Louca Escapada

19/12/2005 | Categoria: Críticas

Steven Spielberg insere tema da família em dissolução dentro de aventura nostálgica

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O motivo pela qual Steven Spielberg foi escolhido pelos executivos da Universal para dirigir a aventura policial “Louca Escapada” (Sugarland Express, EUA, 1974) é bastante óbvio. Três anos antes, ele tinha estreado no terreno do longa-metragem com um suspense arrasador, “Encurralado”, 100% filmado em estradas de verdade. Como o novo projeto era um road movie que exigia do diretor um bom domínio desse tipo de filmagem, o filme foi entregue a Spielberg, que acabara de ter boa experiência com esse tipo de locação. Dessa forma, a estréia do futuro Rei Midas de Hollywood nos cinemas é um produto com a cara do cinema dos anos 1970, agregando a um caso pitoresco um clima de nostalgia indisfarçável.

Logo no seu primeiro projeto cinematográfico (“Encurralado” não conta, pois foi feito originalmente para a TV), Spielberg demonstrou autoridade. Conseguiu, por exemplo, inserir dentro da trama um espaço generoso para uma temática autoral, que iria dominar inteiramente sua obra no futuro: a dissolução da família no âmbito da sociedade norte-americana da virada do milênio. Apesar de ser na superfície uma aventura com toques cômicos e sabor amargo no final, “Louca Escapada” é no fundo um drama sobre uma mãe desesperada que tenta ser o elemento aglutinador de uma família em vias de desagregação.

É por isso que o filme abre com a chegada de Lou Jean Poplin (Goldie Hawn) em uma visita à prisão onde está o marido. Ela é a protagonista, e veste dois fardos de roupas, um deles destinado a providenciar uma vestimenta adequada para que Clovis (William Atherton) escape sorrateiramente do lugar. O ato parece uma estupidez, já que o rapaz está a apenas quatro meses da libertação incondicional. Mas a mulher está decidida. Ou ele sai agora ou ela o abandona para sempre. Lou Jean tem um motivo: o bebê de ambos acaba de ser adotado oficialmente por uma família na cidade de Sugarland, e se o casal não aparecer rápido por lá vai ficar definitivamente sem o pirralho.

O amor de mãe, portanto, é o motor da ação. A dupla escapa da prisão, mas um incidente banal na estrada faz com que eles sejam parados pelo jovem patrulheiro Maxwell (Michael Sacks). Em um ato impulsivo, Lou Jean toma a arma do rapaz e o seqüestra, em um ato logo percebido por outros policiais. O resultado é que, 20 minutos após o filme, o casal Poplin está a caminho de Sugarland, como planejado, mas à frente de um cortejo de duas dúzias de carros da Polícia, cheios de agentes loucos para acertar um tiro num deles.

O roteiro de Hal Barwood e Matthew Robbins foi inspirado em um acontecimento verídico de 1969. Spielberg dirige tudo de forma surpreendente, bem diferente do que havia feito em “Encurralado”. O filme tem atmosfera leve, agridoce, quase surreal. “Louca Escapada” não tem nada de realista; é nostálgico, e evoca os anos 1950 (o próprio nome da protagonista remete à época de Elvis Presley). Se isso dá ao filme um clima gostoso de acompanhar, bem diferente do que se espera de um longa-metragem de perseguição, por outro lado a ação não parece nem um pouco interessada em simular a realidade.

Um destaque evidente é a performance de Goldie Hawn, que exala frescor, juventude e energia no papel principal. A outra peça de resistência do elenco é Ben Johnson, no papel do patrulheiro Tanner, que cheia a perseguição policial e tem bom coração, embora precise agir com dureza. Mas a mão de Spielberg pode ser sentida especialmente nas mudanças que acometem o patrulheiro seqüestrado durante o filme. Reticente e desconfiado no início, ele vai progressivamente simpatizando com o casal, até chegar ao ponto de praticamente ajudá-lo no final. Maxwell representa a platéia dentro do filme; seu comportamento indica ao público que sim, é permitido – e correto – torcer pelos dois criminosos, pois eles são gente boa.

A produção de “Louca Escapada” serviu para que Spielberg estreasse um novo tipo de câmera, chamada de Panaflex. Mais leve, ela permitia movimentos bem mais ousados, e isso fica evidente na composição criativa das tomadas de perseguição, abusando de ângulos baixos. Mas o melhor momento do longa-metragem não envolve malabarismos ou troques de edição. Trata-se da noite que o casal Poplin passa dentro de um trailer roubado, ao lado de um drive in, onde os dois assistem alegremente a um desenho animado do Papa-Léguas, enquanto Clovis providencia a “trilha sonora” do filme, sonorizando os movimentos desastrados do lobo maluco com a boca. É um momento delicado e emocionante, que sublinha a própria trajetória demente do casal, à medida que eles chegam ao fim da linha.

A rigor, “Louca Escapada” faz parte de uma longa linhagem de filmes de estrada sobre criminosos estilosos. Poucos anos antes, Arthur Penn havia surpreendido o mundo com o violento “Bonnie & Clyde”; o filme de Spielberg parece uma versão adolescente da porrada visual estrelada por Warren Beatty e Faye Dunaway. O longa de 1974 ecoaria depois em outras produções, como “Um Mundo Perfeito” (a simpatia da platéia pelos criminosos) e “Assassinos por Natureza”, de Oliver Stone (o comportamento alvoroçado das testemunhas e da imprensa em relação ao caso).

O DVD da Universal é simples e sem extras. Contém apenas o filme, com imagem de enquadramento original preservado (wide 2.35:1) e som apenas OK (Dolby Digital 2.0).

– Louca Escapada (Sugarland Express, EUA, 1974)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Goldie Hawn, William Atherton, Ben Johnson, Michael Sacks
Duração: 111 minutos

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