Lugar na Platéia, Um

05/06/2009 | Categoria: Críticas

Danièle Thompson filma Paris com olhar turístico em comédia romântica bobinha, agradável e que reflete sobre temas áridos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Comédia romântica leve e alto astral, “Um Lugar na Platéia” (Fauteuils d’Orchestre, França, 2006) apareceu no Brasil de mansinho, ganhando exibições esporádicas em eventos alternativos, como a mostra de cinema do Rio de Janeiro, em 2006. Aos poucos, foi angariando admiradores fiéis e se beneficiando de forte propaganda boca-a-boca, terminando por se constituir em um sucesso no circuito alternativo de exibição, ainda que jamais tenha chegado ao conhecimento do grande público. Uma injustiça, aliás, pois se trata de um filme comercial, doce e até meio bobinho, mas que não subestima a inteligência da platéia. Por trás da aparência ingênua, há até reflexões interessantes sobre temas áridos, como a difícil relação entre a arte e o público que a consome.

“Um Lugar na Platéia” é o terceiro projeto de direção da cineasta Danièle Thompson, filha de um lendário ator-diretor francês, Gerard Oury. Ela mantém a tradição de filmar comédias românticas, chamando atenção especialmente para o olhar de turista que dedica à parte nobre de Paris – o filme funciona como uma espécie de cartão postal daquela adorável e caríssima parte da cidade onde fica a Torre Eiffel, as lindas avenidas dos Champs Elysées, as charmosas margens do Rio Sena e todos aqueles monumentos que fazem da capital francesa o marco turístico mais importante do planeta. Este olhar de turista é facilmente explicável, porque a diretora nasceu e cresceu em Mônaco, e filma esta espécie de declaração de amor a Paris com o tom de curiosidade e otimismo de um estrangeiro.

O filme é estruturado na forma de três histórias paralelas. Elas são interligadas por uma personagem que freqüenta os três ambientes, uma garçonete cuja trajetória é desenvolvida em um apêndice do roteiro. Jessica (Cécile De France) é uma garota pobre e ingênua do interior francês, que migra para Paris com a intenção de seguir os passos da avó e trabalhar no famoso Hotel Ritz. Simpática, ingênua e prestativa, ela fracassa no intento original, mas arruma emprego num pequeno bistrô encravado na região da chique avenida Montaigne. O lugar, um daqueles charmosos restaurantes de pequena escala que abundam em Paris, fica entre um teatro, uma ópera e uma casa de leilões. Em cada um desses lugares, uma história diferente se desenvolve.

O teatro é o local de trabalho de uma famosa atriz de TV (Valérie Lemercier); a ópera serve de palco para ensaios do novo espetáculo de um pianista famoso (Albert Dupontel); e a casa de leilões está ocupada por um velho colecionador de arte (Claude Brasseur), que está vendendo tudo o que acumulou para viver os últimos anos que lhe restam com conforto. Jessica entrega lanches nos três lugares e, graças ao espírito curioso e ao sorriso ingênuo que fica gravado no rosto como um carimbo perpétuo, faz amizade com os três. Não demora muito para que a moça perceba que os três estão em crise, assim como ela própria. A dela, aliás, é bem mais pragmática, típica de uma pessoa com poucas posses – precisa encontrar rapidamente um lugar barato para morar em Paris. Os outros três protagonistas vivem crises bem mais complexas, emocionais.

A atriz, por exemplo, trabalha duro para construir uma reputação profissional mais nobre. Ela está milionária graças a trabalhos em novelas de TV, mas deseja provar ao mundo que tem talento. O pianista, por sua vez, não agüenta mais a rotina de entrevistas e puxa-saquismo das altas rodas. Está de saco cheio das platéias aristocráticas, pensando em se mudar para a beira de algum lago deserto e virar ermitão. Já a crise do colecionador de arte é mais pessoal – ele não consegue acertar as pontas com o filho (Christopher Thompson, rebento da diretora e co-roteirista do filme), que demonstra ser uma pessoa rancorosa, alguém que nunca conseguiu sair da sombra do pai e construir uma personalidade própria.

Um dos maiores trunfos de “Um Lugar na Platéia” é a proximidade, na atmosfera jovem e alto astral, de grandes sucessos do cinema francês contemporâneo, como “Albergue Espanhol” (2002) e em especial “O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain” (2001). Jessica, a personagem central, é uma espécie de versão moderna da sonhadora Amèlie. Danièle Thompson não investe no mesmo tipo de rebuscado visual pop-retrô elaborado por Jean Pierre Jeunet, mas fotografa Paris com a mesma ânsia turística – perceba a abundante quantidade de tomadas em que a Torre Eiffel aparece em segundo plano. Por outro lado, a diretora faz de cada uma das três tramas principais uma pequena alegoria da relação conflituosa entre o artista e o público, preenchendo as entrelinhas com um conteúdo bem mais rico e interessante do que o normal.

O DVD da Dreamland Filmes traz o filme com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Um Lugar na Platéia (Fauteuils d’Orchestre, França, 2006)
Direção: Danièle Thompson
Elenco: Cécile De France, Valérie Lemercier, Albert Dupontel, Laura Morante
Duração: 106 minutos

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