrevivência, que é exatamente a situação dos dois irmãos, o homem perde toda e qualquer vantagem que possui sobre os outros animais, pois sobra apenas aquilo que o liga aos outros bichos: o instinto de sobrevivência.

A reflexão de Roeg sobre a dualidade cultura/instinto não tenta defender uma tese. O diretor conduz a trama elíptica rumo a um choque de culturas que se traduz, na prática, em permanente tensão sexual entre aborígine e garota. Observe que esta tensão é amplificada pelos códigos de comportamento inscritos na cultura de cada povo. Como o rapaz não se enquadra nos padrões de beleza masculinos dos brancos, a mulher não se interessa. Na verdade, nem o vê como homem, pois fica nua na frente dele sem qualquer constrangimento. Sem reconhecer a humanidade nele, ela não se esforça para superar o empecilho da linguagem e compreendê-lo.

O irmão menor, contudo, ainda não foi condicionado pela cultura. Ele é curioso, e contorna o problema da linguagem sem grande esforço. O filme sugere que as crianças, por não terem conseguido desenvolver plenamente os laços com a cultura dominante, conseguem se adequar mais rapidamente ao ambiente. O menino ainda não está inteiramente subordinado à linguagem. Consegue se comunicar sem palavras. Mais: ele tem verdadeira curiosidade sobre o outro, algo que a menina já perdeu. São reflexões livres que Roeg se permite fazer, sem se importar que com isso a narrativa se torne quase muda, e ainda mais elíptica.

“A Longa Caminhada” não chega a nenhuma conclusão sobre nenhum desses tópicos. A intenção de Roeg não é erguer uma tese sobre eles, mas apenas levantar um tema e tecer alguns comentários sobre eles, abrindo-os à discussão. Não é uma atitude típica de filmes comerciais, e talvez provoque rejeição na parte da platéia mais condicionada culturalmente às regras deste tipo de trabalho (curioso, aqui, o diálogo que a história narrada na tela estabelece com a relação entre filme e espectador), mas é precisamente esta característica que faz de “A Longa Caminhada”, afinal de contas, um filme tão original e tão perturbador.

O filme ganhou uma restauração em DVD da Criterion Collection. A qualidade de imagem (widescreen 1.77:1 anamórfica) e do áudio (Dolby Digital 1.0) é excelente. O extra mais valioso é o comentário em áudio com Roeg e Agutter, mas há um atrativo ainda maior, pois o DVD apresenta, pela primeira vez, o corte original pretendido pelo diretor, com cinco minutos extras. Ao filme originalmente lançado nos cinemas foi agregada uma longa cena mostrando Jenny Agutter nadando nua em uma lagoa. A cena foi retirada do filme, em 1971, por mostrar nudez frontal de uma adolescente, já que Agutter tinha só 16 anos na época das filmagens.

– A Longa Caminhada (Walkabout, Inglaterra/Austrália/EUA, 1971)
Direção: Nicolas Roeg
Elenco: Jenny Agutter, Luc Roeg, David Gulpilil, John Meillon
Duração: 100 minutos

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