Loucuras de Dick e Jane, As

13/06/2006 | Categoria: Críticas

Diretor estreante faz refilmagem de longa de 1977 que flerta com a comédia rasgada e a sátira, conseguindo resultado irregular

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“As Loucuras de Dick e Jane” (Fun With Dick and Jane, EUA, 2005) é um filme estranho e irregular. Em tese, a produção tinha tudo para garantir diversão de boa qualidade, desde que trabalhasse dentro dos limites do gênero ao qual pertence. As desventuras de um casal de classe média cujo desemprego provoca dificuldades financeiras apontavam dois caminhos: uma sátira, filme adulto de conteúdo social ácido, ou uma comédia rasgada mais popular, o tipo de material que Jim Carrey carrega com um pé nas costas (e muitas caretas). O diretor estreante Dean Parisot aparentemente ficou indeciso entre as duas coisas, e tentou flertar com ambas. Não se saiu muito bem.

Na verdade, “As Loucuras de Dick e Jane” não é uma sátira de humor refinada, como os filmes do Monty Python, e nem uma comédia slapstick, como os norte-americanos gostam de chamar as coleções de piadas no estilo de “Todo Poderoso”, com o mesmo Carrey. Trata-se de um meio-termo, um híbrido das duas coisas. O resultado é que espectadores interessados em um filme mais ameno podem dar menos gargalhadas do que o normal, e gente mais afeita à sátira tem boas chances de ficar incomodada com o excesso de clichês que marca a produção.

A premissa básica é baseada em um filme de 1977, chamado “Adivinhe Quem Vem Para Roubar”. A informação demonstra como Hollywood anda desesperada por boas histórias, pois já tornou rotina a refilmagem de obras do segundo escalão. A abertura investe na sátira. Dick (Carrey) é um alto executivo de uma megacorporação. Jane (Tea Leoni) trabalha como vendedora. Os dois têm um padrão de vida de classe média alta: uma casa tipicamente americana (dois andares e gramado artificial), carro novo na garagem, vizinhos cheios de pose e pouco tempo para o filho pequeno, que é criado pela empregada hispânica (Angie Harmon). Quando querem fazer sexo, os dois marcam um encontro conjugal nas respectivas agendas.

Uma situação incomum que o filme explora, e bastante interessante, é a situação do filho do casal. Devido à influência da empregada, com quem passa mais tempo, o garoto entende espanhol perfeitamente, adora a MTV Latina e fala inglês com sotaque de mexicano. Depois que o mundo da família desaba quando a empresa de Dick vai à falência, quase ao mesmo tempo em que Jane pede demissão porque o marido acabara de ganhar uma promoção, temos outra situação bastante interessante a ser explorada: uma família acostumada a ter muito luxo que precisa, progressivamente, reduzir seu nível de vida.

O problema é que o diretor Dean Parisot, egresso da TV, parece indeciso entre trilhar a sátira, e com isso tecer comentários sociais sobre coisas como a degradação da família e a selvageria do mundo empresarial, ou mergulhar de vez na comédia rasgada. Existem os dois elementos em “As Loucuras de Dick e Jane”, o que rende boas cenas aqui e acolá, mas entre elas o filme se arrasta, sem fazer rir ou comentar os problemas sociais que aborda ligeiramente. A ótima seqüência em que Dick tenta arrumar um trabalho temporário na comunidade mexicana, enquanto Jane testa um novo cosmético e se arrisca a enfrentar uma alergia grave, é o melhor momento, um vislumbre do ótimo filme que “As Loucuras de Dick e Jane” poderia ter sido. É a única cena longa que consegue fundir com eficiência as duas pontas que a produção tentar unir.

No geral, contudo, a produção saltita entre um tipo de humor e outro, o que resulta em falta de ritmo. As cenas de alto poder cômico ficam em um compartimento e as satíricas, em outro; há pouca comunicação entre as duas coisas. A seu favor, o filme conta com um casal protagonista competente, dois atorers da pesada, que se sai bem na sátira e ainda melhor na comédia rasgada (observe todo o trecho em que Dick e Jane resolvem assaltar para poder pagar as contas, e em especial a hilariante cena em que Carrey, mascarado como um ninja, brinca com o comunicador eletrônico que usa para falar com a parceira de crime).

Por outro lado, incomoda a falta de originalidade das piadas, pinçadas de outros sucessos do cinema americano recente. A gag que envolve uma coleira para cães capaz de dar choques, por exemplo, foi roubada do longa-metragem animado “South Park” sem a menor cerimônia (lá, o objeto era um implante capaz de liberar descargas elétricas quando seu portador diz um palavrão). Além disso, existem erros de continuidade imperdoáveis para um filme de grande orçamento. Em determinada cena, quando Dick e Jane conversam dentro da sala de estar da família, a iluminação muda subitamente de um tom azulado de meio-dia para um amarelo crepuscular. Em outra, Dick veste uma calça preta que volta e meia vira branca.

Além disso, no último terço o filme busca inspiração em longas como “Onze Homens e Um Segredo” (até na trilha sonora) e afunda de vez, buscando um final burocrático e sem sentido, que não combina com o perfil do casal protagonista. De qualquer forma, esse tipo de detalhe não costuma ser notado pela platéia habitual dos Multiplex, cujo nível de exigência para elementos como originalidade e fluência narrativa anda muito abaixo do tolerável. Pensando assim, e levando em consideração a excelente receptividade que o público brasileiro costuma dar a comédias apenas razoáveis, não é difícil dizer que “As Loucuras de Dick e Jane” tem boas chances de emplacar como diversão inconseqüente.

O lançamento brasileiro é da Sony. O disco contém o filme com enquadramento original preservado (widescreen anamórfico) e som OK (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem cenas cortadas, erros de gravação e trechos de uma coletiva de imprensa.

– As Loucuras de Dick e Jane (Fun With Dick and Jane, EUA, 2005)
Direção: Dean Parisot
Elenco: Jim Carrey, Tea Leoni, Alec Baldwin, Angie Harmon
Duração: 91 minutos

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