Lost – 2ª Temporada

13/09/2006 | Categoria: Críticas

Conexões secretas entre personagens é um dos grandes atrativos desta série viciante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Embora não seja a mais popular série de TV dos Estados Unidos (a detetivesca “C.S.I.” e a tensa “24 Horas” detêm o privilégio), “Lost” é, com certeza, a mais debatida nos centenas de fóruns dedicados ao seriado na Internet. A segunda temporada, levada ao ar entre setembro de 2005 e maio de 2006, elevou ainda mais o burburinho em torno do programa. A receita encontrada pela equipe de produção para alavancar o sucesso foi apostar, cada vez mais, nas teorias conspiratórias que envolvem conexões secretas entre os personagens. Aliada à ótima qualidade técnica e ao excelente elenco, a estratégia se revelou certeira, e o resultado é que a segunda temporada solidificou “Lost” como um dos programas mais viciantes da TV contemporânea.

A premissa da série não é nenhuma novidade para quem já conhece a primeira temporada (e se você nunca assistiu a um episódio da série, melhor parar de ler este texto agora e acessar o link, lá embaixo, para a crítica da primeira temporada). Envolve o cotidiano dos sobreviventes de um desastre de avião que caiu em uma ilha misteriosa, em algum ponto do Pacífico Sul, durante um vôo da Austrália para os EUA. Cada episódio tem em média 42 minutos, e alterna as aventuras localizadas dentro da ilha (tempo presente) com flashbacks do passado dos personagens principais (sempre um personagem por episódio). Isso significa que você precisa assistir aos episódios na seqüência correta, ou eles não farão muito sentido. A continuidade é fundamental.

A temporada começa exatamente no mesmo ponto em que terminou a anterior. Na ilha, Jack (Matthew Fox) e Locke (Terry O’Quinn) conseguem explodir a escotilha e estão prestes a ver o que ela contém. No oceano, Walt (Malcolm David Lloyd) acaba de ser seqüestrado pelos Outros, e a situação parece muito difícil para Sawyer (Josh Holloway), Michael (Harrold Perrineau Jr) e Jin (Daniel Dae Kim), depois que a jangada onde estavam naufragou. Desta maneira, a retomada acontece com ação em alta voltagem, e o fã não leva mais do que alguns minutos para entrar de cabeça, mais uma vez, no espírito da série.

Aliás, uma análise mais fria do episódio número 1 revela uma estratégia repetida à exaustão pela equipe de roteiristas: eles solucionam enigmas que intrigaram espectadores por vários episódios, mas aproveitam deixas para introduzir uma quantidade ainda maior de novos enigmas. Seguindo esta lógica, então, na reabertura da série ganhamos a chance de conhecer o interior do bunker e vemos, finalmente, quem são os Outros. Por outro lado, a entrada na escotilha revela vários um ocupante misterioso e também um computador que conduz uma intrigante contagem regressiva para algo que ninguém sabe bem o que é. Além disso, o seqüestro de Walt, associado aos acontecimentos anteriores envolvendo os filhos de Claire (Emilie de Ravin) e Rousseau (Mira Furlan), mostra que os Outros têm uma predileção toda especial por raptar crianças. Por quê?

Após este excelente primeiro episódio, surge então uma seqüência de três que enfoca um grupo distinto de personagens – sobreviventes da parte traseira do avião, que caiu em um local diferente da ilha – e dissipa bastante a tensão estabelecida no fim da temporada 1 e no primeiro episódio da 2. A partir daí, alguns personagens de destaque no ano inaugural perdem espaço (Sayid e Kate, principalmente), e alguns novatos recebem atenção especial (Mr. Eko e Ana Lucia). Os fãs mais antigos podem ficar meio decepcionados com o aparente rumo que a série parece tomar. Mas é por pouco tempo.

No começo da temporada dois, os bastidores da série enfrentavam uma turbulência. O roteirista Damon Lindelof estava recebendo o bastão de líder da equipe, com o afastamento de J.J. Abrams (que foi fazer “Missão Impossível 3”). Lindelof manteve a qualidade técnica, mas ainda assim o miolo da segunda temporada deixa evidente uma sensação de hesitação, de insegurança. Parecia que a equipe começava a perder o rumo da história. Essa sensação dura pouco, e acaba de vez quando os roteiristas começam a explorar melhor um conceito já existente, mas até então tímido: a sincronicidade. Ou seja, embora nenhum dos 48 sobreviventes da queda do avião conhecesse os demais antes da trágica viagem, eles já haviam se cruzado em inúmeras situações, algo que os flashbacks expõem com clareza. A idéia, que já havia aparecido sem muito destaque, passou a ser explorada com grande assiduidade.

Este foi o grande segredo da verdadeira febre que passou a assolar os fãs, a partir da metade da temporada. Analisando os flashbacks, ficamos sabendo, por exemplo, que Hurley (Jorge Garcia) e Libby (Cynthia Watros) já haviam sido hospedados antes na mesma instituição, em circunstâncias misteriosas. Descobrimos que Sawyer conhecera não apenas o pai de Jack (o que já estava claro desde a primeira temporada), mas também a mãe de Kate (Evangeline Lilly). Aliás, Sawyer parece ser um ponto de convergência, pois até mesmo Ana Lucia (Michelle Rodriguez) já havia cruzado o caminho do sarcástico texano que usa nome falso. Estes são apenas três exemplos no meio de dezenas.

A expectativa gerada por esses encontros anteriores entre os sobreviventes da queda do avião aumentaram bastante o interesse dos fãs pelos flashbacks, que na temporada 1 pareciam ter apenas uma função: dar densidade e tridimensionalidade aos personagens. Foi a partir daí que a segunda temporada realmente engrenou, criando um verdadeiro fenômeno, com milhares de fãs esquadrinhando cada episódio para descobrir pistas escondidas e novas conexões (acredite, cada episódio tem um monte dessas coisas).

Dessa forma, a temporada Dois acabou desembocando em um clímax empolgante, com um episódio final duplo que faz revelações impactantes – não sem antes tomar o cuidado de abrir todo um leque de novos enigmas, como a bizarra estátua semi-destruída de um pé com apenas quatro dedos que Sayid (Naveen Andrews) vê em determinada praia da ilha, ou ainda o destino de Michael após os polêmicos acontecimentos dos episódios imediatamente anteriores. Para os brasileiros, a derradeira cena da temporada ainda guarda uma surpresa especial.

Até lá, o espectador vai descobrir que a escotilha não é o único bunker subterrâneo que existe na ilha. Vai conhecer que as instalações fazem parte de um obscuro projeto de uma mega-corporação. Vai saber o motivo pelo qual a luz da escotilha acendeu para Locke, no meio da primeira temporada, em um instante aparentemente sobrenatural. Vai descobrir o que causou a queda do avião. Vai visitar o acampamento dos Outros. Vai ver personagens importantes morrerem. E vai até ter uma explicação lógica para o sumiço de Desmond (Henry Ian Cusick), personagem apresentado no episódio inaugural da temporada, que desaparece e retorna apenas no fim.

Na verdade, ter a série disponível em DVD é uma vantagem considerável para os fãs, em relação àqueles que acompanham os programas pela TV. Porque, sou obrigado a reconhecer, “Lost” é uma série completamente viciante, e às vezes é duro ter que esperar uma ou duas semanas para que a ação mostrada em um episódio tenha continuidade. No formato digital, você compra ou aluga a caixa completa e pode, se desejar e tiver oportunidade, ver todos os episódios em seqüência, em maratonas de três ou quatro dias, podendo rever as melhores cenas, rodá-las em câmera lenta e analisá-las nos mínimos detalhes. É uma experiência maravilhosa, pois desta forma cada episódio se mantém fresco na cabeça quando se assiste aos próximos, e o espectador tem a chance de fazer conexões entre os enigmas e personagens de forma muito mais natural.

A caixa da Buena Vista é um pacote de sete DVDs, bem similar ao da primeira temporada. Os seis primeiros discos contêm os 24 episódios, com formato preservado de imagem (wide 1.78:1 anamórfico), ótimo som (Dolby Digital 5.1). Alguns episódios vêm com comentários em áudio de produtores, roteiristas e membros do elenco. O sétimo disco vem lotado de extras, incluindo um documentário gigante (58 minutos) que acompanha os bastidores de dez episódios diferentes.

O disco é dividido em três partes. Na primeira, além do maior documentário, há um featurette que mostra como é feito um episódio, do roteiro à montagem final (31 minutos). Na segunda, você confere galerias com três cenas cortadas, quatro flashbacks inéditos e um trecho com erros de gravação. O terceiro possui uma visita ao set da escotilha (20 minutos) e tem um featurette que põe roteiristas e atores discutindo com fãs as principais teorias conspiratórias envolvendo a série (18 minutos). O mais curioso featurette explora as conexões entre os personagens, permitindo aos espectadores navegar por essas ligações de forma interativa. Tudo com legendas em português.

– Lost – 2ª Temporada
Direção: Damon Lindelof (roteiro e produção executiva)
Elenco: Matthew Fox, Evangeline Lilly, Dominic Monaghan, Terry O’Quinn, Naveen Andrews
Duração: 890 minutos

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