Loucuras de Verão

05/01/2009 | Categoria: Críticas

Comédia leve e nostálgica tem roteiro inovador e parte técnica impecável, em especial no tratamento de áudio

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“Loucuras de Verão” (American Graffiti, EUA, 1973) é o pai de todos os filmes adolescentes que focalizam o período mais dramático da juventude: a passagem do colégio para a universidade. O filme foi concebido como um tributo nostálgico à perda da inocência dos jovens norte-americanos – fenômeno historicamente relacionado à virada dos anos 1950 e 60, quando a trama se passa – e acabou, de certa forma, por definir a carreira de George Lucas como um diretor que compreende bem a sensibilidade dos adolescentes. Importante ressaltar que o fato de ser uma comédia leve e nostálgica não tira em um milímetro sequer os méritos do filme, tanto no roteiro inovador quanto na parte técnica impecável, em especial o tratamento de áudio.

O clássico vintage de George Lucas gerou imitações de qualidade variável, do ótimo (“Jovens, Loucos e Rebeldes”, de Richard Linklater, que basicamente atualiza a trama para os anos 1970) ao péssimo (todos aqueles filmes televisivos sobre garotos punheteiros no ginásio lançados nos anos 1980). É irônico perceber, porém, que Lucas batalhou por dois anos para conseguir transformar sua idéia em filme, inclusive gastando grana do próprio bolso nos estágios iniciais de desenvolvimento e tendo que brigar com os estúdios Universal para poder manter intacta sua visão da história – o estúdio queria interferir em praticamente tudo, tendo tentado mudar o nome, inserir uma trilha sonora orquestrada e até mesmo um assassinato no roteiro.

O enredo conta quatro histórias em paralelo e está ambientado em uma única noite, numa pequena cidade da costa oeste dos EUA, em 1962. É uma noite especial para quatro rapazes que estão saindo da escola para ir à universidade. Dois deles, Curt e Steve (respectivamente Richard Dreyfuss e Ron Howard), têm planos de viajar para estudar em outros estados. O terceiro, John (Paul LeMat), é o galã da cidade e carrega a fama de ser invencível no volante de um automóvel, uma fama que começa a se tornar incômoda. Por fim, Toad (Charles Martin Smith) é mais jovens que os demais e está tendo a primeira oportunidade de rodar pela cidade com um automóvel incrementado – o carro pertence a Steve, que lhe pediu para guardá-lo até voltar da universidade. As câmeras de George Lucas seguem o quarteto, e mais um punhado de garotas que gravitam em torno deles, até o amanhecer.

“Loucuras de Verão” foi um dos primeiros filmes a contar quatro histórias paralelas e simultâneas sem que houvesse uma conexão enfática entre elas. Este detalhe incomodou bastante a Universal. O estúdio tentou convencer Lucas a criar algum elo de ligação direto entre as histórias (um crime, talvez?), mas não conseguiu. Naquela época, os realizadores ligados à geração chamada New Hollywood estavam seguindo um preceito fundamental dos jovens franceses da nouvelle vague, que haviam chacoalhado o cinema alguns anos antes: o personagem tem mais importância do que o enredo. Por isso, Lucas não achou conveniente dar importância ao entrelaçamento das histórias. Ele filmou como se estivesse fazendo um documentário. Os operadores de câmera, por exemplo, não recebiam instruções sobre enquadramento ou composição da imagem – apenas deviam seguir os personagens, da melhor forma que conseguissem.

Essa abordagem trouxe problemas práticos. Após ver os copiões dos primeiros dias de filmagem, Lucas entendeu que não poderia dispensar a figura do diretor de fotografia, como imaginara. Pior: quase todas as cenas se passavam em locações reais, ao ar livre, e estavam ficando escuras demais. Como iluminar ambientes assim? O craque Haskell Wexler foi conduzido às filmagens e ganhou a incumbência de bolar maneiras de iluminar as cenas apropriadamente, sem deixar o equipamento aparecer e sem limitar a movimentação dos atores. Wexler substituiu lâmpadas de rua por holofotes cenográficos (até 100 vezes mais potentes). Por outro lado, o estilo de filmagem permitiu aos jovens atores improvisar e modificar os diálogos à vontade. Lucas também gostava de incluir erros não planejados dentro da edição final (atente para a ótima cena de abertura, em que uma Vespa mal dirigida por um dos atores tromba com uma lata de lixo – aquilo foi um acidente feliz que entrou no filme).

O grande toque de gênio veio pelas mãos do editor de som, Walter Murch. Trabalhando em uma época cuja tecnologia de mixagem sonora ainda era precária, Murch inventou uma maneira criativa de fazer as fontes sonoras se movimentarem dentro do espaço cênico, simulando assim a percepção acústica de uma pessoa parada que escuta o rádio de carros em movimento. Ele gravou as 41 canções da trilha sonora em condições especiais de acústica, como ginásios vazios (eco à vontade), corredores de concreto (reverberação ampla) e ao ar livre (quedas abruptas de volume). Durante essas sessões, ficava andando para lá e para cá, com os alto-falantes nas mãos. Esse tratamento, associado à escolha impecável de clássicos do rock’n’roll dos anos 1950, gerou uma trilha sonora maravilhosa, e também de grande complexidade e sutileza.

Peguemos um exemplo: a cena em que Steve e a namorada dançam, no baile da escola, ao som de “Smoke Gets in your Eyes” (The Platters). No início da cena, quando o casal está brigando, a canção soa ampla e com eco. É realista, como se estivesse sendo mesmo tocada num ginásio. À medida que a conversa evolui, o casal pára de brigar e entra num clima mais intimista. O ambiente sônico também muda; a canção perde a reverberação. A percepção de espaço amplo desaparece, dando lugar a uma reprodução fiel da dinâmica sonora da música, como se o ouvinte passasse a ouvir com fones de ouvido. Através da mixagem da canção, Walter Murch reduz drasticamente o espaço sonoro em que a cena se passa, refletindo de forma sutil a mudança do tom emocional que o casal enfrenta. Há inúmeros momentos assim em “Loucura de Verão”.

A edição de colecionador foi lançado no Brasil em dois formatos de DVD, sozinha (disco simples) ou em dupla com a continuação oficial do longa, “E a Festa Acabou” (disco duplo). Nos dois casos, trata-se do mesmo DVD. O filme aparece com ótima qualidade de vídeo (widescreen anamórfico) e áudio (Dolby Digital 2.0). O principal extra é um excelente documentário de Laurent Bouzereau (78 minutos), que cobre cada passo do projeto, da concepção ao lançamento. Pena que só existem legendas em inglês para este documentário.

– Loucuras de Verão (American Graffiti, EUA, 1973)
Direção: George Lucas
Elenco: Richard Dreyfuss, Ron Howard, Paul LeMat, Candy Clark
Duração: 112 minutos

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