Louca Obsessão

21/06/2007 | Categoria: Críticas

Filme de Rob Reiner tem narrativa simples e conta com momentos de extrema tensão e

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Um dos maiores pesadelos dos escritores é o bloqueio criativo – encarar a página em branco e não saber como preenchê-la. Curiosamente, este tema esteve muito presente na obra de um dos mais prolíficos autores de todos os tempos, o norte-americano Stephen King. Mesmo publicando romances todos os anos, King jamais deixou de temer o fantasma do bloqueio criativo, e procurou exorcizar este medo criando personagens, escritores como ele, que se viam às voltam com variações do problema. Foi assim em livros como “Tommyknockers” e “O Iluminado”, e também naquele que é o romance divisor de águas na obra de King. O livro rendeu um bom thriller, cheio de tensão e boas interpretações: “Louca Obsessão” (Misery, EUA, 1987).

A importância de “Louca Obsessão” na carreira de King não é financeira. Quando lançou o livro, na década de 1980, o romancista já era famoso e milionário. Até ali, porém, mantinha-se um escritor clássico de horror, colocando seus personagens para lidar com monstros ou ameaças sobrenaturais. “Louca Obsessão” foi o primeiro trabalho de King em que o horror não vinha do inferno, do espaço sideral ou de outra dimensão. Ele criou uma narrativa claustrofóbica ao extremo, em que um escritor acidentado – e portanto em péssimas condições físicas – é mantido prisioneiro num quarto, por uma fã psicopata, até que escreva um livro que não quer escrever. O modo paciente e confiante com o romance lida com a tensão e os espaços apertados é a mais forte característica da história.

Experiente em transportar enredos de Stephen King para o cinema, o diretor Rob Reiner faz em “Louca Obsessão” um bom trabalho. Ele acerta ao manter o foco bem firme sobre os acontecimentos que ocorrem dentro da casa de uma pequena fazenda no território selvagem e gelado do Maine. Annie Wilkes (Kathy Bates) é a enfermeira solitária que salva o escritor Paul Sheldon (James Caan) de um terrível acidente, em meio a uma nevasca. Não demora muito para que Sheldon perceba que a moça gorducha não bate bem da cabeça, tem hábitos violentos e, pior ainda, alimenta uma paixão platônica amalucada tanto por ele quanto pela grande personagem de sua carreira, uma mulher chamada Misery.

Com inteligência, Reiner evita manter a ação exclusivamente confinada ao quarto em que Sheldon repousa, com as pernas imobilizadas por várias fraturas expostas. Se assim o fizesse, talvez a história se tornasse árida e aflitiva em excesso. O diretor, também roteirista, cria uma narrativa paralela em que a agente do romancista (Lauren Bacall) e o xerife da cidade onde ele estava hospedado antes de sumir (Richard Farnsworth) investigam o caso, tentando resolver o mistério do desaparecimento. Embora esta trama paralela se revele inteiramente descartável, Reiner controla a montagem de forma a oferecer, a cada 10 ou 15 minutos, pelo menos uma seqüência longe da fazenda. Tais cenas representam um refresco para o espectador, renovando as esperanças de que tudo poderá sair bem no final.

É no quarto apertado de Paul Sheldon, porém, que o drama mais terrível se desenvolve, com a colaboração valiosa da excepcional atriz Kathy Bates (premiada com o Oscar em 1991) e do ótimo ator James Caan. Alternando momentos de doçura e ameaça aterradora, Bates transforma Annie Wilkes em uma psicopata genuína, um vilão de saias inesquecível e amedrontador. Há seqüências de poderosa eficiência, como aquela em que Sheldon consegue se arrastar para fora do quarto com a ajuda de uma gazua improvisada; o público é mantido encolhido na cadeira através de uma ação apresentada em paralelo. À maneira de Hitchcock, acompanhamos as ações do herói e da vilã, alternadamente, sempre torcendo para que ele consiga escapar da dura punição que viria se a tentativa de fuga fosse descoberta. A tensão aqui é elevada a níveis gloriosos. E há pelo menos uma cena que vai fazer muita gente se contorcer na cadeira, tirar os olhos da tela e sofrer com pesadelos.

O DVD da Fox vem em disco simples e é bastante bom. O filme aparece com boa qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), e contém ainda documentário (19 minutos) e comentário em áudio com o diretor. Os extras, infelizmente, não possuem legendas.

– Louca Obsessão (Misery, EUA, 1990)
Direção: Rob Reiner
Elenco: Kathy Bates, James Caan, Richard Farnsworth, Lauren Bacall
Duração: 107 minutos

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