Lost – 1ª Temporada

06/03/2006 | Categoria: Críticas

Técnicas de cinema e personagens bem desenvolvidos fazem da série de TV um programa que equilibra drama e suspense em doses exatas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Antes mesmo de estrear no televisão norte-americana ABC, em setembro de 2004, a série “Lost” já se transformara em objeto de intenso hype na Internet. O boca-a-boca dos fãs garantia que os milhões de fãs de “Arquivo X” finalmente veriam um programa com potencial de culto semelhante. Os primeiros episódios da telessérie deixaram evidente, contudo, que “Lost” superava as melhores expectativas. Ambicioso e produzido com capricho, o programa televisivo queria ir mais longe do que qualquer outro concorrente. O desenvolvimento da primeira temporada conseguiu manter o nível e, ao equilibrar drama e suspense com toques sobrenaturais e teorias conspiratórias, “Lost” se transformou num fenômeno de audiência e, simultaneamente, em sucesso avassalador de crítica.

Todo esse sucesso é merecido. Tanto em termos técnicos quanto narrativos, a qualidade geral de “Lost” é bem superior à maioria dos filmes lançados, todos os anos, pela fábrica de blockbusters de Hollywood. Para começar, o programa tem um diferencial que nenhuma outra série de TV possui: é totalmente filmado em locação, na Ilha de Oahu, no Havaí. Nenhuma tomada sequer, é captada em estúdio ou cidade cenográfica. Essa opção garante cenários realistas e permite que a equipe técnica capriche, por exemplo, na fotografia, fugindo da burocracia de close ups e iluminação computadorizada que impera nos programas de TV. “Lost” usa com generosidade as tomadas panorâmicas, filmando os atores a média e longa distância. Essa técnica é praticamente inexistente na TV.

“Lost” também inclui um bom número de cenas noturnas, filmadas com iluminação natural, proveniente do fogo. Isso agrega ao programa um tom realista muito raro de se ver em televisão. Não existe registro de série de TV que pratique esse tipo de linguagem técnica arrojada, que é muito mais comum no cinema. Na televisão, o normal é que se filme em estúdio, com iluminação artificial forte e muitos closes de rostos. Essa estratégia é utilizada porque a tela de exibição das imagens, no caso da TV, é muito pequena, e fica mais fácil transmitir as emoções dos personagens aos espectadores quando se focaliza o rosto com freqüência, se possível mostrando as feições do modo mais claro possível. Levando isso em conta, dá para dizer que “Lost” possui uma qualidade técnica compatível com os melhores filmes.

Em termos narrativos, as ousadias da série também não ficam atrás. Para começar, o público televisivo costuma ser bem mais conservador do que os espectadores de cinema. Por isso, os telefilmes contam histórias de modo bem didático, o mais linear possível, bem mastigadinhas. “Lost” quebra essa regra ao fragmentar a narrativa em vários tempos cronológicos e incluir um grande número de personagens, todos bem delineados e com um passado sólido. Via de regra, cada episódio da série (a duração média é de 43 minutos) conta duas histórias diferentes, uma situada no presente – em geral, uma aventura dentro da ilha – e outra evocando o passado de algum personagem, através de flashbacks.

Muitas vezes, não existe uma ligação evidente entre as duas narrativas. É freqüente que as duas enfoquem o mesmo personagem, mas nem sempre; outras vezes, é possível realizar uma associação sutil, quase abstrata, transmitida por experiências (dos personagens de cada história) que evocam sentimentos ou sensações semelhantes. Além disso, erra quem acredita que o núcleo de “Lost” esteja nas teorias conspiratórias que compunham o cerne de “Arquivo X”. A série criada por J.J. Abrams flerta, mas não mergulha nelas, preferindo apostar na construção de personagens mais densos e complexos, e em tramas cheias de tensão e drama. A telessérie de maior sucesso de 2005 funciona, desse modo, como uma fusão da lendária série “Além da Imaginação” com o desenho animado “Caverna do Dragão” mais filmes do naipe de “Náufrago” e “A Ilha do Dr. Moreau”, além de cruzar histórias paralelas ao modo de Robert Altman.

A premissa básica da série todo mundo conhece: um desastre de avião, com um vôo que ia de Sidney (Austrália) a Los Angeles (EUA), deixa 48 sobreviventes perdidos em uma ilha desconhecida, localizada no Pacífico Sul. O local, de aparência paradisíaca, logo se revela misterioso e cheio de bizarrices. Os personagens constatam, por exemplo, a presença de ursos polares em um ambiente tropical, que em tese não permitiria a sobrevivência desses animais. Além disso, um monstro que destrói árvores, mata com violência e ruge como um dinossauro habita a floresta. Também não demora muito para que os sobreviventes do desastre comecem a desconfiar que não são os únicos seres humanos a viver na ilha.

Os 24 episódios da primeira temporada não se limitam a mostrar os sobreviventes do desastre enfrentando as dificuldades impostas pelo ambiente inóspito. Na verdade, o acontecimento é apenas o pretexto para que o produtor J.J. Abrams lide com temas diversos, como o preconceito (um iraquiano está entre os sobreviventes), a solidão e a dificuldade de comunicação. Tudo isso dispensando os clichês e construindo personagens sólidos, que poderiam ser pessoas de carne e osso. Um exemplo? Entre os novos habitantes da misteriosa ilha há um casal de sul-coreanos que, fugindo totalmente dos clichês, tem mais dificuldade em se entender do que entender os outros.

A dificuldade básica dos novos habitantes da ilha é reaprender a viver em sociedade, num lugar em que eles precisam eliminar as diferenças pessoais e culturais para poder sobreviver. Outro tema recorrente, que se reflete em vários personagens, é a convivência dura entre pais e filhos. No meio de tudo isso, há toques sobrenaturais e teorias conspiratórias, que apimentam a trama básica a mantém o interesse dramático da série, evitando que ela se resuma a criar meros estudos de personagem em seqüência. Um bom exemplo é a estranha coincidência que envolve uma seqüência numérica que pode estar – ou não – ligada à queda do avião.

Um dos grandes atrativos de “Lost” é que o espectador jamais sente segurança em relação aos personagens. Sabemos que qualquer um deles pode morrer a qualquer momento – e, de fato, a morte ronda os acampamentos do grupo, durante os 24 primeiros episódios, pelo menos quatro vezes. O núcleo principal de personagens é composto por 14 pessoas, todas com histórias pessoais bem desenvolvidas, apresentadas através de flashbacks. Alguns dos mais fascinantes são Sawyer (Josh Holloway), Locke (Terry O’Quinn) e Hurley (Jorge Garcia). A narrativa sobre Michael (Harold Perrineau) também é comovente, e o episódio 20 conta com o final mais inteligente de todos, fazendo morte rimar com nascimento. Os líderes do grupo e personagens mais explorados – cada um tem três episódios exclusivos envolvendo fatos do passado – são o médico Jack (Matthew Fox) e a atlética Kate (Evangeline Lilly).

O nível geral dos episódios da primeira temporada é excelente. A abertura (episódio duplo) e o encerramento (dividido em três partes) funcionam como dois longas-metragens impecáveis. Essa último, particularmente, é puro cinema, pois envolve flashbacks de todos os 14 personagens importantes, além de quebrar o tempo presente em quatro narrativas distintas, cada um envolvendo um grupo de habitantes da ilha. Outros episódios que merecem destaque são aqueles que envolvem Sawyer e Hurley, já que ambos apresentam grandes surpresas e reviravoltas inesperadas na trama. De qualquer forma, cada um dos 24 episódios possui qualidade muito acima da média.

A caixa de DVDs lançada no Brasil pela Buena Vista é idêntica à norte-americana, e um produto de primeira qualidade. São sete discos, sendo seis deles dedicados aos episódios e um, exclusivo, para os extras. Os episódios têm formato preservado de imagem (wide 1.78:1 anamórfico) e ótimo som (Dolby Digital 5.1). O disco 7 possui nada menos do que cinco horas de material de bastidores. O prato principal é formado por dois grandes documentários. O primeiro (95 minutos) é dividido em sete partes e enfoca a pré-produção e a escolha do elenco. O segundo (58 minutos) tem dez partes e cobre o período de gravações.

Outras seções são a galeria de cenas cortadas (dezessete, todas curtas, com duração total 20 minutos) e os erros de gravação (5 minutos). Ainda há um featurette (11 minutos) que mostra a equipe de produção e parte do elenco no Museu da TV dos EUA, recebendo uma homenagem. Não dá para esquecer, ainda, que cinco dos episódios possuem comentários em áudio com membros da equipe técnica e atores. Todo esse material vem legendado em português, com exceção dos comentários. Para os fãs, é um pacote imperdível. Quem não é fã tem no luxo impecável da caixa um motivo a mais para conhecer uma das séries mais bacanas que a TV norte-americana já produziu.

– Lost – 1ª Temporada
Direção: J.J. Abrams (produção executiva)
Elenco: Matthew Fox, Evangeline Lilly, Dominic Monaghan, Terry O’Quinn, Naveen Andrews
Duração: 1068 minutos

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