Lutador, O

20/05/2009 | Categoria: Críticas

Galã nos anos 1980, Mickey Rourke é corpo e alma de um longa-metragem honesto e tocante, que versa sobre solidão e tendência à autodestruição.

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Uma das principais tarefas do diretor de um filme – e talvez uma das mais subestimadas – é a escalação do elenco. Em certos casos, dá até para dizer que escolher os atores certos para os papéis certos representa metade do trabalho de um cineasta. Este é o caso de “O Lutador” (The Wrestler, EUA, 2008). O brilhante estudo de personagem dirigido por Darren Aronofsky, que capta de modo meticuloso e ao mesmo tempo com urgência documental a subcultura dos praticantes de luta livre, não seria tão multifacetado se o protagonista tivesse sido interpretado por outro ator que não Mickey Rourke. O galã dos anos 1980, convertido em paródia de si mesmo após uma série de cirurgias plásticas que desfiguraram seu rosto, é corpo e alma de um longa-metragem honesto e tocante, que versa sobre solidão e tendência à autodestruição.

“O Lutador” seria um filme completamente diferente se tivesse Nicolas Cage no papel principal. O astro chegou a assinar contrato e iniciar a preparação, freqüentando eventos de luta livre, no final de 2007. Por sorte, ele concordou com Aronofsky quando o diretor, prestes a iniciar as filmagens, argumentou que Rourke agregaria ao personagem sinceridade e verossimilhança de um modo que ele, Cage, jamais seria capaz. Aronofsky estava se referindo à enorme semelhança entre as trajetórias do personagem ficcional e do ator. Mickey Rourke, não custa lembrar, interrompeu a carreira no auge para lutar boxe profissionalmente, entre 1991 e 1995, numa trajetória regada a álcool e drogas que lhe destruiu a face. Cage sabia disso e, inteligentemente, não se colocou como obstáculo. Retirou-se do projeto e deixou o filme se tornar uma obra muito mais interessante e verdadeira.

Em “O Lutador”, Rourke interpreta Randy ‘The Ram’ Robinson, velho astro de luta livre nos anos 1980 que literalmente luta para continuar vivo. Ele é refém de um estilo de vida insólito que marca toda a subcultura dos viciados no esporte (estamos falando do que nos EUA se chama “wrestling”, em que dois lutadores fantasiados executam coreografias violentas dentro de um ringue, em uma mistura de circo e pancadaria real). Nos dias de semana, trabalha como carregador de mercadorias num supermercado local; aos sábados, se transforma no rei dos ringues de espetáculos esvaziados de luta livre. Gasta tudo o que ganha com tintura de cabelo, esteróides anabolizantes e bronzeamento artificial, porque a imagem do corpo musculoso é vital para a sobrevivência profissional dentro da subcultura dos lutadores.

Ao sofrer um ataque cardíaco (provavelmente fruto de uma vida de excessos de todos os tipos), Randy recebe um ultimato: ou pára de lutar, ou morre. A situação o obriga a pôr sua vida em perspectiva. O que ele encontra é solidão e miséria. Vive num trailer vagabundo (mas dorme freqüentemente dentro do carro, por atrasar o pagamento do aluguel) e não mantém contato com a filha (Evan Rachel Wood), que abandonou na infância. Sua única relação afetiva mais ou menos estável é com uma prostituta (Marisa Tomei) que dança nua em uma boate das redondezas. A doença o obriga a encarar uma verdade inexorável: as escolhas que ele fez no passado o transformaram num solitário crônico, um homem engolido pelo tempo, destinado inapelavelmente a pertencer a um passado morto e enterrado. Será que ele conseguirá a redenção?

Este é um filme de personagens. Por isso, depende tanto dos atores – e Aronofsky foi feliz não apenas na escalação de Mickey Rourke, mas também na de Marisa Tomei. A atriz, vencedora do Oscar de atriz coadjuvante em 1993, penou por anos a fio sem conseguir bons papéis após o prêmio. Como Mickey Rourke, ela foi ao inferno e voltou. A realidade da trajetória dela compartilha semelhanças com a personagem ficcional, e isto a transforma imediatamente na mulher perfeita para o papel. As cenas com os dois juntos funcionam em múltiplas dimensões, graças aos dois rostos vincados de quem apanhou muito da vida e precisa matar um leão por dia para sobreviver.

Eles formam uma dupla simétrica, que o roteiro de Robert D. Siegel constrói habilmente: são, ambos, pessoas que usam o corpo como profissão. Quando caracterizados, cada um habita o seu próprio universo ficcional. Em certo momento da trama, entre uma pole dance e outra, Pam mostra porque está muito à frente de Randy, em termos de maturidade e espírito prático: “Você acha que sou uma stripper, mas não sou. Sou uma mãe. A boate e o mundo real não se misturam”. O problema com Randy é que ele sempre se negou a separar a vida e o trabalho em duas esferas distintas, como ela faz. Ele sempre habitou um mundo de fantasia. Nas horas de folga, Randy joga videogame (sempre jogos ultrapassados de luta livre!) com crianças da vizinhança. Quão revelador é este dado?

Com dois personagens tão sólidos nas mãos dos atores perfeitos, o trabalho que resta a Darren Aronofsky é aplicar à história uma abordagem documental, simples e direta. Neste sentido, “O Lutador” representa uma evolução considerável em relação a “Fonte da Vida” (2006), rebuscado trabalho anterior do diretor. Aronofsky sobre se despir dos excessos na parte estética sem deixar de lado a atenção com os detalhes. Aqui, a direção de arte impecável se destaca pelo naturalismo com que cenários, objetos cênicos e figurinos são utilizados para ajudar a contar a história, reduzindo os diálogos ao mínimo necessário para fazer a ação dramática avançar.

Por exemplo, Randy dirige uma caminhonete capenga que tem um boneco dele mesmo (caracterizado como lutador, claro) pendurado no espelho do motorista. Parte de trás dos bancos do veículo é forrada de fotos e recortes de jornal que lhe lembram a fase áurea dos anos 1980. Ele ouve rock pesado (Guns’n’Roses, AC/DC e Accept) e compra um gigantesco arsenal de drogas farmacêuticas todas as semanas. O vendedor dos produtos ilegais é um outro lutador, tão bombado quanto ele, que carrega consigo um estoque de medicamentos capaz de rivalizar com uma filial da Farmácia dos Pobres. A cenografia está inteiramente de acordo com o mundo ficcional habitado pelos personagens. Os figurantes e coadjuvantes, muitos deles egressos do mundo real da luta livre, também contribuem para a sensação de realidade que permeia a história.

Além disso, Aronofsky demonstra interesse quase antropológico em observar o ambiente da subcultura dos lutadores: a camaradagem, a decadência, a naturalidade com que eles encaram a violência como entretenimento, os encontros amistosos para combinar os golpes que serão utilizados em cada luta, tudo isso ajuda a compor um ambiente absolutamente crível. Por outro lado, mesmo sem abandonar totalmente o estilo rigidamente controlado que desenvolveu nos três filmes anteriores da carreira, Aronofsky opta por usar uma mise-en-scéne mais espontânea do que o habitual, graças em parte à opção pela câmera na mão. Há alguns planos-seqüência, em que a câmera segue Randy caminhando (ele é sempre filmado por trás) por diversos ambientes, mas elas não chamam a atenção para si. São bem mais sóbrias e discretas, por exemplo, do que as tomadas hiper-coreografadas de Alfonso Cuarón em “Filhos da Esperança” (2006).

Aliás, o filme é aberto com um desses planos-seqüência. A cena vem logo após os créditos (simples e eficientes, destacando a tipologia e as cores primárias das transmissões de luta livre pela TV) e mostra Randy caminhando do vestiário até dentro do ringue, para mais uma luta. A tomada tem dupla função. Além de fazer uma homenagem sutil a “Touro Indomável” (1980) – longa de Martin Scorsese que é referência obrigatória para filmes sobre lutadores autodestrutivos – também faz uma rima perfeita com outro plano-seqüência, executado mais adiante no filme, só que em outro ambiente e num contexto totalmente diferente. Espectadores mais atentos notarão que Aronofsky chega, inclusive, a utilizar o som do primeiro plano-seqüência como ambiente sonoro para a caminhada mostrada no segundo, mixando-o em volume gradativamente mais alto ao longo da tomada. A técnica serve para realçar a enorme dimensão emocional que o fracasso exerce sobre Randy Robinson.

O único problema de “O Lutador” está na subtrama paralela que envolve a filha dele (e o problema pouco tem a ver com o fato de Evan Rachel Wood, atriz competente, não possuir a mesma singularidade encontrada nos dois personagens principais, algo que a rebaixa involuntariamente a um nível inferior de empatia com o público). Em determinado ponto da narrativa, Aronofsky cede à tentação de flertar com o melodrama, numa cena que destoa bastante, no tom emocional, do restante do filme. Ainda bem que o deslize dura apenas uma cena, e o retrato duro e sem retoques da existência solitária de Randy ressurge logo em seguida. Alguns podem argumentar ainda que a trajetória do lutador rumo ao clímax do filme é meio previsível. Não deixa de ser verdade, mas até do uso das convenções narrativas clássicas Aronofsky consegue extrair criatividade, encerrando o filme com uma linda tomada que deixa o final ambíguo e aberto. Muito legal.

O DVD da Paris Filmes traz o filme com razão de aspecto alterada em relação ao original (o disco stá em widescreen 1.85:1 anamórfico, quando o enquadramento usado nos cinemas era wide 2.35:1 – ou seja, há cortes laterais na imagem) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Não há extras.

– O Lutador (The Wrestler, EUA, 2008)
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis
Duração: 115 minutos

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