Luta Pela Esperança, A

15/02/2006 | Categoria: Críticas

História verídica talhada para Hollywood vira um filme sobre boxe bem feito, mas que não dói

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Algumas pessoas têm encontrado dificuldade em compreender o fracasso de “A Luta Pela Esperança” (Cinderella Man, EUA, 2005) nas bilheterias norte-americanas. O filme de Ron Howard fez pouco mais de US$ 50 milhões durante o período em que esteve nos cinemas. É muito pouco para um produto clássico de Hollywood, criado com técnica impecável, boas atuações e um gigantesco número de clichês. Talvez esteja nesse último item a razão do fracasso. Afinal, o maior clichê de todos é o filme que lembra demais um sucesso anterior. E, se puxar um pouco pela memória, qualquer espectador vai perceber que já viu esse filme antes, com Sylvester Stallone no papel principal. Além do mais, “Rocky”, de 1976, não é um filme qualquer, mas um longa-metragem que fez milhões de fãs ao redor do mundo e ganhou vários Oscar.

Não adianta que Ron Howard e os produtores digam que a história do boxeador James J. Braddock (Russell Crowe) foi inspirada em um homem de carne e osso, enquanto a trama com Stallone é fictícia. É verdade, e a trajetória do lutador de origem irlandesa é tão fantástica que já deveria ter sido transformada em filme antes – trata-se de uma história perfeita de perseverança e otimismo, talhada para Hollywood. Mas a ficção superou a realidade. Para o público de cinema, o carismático Rocky Balboa será visto sempre como a inspiração de Braddock. Não importa que o personagem vivido por Russel Crowe tenha protagonizado um dos maiores feitos esportivos que o mundo já viu. Para os cinéfilos, ele sempre será um Rocky de segunda categoria.

Os verdadeiros fãs do esporte certamente sabem quem foi Jim Braddock. Lutador de carreira ascendente em 1929, ele chegou a lutar pelo título mundial dos pesos pesados, mas perdeu a luta e acabou sendo atropelado pelos acontecimentos subseqüentes à quebra da bolsa de Nova York. Com contusões sérias e sem dinheiro, acabou tendo que trabalhar nas docas para manter a família e se afastou do boxe. Retornou em 1933 graças a um acontecimento inusitado. O filme de Ron Howard ilustra essa segunda chance e tenta mostrar como o exemplo de vida de Braddock serviu de inspiração para a população do país mais poderoso do mundo, que passava por sérias dificuldades na época.

Como de praxe, a equipe técnica realiza um trabalho muito bom na reconstituição de época. Cenários e figurinos reproduzem com exatidão as fotografias e filmes em preto-e-branco que o mundo conhece sobre a crise de 1929. O cortiço apertado, frio e escuro em que Braddock vive com a mulher Mae (Renée Zellweger) e os três filhos lembra, por dentro, um barraco de qualquer grande favela brasileira, e é fiel à realidade. A melhor cena do filme, nesse aspecto, é a curta seqüência em que Braddock vai ao campo de desabrigados montado no Central Park para procurar um amigo desaparecido. Quem se acostumou a ver o parque nova-iorquino como cenário das comédias de classe alta de Woody Allen vai se impressionar com a sujeira, a violência e a feiúra do lugar.

Também merece destaque a excelente fotografia de Salvatore Totino, que utiliza com criatividade a iluminação para emular o estado de espírito do protagonista. Observe, por exemplo, que durante o período mais difícil de sua vida, quando chega a ter que pedir esmolas aos amigos para poder comer, o mundo de Braddock é frio, cinzento e escuro. Em várias cenas, a única iluminação é fornecida apenas pela luz bruxuleante de velas. A partir do momento em que o lutador retorna ao boxe, o filme ganha cor e textura progressivamente, mas de maneira discreta.

As lutas, que dominam a segunda metade do filme, são bem filmadas, mas é aí que começa a aparecer com mais evidência a fragilidade de Ron Howard. Diretor clássico, de estilo quase invisível, o cineasta tenta se arriscar em um terreno diferente, utilizando recursos pouco comuns para enfatizar as sensações – de dor e tontura até culpa e medo – de Jim Braddock durante as lutas. São closes, câmera lenta e/ou subjetiva e cortes rápidos em seqüência que remetem inevitavelmente a “Touro Indomável”, de Martin Scorsese. E é a referência ao clássico definitivo sobre boxe que deixa claros os problemas de “A Luta Pela Esperança”.

Scorsese, bem à sua maneira, escolheu biografar um lutador menos conhecido e mais enigmático. O diretor de “Taxi Driver” fez um tratado antológico sobre a fúria, aquele ímpeto irresistível de esmagar algo ou alguém, que todos nós sentimos em algum momento de nossas existências. Ron Howard, ao contrário, escolheu um homem e o redesenhou como a si mesmo: um modelo de comportamento fora dos ringues, carinhoso com os filhos, fiel e amoroso com a esposa, de integridade e honestidade inabaláveis. Em resumo, alguém que é protagonista de uma história inusitada e emocionante, mas um alguém que pessoalmente é desinteressante, sem sal mesmo.

A primeira metade, que flagra a decadência de Jim Braddock, é muito boa. Há um punhado de cenas que ilustram bem o drama do boxeador. Um acontecimento cotidiano, repetido algumas vezes ao longo da projeção, é bem impactante. Trata-se da escolha dos trabalhadores que vão passar o dia carregando sacos no porto da cidade. Uma multidão de homens se acotovela em uma fila, cada um implorando para ser escolhido e ganhar alguns trocados. Imagine, então, a frustração e a sensação de impotência resultantes da negação dessa essa oportunidade esquálida.

O melhor momento de todo o filme aparece em outra cena, no dia em que Braddock enfrentou o ponto mais baixo de sua trajetória. Sem comida e nem dinheiro para pagar a conta de luz, ele se vê obrigado a entrar no escritório dos promotores de lutas de boxe e literalmente passar o chapéu, pedindo esmola. A interpretação segura de Russell Crowe (que equilibra bem as facetas sombria e iluminada do lutador) transforma a cena em momento emocionante. A partir dali, é certo que a platéia vai torcer sem parar por Jim Braddock.

Já a segunda metade de “A Luta Pela Esperança” expõe todos os problemas do filme, a começar pela psicologia simplória e insuficiente que tenta explicar as vitórias do boxeador. Em uma das lutas, Braddock vai tomando uma surra antológica quando flashes de memórias pipocam rapidamente: a fome, os filhos chorando, a casa sem luz. Sua postura muda quase no mesmo instante. O olhar decidido parece bater no adversário, a boca ensangüentada se abre em um esgar de sorriso. Ao ver aquilo, o outro atleta hesita. Está derrotado. Se a montagem é eficiente, a moral não é. Nenhuma vontade do mundo seria capaz de segurar socos de um homem de 100 quilos.

Além disso, a risível tentativa de criar um vilão para que o bonzinho Braddock tenha um contraponto é um dos erros clássicos da mentalidade maniqueísta de Hollywood. O vilão é o campeão mundial dos pesados, Max Baer (Craig Bierko), retratado como brutamontes psicopata de comportamento asqueroso, dentro e fora do ringue. O filme nos diz que Max Baer já matou dois lutadores de pancadas, e tenta nos convencer que a luta de Braddock será não para ganhar o título mundial, mas para sobreviver. É um dos clichês mais batidos de Hollywood, e aqui não funciona de jeito nenhum. E pior: é mentira, pois o verdadeiro Baer, cheio de resmorso, sustentou a viúva do lutador que matou (por acidente) até a morte. O Max Baer de Ron Howard é um rascunho de personagem que jamais soa humano.

De resto, vale comentar a performance desigual do elenco. Paul Giamatti, que interpreta Joe Gould, agente e parceiro de Jim Braddock, rouba a cena mais uma vez com uma atuação espirituosa e cheia de energia. Ele faz um bom par com Russell Crowe, mas a dupla é estragada pela interpretação exagerada e cheia de maneirismos de Renée Zellweger, que parece não conseguir mais se livrar do espírito de Bridget Jones. Quando chora, Zellweger chega a ser patética.

Em resumo, “A Luta Pela Esperança” é um bom filme, mas abaixo do próprio potencial. Ron Howard sabe como contar uma boa história, e tem as ferramentas para isso. Ele narra os fatos relacionados à trajetória de Jim Braddock de maneira eficiente, e só. Ou seja, o diretor se contenta em permanecer chafurdando na superfície, sem jamais mergulhar fundo na alma do seu personagem, como Scorsese fez com Jake La Motta em “Touro Indomável”. Esse sim, é um filme que machuca. “A Luta Pela Esperança” é sobre boxe, mas não dói.

O DVD é da Buena Vista. O filme aparece com enquadramento correto (wide 2.35:1), som excelente (Dolby Digital 5.1), um documentário de bastidores e uma galeria de cena cortadas.

– A Luta Pela Esperança (Cinderella Man, EUA, 2005)
Direção: Ron Howard
Elenco: Russell Crowe, Renée Zellweger, Paul Giamatti, Craig Bierko
Duração: 144 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


4 comentários
Comente! »