Lost in la Mancha

08/12/2008 | Categoria: Críticas

Por vias tortas, Gilliam acabou conseguindo contar a história de Dom Quixote – só que consigo mesmo como protagonista

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Dom Quixote de la Mancha, personagem clássico da literatura européia, parece ter sido talhado para protagonizar um filme de Terry Gilliam. O subtexto da jornada do fidalgo louco que lutava com moinhos de vento – o poder que a fantasia tem de colorir a existência cinzenta de uma sociedade opressora – rendeu inúmeras histórias extravagantes e visualmente ricas nas mãos do diretor norte-americano radicado na Inglaterra. Não é de estranhar, portanto, que Gilliam tenha sonhado por décadas em levar o romance de Miguel de Cervantes à tela grande. Quando ele tentou fazer isso, em 2000, uma inacreditável seqüência de eventos azarados, incluindo uma tempestade que destruiu equipamentos e problemas de saúde do protagonista, acabou por obrigar o cancelamento da ambiciosa produção.

Por tudo isso, “Lost in La Mancha” (EUA/Reino Unido, 2002) é um caso único na história do cinema: um documentário que focaliza a triste história real de um Quixote pós-moderno sendo derrotado pelos gigantes da realidade. Portanto, o longa-metragem de Keith Fulton e Louis Pepe funciona em dois níveis. É um belo documento sobre as dificuldades logísticas de gerir uma grande produção de maneira criativa, e também estabelece um elo interessantíssimo entre ficção e realidade. Porque, essencialmente, “Lost in La Mancha” conta a história de um homem obsessivo, que luta com todas as forças por um projeto claramente acima de suas possibilidades, e acaba derrotado. O embate Realidade X Fantasia está no coração da narrativa. Terry Gilliam comprova, mais do que nunca, ser um Dom Quixote do cinema. Ainda que por vias tortas, Gilliam acabou conseguindo contar sua história, consigo mesmo como protagonista.

Tudo aconteceu no intervalo de alguns meses. Através de restrições orçamentárias diversas, Gilliam e um grupo de produtores europeus foram capazes de levantar US$ 30 milhões (quase 2/3 do que seria realmente necessário para produzir a obra sem sustos) e atravessar uma pré-produção extremamente complicada, com incrível dificuldade para ajustar as agendas do elenco e conseguir um estúdio na Espanha, onde as filmagens deveriam acontecer. O problema é que as filmagens não passaram do segundo dia. Uma tempestade tropical devastou uma locação e destruiu equipamentos caríssimos, ao mesmo tempo em que o ator francês Jean Rocheford, intérprete de Dom Quixote, desenvolvia uma hérnia de disco que o impossibilitava de montar a cavalo. Era o fim da produção, com prejuízo de US$ 15 milhões para os envolvidos.

Os acontecimentos provocaram um abalo considerável na credibilidade de Gilliam. Uma credibilidade que já não era das melhores, porque o histórico do cineasta para produções complicadas, repletas de atrasos e estouros de orçamento, andava bastante generoso. As brigas homéricas do diretor com os estúdios, durante as produções de “Brazil – O Filme” e “Doze Macacos” se tornaram lendárias. Além disso, havia o caso de “As Aventuras do Barão de Munchausen”, produção curiosamente semelhante em temática ao “Dom Quixote” abortado, cuja fase de gravações foi tão cheia de contratempos e intrigas internas que o orçamento inchou a ponto de transformar o filme no terceiro mais caro de toda a história do cinema, até aquele momento.

Como tinham acesso irrestrito aos bastidores, os diretores Fulton e Pepe – diretores do também ótimo “The Hamster Factor”, documentário sobre a produção turbulenta de “Doze Macacos” – foram capazes de acompanhar de perto a agonia do cineasta e de sua equipe criativa. Lançando mão de uma narração discreta (voz do ator Jeff Bridges) e de transições realizadas com animações toscas feitas ao estilo daquelas criadas pelo próprio Gilliam para o grupo Monty Python, os dois construíram um filme singular e muito interessante, que mostra um artista genuinamente criativo, mas sem nenhum senso prático, sucumbindo pateticamente às próprias ambições. É material valioso para refletir a dicotomia Arte X Indústria que acompanha o cinema desde o nascimento.

O DVD norte-americano traz a melhor versão disponível do longa-metragem. A qualidade de imagem (standard 1.33:1) é razoável, bem como a trilha de áudio (Dolby Digital 2.0). Os extras incluem cenas cortadas, depoimentos de Gilliam e dos atores Johnny Depp e Jean Rocheford. O filme não foi lançado comercialmente no Brasil.

– Lost in La Mancha (EUA/Reino Unido, 2002)
Direção: Keith Fulton e Louis Pepe
Documentário
Duração: 93 minutos

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