Lost – 4ª Temporada

03/09/2008 | Categoria: Críticas

Apesar da enorme quantidade de enigmas e personagens, série mantém qualidade cinematográfica e impacto na cultura pop

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Os números não mentem. Ano após ano, o número de espectadores que acompanham fielmente a série “Lost” tem caído, apesar de o impacto do programa na cultura pop continuar alto. O paradoxo é explicável graças não somente ao aumento da oferta dos episódios em outras plataformas (Internet, celulares), mas também à inovadora estratégia de marketing bolada pelos roteiristas, que inclui jogos on-line, sites falsos e uma política de disseminação regular de boatos. A terceira temporada, por exemplo, começou com 18 milhões de espectadores nos EUA, e terminou com 15 milhões. Este quarto ano, exibido entre janeiro e maio de 2008, viu a queda se acentuar. A platéia caiu de 16 milhões de pessoas (episódio inaugural) para 12 milhões (final). Ainda assim, “Lost” mantém o status de série mais comentada em fóruns, blogs e sites da Internet.

A explicação para esta situação complexa surge não tanto pelas qualidades dramáticas do seriado (montagem, trilha sonora, composição de personagens, bons atores), mas principalmente devido aos flertes do enredo com uma série de conceitos misteriosos e teorias conspiratórias. Para os espectadores mais impacientes, “Lost” oferece dificuldades quase instransponíveis, como a quantidade maciça de personagens importantes (são pelo menos 30 em cada temporada) e a enorme variedade de mistérios e situações inexplicáveis que cada novo episódio agrega à já colossal montanha de dúvidas que se acumulam na cabeça do espectador. Não é à toa que praticamente todos os fãs regulares do seriado o acompanham desde a primeira temporada. “Lost” está longe de ser o tipo de série interessante para recém-chegados.

Como se sabe, o enredo gira em torno do cotidiano de um grupo de 40 sobreviventes de um desastre aéreo, cujo avião despencou em uma ilha desconhecida no Pacífico Sul. Na quarta temporada, a platéia encontra o grupo três meses após o acidente. Neste período, eles já exploraram grande parte da ilha, defrontando-se com situações inexplicáveis e descobrindo uma série de escotilhas que caracterizam o lugar como um centro de pesquisas abandonado. Os sobreviventes também entraram em choque com os habitantes do local. Agora, aguardam a chegada de um navio de buscas, que pode (ou não) ter uma tripulação hostil. E o primeiro episódio já começa com uma grande revelação: seis envolvidos no acidente conseguiram sair de ilha em um futuro próximo, tendo virado celebridades mundiais chamadas de Ocean Six. Quem são eles, e como atingiram este status, são questões centrais no decorrer da temporada.

Curiosamente, o quarto ano conseguiu manter a atenção dos fãs da série mesmo incorrendo em um defeito detectado desde o segundo ano: o aumento incessante do número de personagens. Os tripulantes do navio, que incluem um médium, um físico e um grupo paramilitar completo, não chegam a receber tratamento de protagonistas, mas possuem mistérios individuais que ajudam a tornar o grande quebra-cabeça da série ainda mais complexo. Além disso, os episódios também ampliam a idéia de que todos os passageiros do avião acidentado estavam ligados entre si muito antes da queda, mesmo sem saber disso – em alguns casos especiais, pessoas que estavam na aeronave eram acompanhadas com interesse por gente da ilha desde o nascimento, muitos anos antes.

A qualidade geral dos episódios, infelizmente, não chega a ser homogênea. Vai do empolgante (episódio 5, que vai fundo na idéia das viagens no tempo e apresenta um trabalho de montagem de primeira linha) ao insosso (episódio 7, dedicado a dois dos personagens mais desinteressantes da ilha, os sul-coreanos Jin e Sun), passando pelo surpreendente (episódio 8, que traz a volta de Michael à ilha) e pelo sem graça (episódio 10, repleto de toques sobrenaturais). O grande destaque fica por conta do episódio duplo que encerrou a temporada (episódios 13 e 14), em que os roteiristas conseguem entrelaçar, de forma brilhante, as duas cronologias paralelas – passado e futuro – em que a história era contada até então. Muitas questões importantes (como se formaram os Ocean Six, o que foi feito dos brasileiros mostrados brevemente na segunda temporada) também são respondidas.

De quebra, o encerramento da quarta temporada fornece uma bela pista para a natureza do grande mistério da ilha – e a chamada Estação Orquídea, uma escotilha subterrânea que ainda não havia sido explorada nos três anos anteriores da série, exerce papel fundamental nesta equação. Como de praxe, a última cena da temporada oferece uma revelação chocante, daquela de fazer cair da cadeira e obrigar os fãs a roerem as unhas de expectativa para a temporada seguinte. O veredicto é simples: mesmo apresentando defeitos, “Lost” é conduzido por uma equipe criativa que sabe muito bem prender a atenção de uma platéia e sabe onde está indo, embora muitas vezes isto não pareça verdade.

A péssima grade de exibição da série na TV paga brasileira obrigou a Buena Vista a inovar na estratégia de lançamento para o mercado caseiro. Para tentar reduzir o grande número de espectadores que baixa os episódios na Internet, a empresa decidiu lançar os episódios em DVDs quinzenais, a partir de abril de 2008, com cada disco reunindo quatro episódios. Em dezembro sai a caixa definitiva, com cinco discos, sendo um dedicado aos extras.

A qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) é boa, e o áudio (Dolby Digital 5.1) segue o padrão. Alguns episódios trazem comentários em áudio de roteiristas e produtores. O disco 5 tem cenas cortadas, erros de gravação, featurettes de bastidores de dez episódios e mais quatro documentários especiais. O mais interessante mostra o trabalho dos produtores de elenco para selecionar novos atores para a série. Outro, bem bacana, mostra o esforço da equipe para criar locações internacionais (do deserto do Saara às ruas de Los Angeles) sem sair do Havaí. Há ainda um terceiro sobre as armas utilizadas pelos personagens, e um quarto trazendo a Orquestra Sinfônica de Honolulu executando a trilha sonora da série num espetáculo ao vivo.

– Lost – 4ª Temporada
Direção: Damon Lindelof e Carlton Cuse (produção executiva)
Elenco: Matthew Fox, Michael Emerson, Evanegline Lilly, Terry O’Quinn
Duração: 590 minutos

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