Lua de Papel

12/04/2007 | Categoria: Críticas

Comédia nostálgica sobre “casal” de trapaceiros aposta na dinâmica entre atores – e acerta

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Como quase todos os grandes filmes dos anos 1970, “Lua de Papel” (Paper Moon, EUA, 1973) não teve origem na cabeça de cineasta, mas nos escritórios de executivos de Hollywood. Peter Bogdanovich, jovem cineasta promissor que havia encantado o mundo com “A Última Sessão de Cinema” (1971), só o assumiu para não ficar desempregado, depois da recusa de John Wayne em protagonizar o faroeste que vinha escrevendo. Porém, a abordagem cuidadosa que Bogdanovich dedicou à produção foi fundamental para transformar o filme numa brilhante comédia nostálgica sobre um casal incomum de trapaceiros que percorre as estradas poeirentas do meio-oeste norte-americano, durante os anos difíceis da Grande Depressão.

Situada no ano de 1935, a história “Lua de Papel” tem sua peça de resistência principal na dinâmica entre dois personagens. O detalhe que confere frescor e originalidade à produção é que eles não formam um casal. Ou melhor, estão longe de ser um casal comum. Moses (Ryan O’Neal) é um vigarista profissional, que usa a boa aparência para sobreviver aos anos difíceis da Lei Seca vendendo Bíblias a viúvas. Addie (Tatum O’Neal) é uma criança de nove anos, entregue aos cuidados dele após a morte da mãe. Moses recebe a ingrata incumbência de levar a menina do Kansas até o Missouri, onde deve entregá-la na casa da tia, única parente viva. Ele odeia a sugestão, mas não consegue dizer não. O plano, portanto, é fazê-lo o mais rápido possível. Mas Addie, uma esperta e pequena fumante inveterada, tem outra idéia.

“Lua de Papel” é um daqueles felizes exemplos de filmes em que o diretor, confiante até a medula após um par de trabalhos elogiados quase unanimemente, toma todas as decisões certas. Da escalação do elenco até o impulso de filmar em preto-e-branco, tudo é perfeito no longa-metragem. Até mesmo os improvisos, sempre um risco, funcionam com perfeição. O melhor exemplo é a fabulosa seqüência de encerramento, que não estava no roteiro original de Alvin Sargent. A equipe começou a filmar sem saber como terminar o filme, e a idéia da última tomada surgiu apenas depois que a designer de produção, Polly Platt, encontrou a paisagem espetacular de uma estrada rural que sumia no horizonte. Ela mostrou a região a Bogdanovich, que teve uma epifania e escreveu na hora toda a brilhante seqüência, uma daqueles momentos em que risos e lágrimas se confundem sem o menor traço de pieguice.

Não há dúvida de que o grande destaque do filme é a interpretação magnética de Tatum O’Neal. Aos oito anos, a filha verdadeira do então super-astro Ryan – também sensacional no papel do simpático salafrário Moses – simplesmente dá um show de espontaneidade e irreverência. Quando os dois estão em cena (ou seja, 90% das cenas) a dinâmica é perfeita; só faltam sair faíscas da tela. Impressionante, além disso, é perceber que Bogdanovich foi capaz de manter intacto o estilo clássico de filmar em longas tomadas em cortes, mesmo com uma criança iniciante aparecendo em virtualmente todas as cenas – por terem menor capacidade de concentração, crianças erram diálogos com facilidade, e por isso é mais fácil filmá-las em takes curtos, editando-os com muitos cortes. A mais famosa cena é um plano-seqüência de cinco minutos que flagra uma discussão entre Moses e Addie, dentro do carro. É um prodígio de comédia, com timing perfeito de ambas as partes.

Além disso, a fotografia em preto-e-branco do húngaro Lásló Kovács é inebriante. Aceitando a sugestão valiosa de Orson Welles (o mestre mandou-o usar filtros vermelhos, ensinando que eles aumentavam os contrastes, abrindo largos pontos de luz branca no rosto dos personagens e deixando o céu com aparência de tempestade), Kovács tratou de usar lentes grande-angulares para obter imagens com grande profundidade de foco, o que confere enorme dinamismo à trama. Em diversas tomadas, pode-se ver claramente duas ações acontecendo, uma em primeiro e outra em segundo plano, com iguais nitidez e brilho. Tanto cuidado vazou para a equipe de produção, e a ambientação – os automóveis, os interiores, a trilha sonora – dá o acabamento perfeito a um filme encharcado de nostalgia, e no entanto perfeitamente alegre.

Infelizmente, foram poucos os profissionais envolvidos com o filme a experimentar tamanho nível de excelência no futuro, seja profissional ou pessoalmente. As exceções são o fotógrafo Kovács (“Os Caça-Fantasmas”) e o produtor Frank Marshall (a série “Indiana Jones”, “O Sexto Sentido”). Já Ryan O’Neal e Bogdanovich acabaram engolidos pelos respectivos egos, devidamente amplificados pelo sucesso. Tatum jamais conseguiu outro bom papel em cinema, e adulta se tornou mais famosa pelo temperamento explosivo do que pelo talento. Para completar, pai e filha brigaram feio na adolescência dela, alguns anos mais tarde, e nunca mais voltaram a se falar. Uma pena.

O DVD da Paramount é simples, mas caprichado. A qualidade de imagem (wide 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0) é excelente, e um comentário em áudio de Bogdanovich foi incluído. Há ainda um ótimo documentário em três partes (35 minutos), dirigido pelo craque Laurent Bozereau e repleto de detalhes informativos sobre as filmagens. Todo o material tem legendas em português.

– Lua de Papel (Paper Moon, EUA, 1973)
Direção: Peter Bogdanovich
Elenco: Ryan O’Neal, Tatum O’Neal, Madeline Kahn, John Hillerman
Duração: 102 minutos

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