Lost – 3ª Temporada

26/09/2007 | Categoria: Críticas

Apesar do excelente final e de episódios muito bons, o conjunto irregular tem os piores momentos da série

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Os primeiros episódios da terceira temporada de “Lost” deixaram bem claro, para os fãs mais atentos, que os produtores estavam repetindo uma receita utilizada, no início do ano anterior, para manter o sabor de novidade da série. O truque era introduzir novos personagens, vivendo em um ambiente dentro da ilha, até então desconhecido. O início promissor da terceira temporada põe o espectador no interior da vila onde vivem os temidos Outros. Levando em consideração o incrível interesse gerado na audiência pelo líder da comunidade de vilões, o enigmático Henry Gale (Michael Emerson), cuja identidade real ninguém conhecia realmente até o episódio inaugural desta temporada, a decisão dos produtores parecia correta.

Na fição, os vilões levavam clara vantagem sobre os mocinhos. Os mais ativos sobreviventes do vôo 815 da Ocean Air, na ilha há pouco mais de dois meses, haviam acabado a temporada anterior na prisão. Jack (Matthew Fox), Kate (Evangeline Lilly) e Sawyer (Josh Holloway) são mostrados na pequena cidade cercada pela selva. O primeiro está separado dos outros dois, detidos numa espécie de jaula ao ar livre. Jack, contudo, recebeu uma missão individual e passou a conviver diariamente com uma outra médica, que milita no lado oposto: Juliet (Elizabeth Mitchell). Aos poucos, junto com Henry/Ben e Desmond (Henry Ian Cusick), ela vai formar o trio de personagens mais interessante da temporada. Detalhe fundamental: nenhum dos três fazia parte do elenco original.

O primeiro grupo de seis episódios, exibidos no segundo semestre de 2006, logo deixou claro que alguma coisa estava errada. Despejando mais e mais enigmas sobre o público, sem resolver aqueles criados nas duas temporadas anteriores, e ainda por cima enchendo a ilha com três dúzias de personagens importantes, os produtores começaram a torrar a paciência dos espectadores. A ação avançava lentamente, devido ao enorme número de pessoas que protagonizavam histórias. A estrutura dos episódios, que sempre alternavam trechos no presente com flashbacks de um dos personagens, começava a se mostrar gasta. Grande parte dos flashbacks pareciam gratuitos, sem nada acrescentar à história principal. Personagens como Locke (Terry O’Quinn), Kate e o próprio Jack pareciam não ter mais nada a dizer. Um dos episódios até mesmo enfocou o ridículo resgate de um personagem preso numa caverna por um urso polar.

Logo, os fóruns e blogs de fãs na Internet estavam coalhados de reclamações. A audiência também despencou: após atingir picos de até 18 milhões de espectadores nas exibições pela TV, nos Estados Unidos, a série estacionou nos 15 milhões, permanecendo ainda como líder de audiência no dia de exibição (quarta-feira), mas sofrendo cada vez mais com a concorrência. Foi aí que a série parou por quatro meses, enquanto os dois principais mentores do seriado, os produtores Damon Lindelof e Carlton Cuse, tomaram as rédeas criativas. As decisões vieram em dois campos distintos: 1) os roteiristas decidiram eliminar o excesso de personagens e passar a resolver enigmas regularmente (sem esquecer de criar novos), e 2) A equipe se dedicou a fechar um contrato com a emissora ABC, buscando ter uma data fixa para finalizar a série de uma vez por todas. Data fechada, eles puderam finalmente estabelecer uma escala definitiva para ir resolvendo os mistérios.

Todos esses problemas de bastidores fizeram desta terceira a mais irregular temporada de “Lost”. A primeira metade, em particular, contém alguns dos piores episódios da história da série. O campeão da ruindade já foi citado antes, mas os números 4 (Locke vivendo em uma fazenda comunitária), 9 (Jack passando uma temporada em Cingapura) e 10 (Hurley fugindo do pai) também são bem ruins. O ponto de virada da série, curiosamente, veio no episódio 14, com uma dupla decisão radical dos produtores: reduzir o número de personagens, eliminando dois de uma só vez, e alterar pela primeira vez a estrutura-base de um episódio, fazendo com que os flashbacks acontecessem dentro da própria ilha. Até o final da temporada, essas duas decisões seriam aprofundadas ainda mais, com outros personagens dando adeus – inclusive um membro do elenco original – e mudanças mais radicais no conceito de flashbacks entrecortando a ação no presente.

As alterações deram certo. Embora ainda sujeita a solavancos ocasionais, a série ganhou uma segunda metade muito mais emocionante, em que os produtores se dedicaram com afinco a reforçar a mitologia da série, revelando inúmeras ligações anteriores entre os sobreviventes do desastre de avião (ligações que eles desconhecem, e incluem até mesmo um parentesco consangüíneo entre dois deles). Como se não bastasse, “Lost” passou a explorar conceitos ligados à Física que costumam fascinar os fãs de teorias conspiratórias, como viagens no tempo, buracos temporais, “túneis de minhoca” e o dom de prever o futuro. Um dos melhores episódios da temporada – o número 8, dedicado a Desmond – fez explodirem pelos fóruns na Web as teorias de que a ilha estaria localizada em alguma dimensão paralela.

Além disso, personagens nascidos como secundários ganharam os holofotes. Desmond e Juliet, amados pelos fãs, ganharam dois flashbacks cada um, enquanto Henry/Ben foi protagonista de um dos mais esclarecedores da toda a temporada (o número 20). Neste trecho final da série, os produtores exibiram muita habilidade para criar finais de episódios cada vez mais poderosos, com cliffhangers (ganchos, cenas inacabadas que só serão finalizadas no próximo capítulo) que praticamente faziam o público implorar por um novo episódio. Com a série de novo nos trilhos, Lindelof e Cuse assumiram o roteiro do episódio duplo de encerramento, que trouxe uma série de novidades e uma revelação final chocante.

Críticas? Sem dúvida existem, e não são poucas. Muitos dos enigmas apresentados ao público no último episódio da temporada 2, por exemplo, foram deixadas intocadas ao longo de todos os 23 capítulos. Não houve sequer uma alusão à estátua de quatro dedos, e nenhum personagem fez referência a Michael (deixado navegando em um barquinho vagabundo ao final da temporada anterior). Os lendários pesquisadores que falam português, vistos no episódio de encerramento da segunda temporada, também não deram as caras. Por outro lado, os produtores já mostraram que estão atentos à reação dos fãs, e deram mais de uma demonstração de criatividade na hora de solucionar enigmas aparentemente insolúveis. O resultado final é positivo.

A caixa com sete DVDs, da Buena Vista, é um brinco. A qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) é excelente. Alguns episódios contam com comentários em áudio dos produtores. O disco 7 traz os principais bônus: um documentário mostrando como é um dia normal de gravações, outro reunindo os making of de dez episódios, dois featurettes especiais (um sobre Os Outros, outro com o ator Matthew Fox), uma galeria de flashbacks inéditos, outra com cenas cortadas e uma terceira com erros de gravação.

– Lost – 3ª Temporada
Direção: Damon Lindelof e Carlton Cuse (produção executiva)
Elenco: Matthew Fox, Michael Emerson, Elizabeth Mitchell, Henry Ian Cusick
Duração: 960 minutos

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