Lula e a Baleia, A

26/09/2006 | Categoria: Críticas

Retrado do efeito devastador de um divórcio não-amigável sobre os filhos é um filme de personagens densos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Filmes que criticam em tom ácido a instituição familiar representam uma sólida tradição no cinema independente nos Estados Unidos. A maior vitrine dessa produções, o festival de Sundance, revela todo ano meia dúzia de longas-metragens que se dedicam a desancar a família do norte-americano médio. “A Lula e a Baleia” (The Squid and the Whale, EUA, 2005) é um representante legítimo do gênero, mas apresenta uma importante diferença: o diretor estreante Noah Baumbach escolheu, para desancar, não um núcleo familiar conservador e suburbano, como é de praxe, mas um casal de burgueses intelectuais de esquerda.

Este detalhe faz toda a diferença. A esmagadora maioria dos filmes independentes ataca o americano médio, aquele morador do subúrbio que é favorável à pena de morte, vota no Partido Republicano, apoiou a invasão ao Iraque e acha que o Brasil fica na África. “A Lula e a Baleia”, contudo, volta as baterias contra a parcela mais liberal e intelectualizada da população, aquela que preenche o perfil de um personagem de Woody Allen. É um grupo que freqüenta ou freqüentou uma universidade, critica a política externa de George W. Bush e se preocupa com os efeitos do aquecimento global. De fato, é bastante raro que um integrante deste grupo liberal, de onde vem quase toda a comunidade cinematográfica dos EUA, critique seus pares com tanta veemência.

É verdade que Noah Baumbach foi hábil o suficiente para personalizar cada um dos quatro integrantes da família Berkman, de forma que o filme jamais assuma estar construindo uma parábola que ataca um grupo social inteiro. Em outras palavras, “A Lula e a Baleia” não tem a pretensão de falar sobre todas as famílias; deseja contar a história de uma só, com foco explicitamente voltado para o devastador efeito que o divórcio litigioso de um casal, com insultos e chantagem emocional de parte a parte, tem sobre os filhos. Nesse sentido, a obra acerta em cheio seu objetivo. É um filme que toca em um nervo exposto, especialmente se o espectador vem de um lar que guarde alguma semelhança com os personagens.

O enredo é claramente autobiográfico, e isso é assumido pelo diretor, inclusive na ambientação da história: o começo dos anos 1980, quando Noah Baumbach era um adolescente mais ou menos da idade de Walt (Jesse Eisenberg), o filho mais velho. Certo dia, ele e Frank (Owen Kline) são surpreendidos com a notícia de que os pais, Bernard (Jeff Daniels) e Joan (Laura Linney), vão se separar. Como pessoas civilizadas, os adultos anunciam que farão tudo amigavelmente. Terão guarda compartilhada das crianças, o que significa que os meninos passarão a ter duas casas, e ficarão em cada uma, durante dias alternados. Tudo dividido igualmente, com bom senso, como se espera de um casal de romancistas que lê Hemingway e Freud nos momentos de lazer.

Olhando mais de perto, contudo, o retrato de maturidade se revela mera aparência, conversa para boi dormir. Bernard, outrora um romancista promissor, é um frustrado de marca maior. Vive de dar aulas e não consegue mais publicar. Rói-se de inveja de Joan, que começou a rabiscar contos para matar o tempo e acaba de conseguir um contrato com uma grande editora. A vingança dele é expor para os filhos, de forma calculadamente casual, maldades sobre os casos extraconjugais de Joan. Em resumo, é um homem mesquinho, ególatra egoísta, competitivo ao extremo, sendo capaz de berrar com o filho mais novo apenas porque perdeu um ponto numa inocente partida de pingue-pongue.

O outro lado não é muito melhor. Se à primeira vista Joan parece ser mais madura e ter mais controle da situação, com o tempo revela desatenção com as crianças e completa inabilidade para poupá-los dos ataques de fúria de Bernard. Além disso, é ninfomaníaca e emenda um amante atrás do outro. Em uma cena particularmente esclarecedora, ela tenta conversar com Walt sobre os traumas do divórcio usando, como exemplo, um caso que teve com um professor na época da faculdade, sem perceber o quanto a história é dolorosa para o filho. Ou seja, é uma tonta sem sensibilidade.

“A Lula e a Baleia” é um filme de personagens, cujo maior mérito é revelar um diretor e roteirista com grande talento para trabalhá-los. Foi feito em somente 23 dias e com um orçamento de apenas US$ 1,5 milhão, e mesmo assim atraiu gente boa, como Jeff Daniels, aqui escondido sob uma barba digna de Rasputin e mostrando uma faceta diametralmente oposta de sua verve cômica, mais conhecida por filmes como “Debi e Lóide” (1994). Linney também está muito bem, assim como os dois garotos semi-desconhecidos, escolhidos para integrar a família Berkman.

Um nome que se sobressai nos créditos é o de Wes Anderson, diretor de “Os Excêntricos Tenenbaums” (2002), produção com quem guarda uma série de semelhanças: a Nova York idealizada, a trilha sonora pop descolada, a atmosfera levemente onírica e profundamente melancólica, além de um carinho quase sólido com que trata os personagens-crianças. No geral, contudo, revela-se mais amargo e pessimista, além de utilizar um humor mais sombrio. É o senso de humor peculiar, aliás, que funciona como a cereja no bolo, quando aparece com força no episódio em que Walt se apropria da sorumbática canção “Hey You”, do Pink Floyd, para vencer um concurso de jovens talentos na escola (“eu sinto que poderia ter escrito essa canção”, diz ele). Muito, muito bom.

O DVD da Sony tem excelente qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1). Também conta com um comentário em áudio do diretor, mais um making of e entrevista com Baumbach em vídeo. Pena que o material extra não tem legendas.

– A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale, EUA, 2005)
Direção: Noah Baumbach
Elenco: Jeff Daniels, Laura Linney, Jesse Eisenberg, Owen Kline
Duração: 81 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »